ENTRE
CRÔNICAS, AGUDA...
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Tânia Ferreira


Mulher,quando fica sozinha, chora. Um choro doído. Não é choro de tristeza. Uma mulher sabe a tristeza. Pôde sabê-la num dia lindo de abril em pleno janeiro, diante das montanhas que a enternecem desde a adolescência já
passada em Belo Horizonte e alguém falou para ela escutar: Estas montanhas são apenas cascas... Do lado de lá, pleno vazio, oco infinito. A mulher que só vê montanhas por um ângulo, só conhecia delas a beleza. Naquele dia, ao som da voz, a mulher aprendeu a tristeza. Sem qualquer tempero. Sem qualquer ingrediente. Crua. Pura, a tristeza acenou para ela. O choro de mulher não é choro de saudade. Uma mulher sabe a saudade. Ela a vira brilhar em seus olhos de menina franzina numa despedida. Dias depois ela sabia a saudade o que era. Choro de mulher não é choro de desapontamento. Este, ela sentira vibrar em seu corpo quando fora traída pela amiga. É choro sem eco no pensamento. É só choro. Não é choro de lamento. Não é descontentamento. Vem de lágrimas incrustadas no peito que deslizam do silêncio. O choro chora na mulher. É choro sem tradução. Pensou-se que pudesse ser esse choro parente da culpa, filho da angústia, primo da mágoa. É só choro. Não encontra enlace em razão nenhuma. Só choro. Escute então a frase curta e delicada como se o fisgasse no sentido: só.. Choro. Seria então esse choro, um verbo ? Quisera. É substantivo. A sozinhez, então esse choro? Mas a palavra é cheia de insuficiências para dizê-lo. Ele vem a qualquer momento. Momento... Faz lembrar a palavra da mãe: "Menina momenta". Essa palavra engraçada vem de momo... "farsa popular ou ator que a representa ", diz a gramática traduzindo a mãe. Até a mãe, quando fala, pode ser traduzida, esse choro não. Impetuoso demais e dilacerante para ser momo. Menina momenta chora a espera, o sim e o não, chora a raiva, a frustração, o excesso de demanda, chora isso e aquilo...qualquer coisa então. Mas já não é a menina que chora. É choro feminino. É choro de mulher.


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