julio saens

Às vezes venta,
de madrugada
conto de
Sonia Coutinho

Uma mulher que dorme mal de noite. E acordada, no escuro, pensa em coisas ruins. Como neste momento.
Tem uma porção de coisas ruins em que pensar.
Sua solidão, por exemplo. Mora sozinha há 20 anos e não lhe resta nenhum parente nesta cidade, o Rio de Janeiro.
Pensa, em seguida, em seu envelhecimento: passa dos 60 e faz tempo desistiu dos homens. Isso pode doer, às vezes. Principalmente de madrugada, no escuro.
E dói muito mais quando falta dinheiro. Vive de uma aposentadoria miserável e de alguns trabalhos de digitação. Daqui a algum tempo, o que será dela?
E já houve a Doença, três anos atrás. Foi operada, não ficou nenhuma seqüela. Mas continua fazendo exames de controle.
O que será dela, torna a pensar, no escuro.

***

Sim, o seu envelhecimento. Tenta disfarçar, pinta o cabelo regularmente, só usa roupas esportivas, jovens.
Mas, já faz algum tempo, as pessoas a chamam inevitavelmente, de "senhora", às vezes até com um ar de deferência.
E, embora ainda não tenha alcançado os exigidos 65 anos, começou a entrar na fila dos idosos, nos bancos. Que lhe foi indicada, um dia, por um cretino bem-intencionado.
Levou um susto mas, com humildade, entrou - a fila era a mais curta. E, dali em diante, sem constrangimento, passou a procurá-la.
Quando pensa na imensidão do seu passado é que tem verdadeira consciência da velhice. Tanta coisa já lhe aconteceu!
De muitas, esqueceu. De outras, sempre lembrará. Como, por exemplo, dos seus casamentos desfeitos.
Depois do primeiro, os outros acabam naturalmente, aprendeu. Não há nada que prenda um segundo casamento sem filhos.
Depois do terceiro, desistiu de acreditar em casamento. O que, para ela, significou uma mudança radical de cabeça.
Apesar das aparências em contrário, sua grande crença, no fundo, era no "amor de salvação". Como uma fé.
Mas, tendo percebido que esse amor nunca viria, precisou salvar-se sozinha ou, pelo menos, sobreviver sozinha.
Até hoje se vira.

***

Cedeu aos namoros rápidos, para ela humilhantes. Interromper a relação nunca mais foi decisão sua. A certa altura, era sempre deixada de lado, o outro sumia de repente.
Tornou-se, exteriormente, uma "audaciosa descasada dos anos 70-80." Agora já sabe, o analista revelou: o motivo de tudo era seu Trauma Sexual Infantil. Por trás da audácia, a dolorosa carência.
Estava desvendado o seu Mistério, tudo não passava de uma incurável frigidez.

***

Dos anos 90 em diante, ficou muito cansada. Ou talvez estivesse, enfim, muito calma. Era o momento, sentiu, de Desistir de Homem.
Um momento que chega para toda mulher sozinha e, quem sabe, para as casadas também, de outra maneira.
Em seu caso, foi sem dor. Com a mesma paz com que, certo dia, parou de menstruar.
Quem sabe conseguirá morrer assim.

***

Bem, essa criatura tem, pelo menos, algo que muita gente ainda consideraria um "privilégio". Mora num apartamento próprio, na Zona Sul do Rio de Janeiro.
Um apartamento comprado às custas de sucessivos financiamentos, ao longo de uma vida inteira. Mas agora é seu.
Pequeno, mas com varanda e vista. Um luxo. Só que fica em andar alto e lá venta muito.
Quando há vento, ela ouve um uivo.

***

Depois da operação para extirpar a Doença, teve uma recuperação dolorosa, mas foi apenas isso. Não sentiu mais nada.
Sente-se curada. Por recomendação do médico, foi a um psiquiatra, que lhe passou um tranqüilizante e um indutor do sono, para ela poder dormir.
Ficou quase calma. Mas, quanto ao sono, o resultado não foi inteiramente satisfatório. Dorme, sim, durante algumas horas, mas jamais até de manhã.
Acorda todos os dias na madrugada ainda escura. É seu momento mais difícil, abrir os olhos às quatro horas da manhã. Como se acordasse de um pesadelo. Susto e escuridão.

***

Alguns minutos depois, melhora. E então se levanta para cumprir sua rotina. Que começa com a ida para a cozinha, a fim de lavar alguma louça que sempre deixa na pia sem limpar.
Usa sempre a água quente, é um dos seus confortos. Além de escuras, as madrugadas em seu bairro são quase sempre frias.
Lava a xícara para o chá — deixou de tomar café — e também a pequena panela onde faz seu mingau, em geral de aveia.
E lava ainda o prato onde põe sempre uma fruta para comer.
Ultimamente, até pensa até que não morrerá tão cedo. Quando doente, achava que sobreviveria, no máximo, um ou dois anos.

***

O que vem a seguir também está programado: tomar banho, calçar seus tênis, dar uma caminhada, ir ao supermercado. Usa o velho carro que ainda mantém, do tipo popular.
À tarde, trabalha no computador. E à noite, atualmente, nunca sai. Tem poucos amigos e sua família mora toda em outra cidade e não gostam dela. Sim, por causa de sua juventude livre e até feliz.
Que nenhum deles teve e pela qual jamais a perdoarão.

***

Imagina a inveja que sentiam dela, quando era bonita e tinha muitos homens, viajava para toda parte e vivia, aparentemente, com grande intensidade.
Claro, por trás de tudo havia a Dor, mas eles não sabiam.
De qualquer forma, existia muita coisa boa em sua vida, naquele tempo, conclui agora. Jovem, jamais se acharia capaz de viver do jeito como vive, atualmente.
Mas está suportando.
Sim, estranhamente para ela, está suportando.
Tem até suas pequenas alegrias. Gosta de usar prato combinando com a xícara, por exemplo. Fica alegre quando, na hora do chá, vê que acertou com a xícara e o prato iguais.
Claro que passou por coisas horríveis. Mas, com os tranqüilizantes, está dando para levar.

***

Hoje, acordou mais cedo. Acabou de tomar seu chá e ainda não clareou. Inesperadamente, faz mais frio. Está com três suéteres, uns por cima dos outros. Mas ainda sente frio.
Volta para a cama e cobre as pernas, com a manta de lã.
E fica esperando. Daqui a pouco clareia, pensa.
Não será mais insuportável.
Mas lhe ocorre, de repente - pensamento terrível - que ninguém lamentaria de verdade, se ela morresse agora.
Como chegou a esse ponto? A pergunta fica sem resposta.
Logo virá a claridade, diz para si mesma. E, com a claridade, tudo parece bem melhor, sabe por experiência própria.

***

Só que, de repente – ah, meu Deus, não esperava por isso – começa a ventar.
Em seu apartamento, cheio de portas de vidro que dão para pequenas varandas, o vento soa como um uivo.
São longos uivos - e ainda está escuro.
Fica ouvindo. E, pouco depois, começa a rezar.
Reza em voz alta um Pai Nosso e uma Ave Maria.
Talvez o vento pare, talvez clareie.
Mas o vento não pára e a escuridão continua.
E, pela primeira vez, depois daquela operação, pensa que talvez o pior não seja a idéia de morrer.
Talvez o pior seja a idéia de continuar vivendo.

***

Claro que não vai agüentar muito tempo mais, conclui.
De repente, tem a certeza de que não dá para esperar.
Ela se antecipará.

 

 

soniacoutinho.jpg (12007 bytes) Sônia Coutinho, contista,  autora de diversos livros dentre eles
"O último verão de Copacabana",  lançado pela Editora José
Olympio em 1985 e agora reeditado pela  7 Letras. O conto
"Toda Lana Turner tem seu Johnny Stompanato" figura na
coletânea  "Os cem melhores contos brasileiros do século",
organizada por Ítalo Moriconi.
Esse conto figura também, entre outras, na coletânea americana
"One Hundred Years After Tomorrow", organizada pela
professora Darlene Sadlier, com literatura brasileira feminina
do século XX. "O último verão de Copacabana" teve ótimas
críticas em toda a imprensa brasileira. Ganhou duas vezes o Prêmio Jabuti. soniac@ism.com.br

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