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Rua da Bahia em 1902 (reprodução)

PASSANTES DA AGONIA

Sidney José do Carmo

 

Na Belo Horizonte do início do século xx, os médicos- escritores Ezequiel Dias, Octávio de Magalhães e Carlos Chagas, discípulos de Oswaldo Cruz, convocam o vigor da poesia para conviver com a doença e a morte.

 

    O Clima agradável logo fez de Belo Horizonte, nas primeiras décadas do século xx, um lugar aprazível ideal para a cura da tuberculose. Ao lado dos engenheiros cariocas que vieram para trabalhar na construção da primeira cidade planejada do país, ilustres médicos doentes para cá se transferiram, entre os quais Cícero Ferreira, Hugo Werneck, Borges da Costa e os discípulos diretos do sanitarista Oswaldo Cruz: Ezequiel Dias, Octávio de Magalhães e Carlos Chagas. Reunidos com a incumbência de instalar uma filial do Instituto Oswaldo Cruz em Belo Horizonte, esses médicos não tardaram a se dividir entre a ciência e arte, passando a promover saraus em que liam e discutiam o que se produzia na Europa, principalmente França, em matéria de poesia. Com especial predileção por poéticas da linhagem de Baudelaire, logo identificaram a passagem da linguagem pela mesma desagregação formal que se verificava na sociedade.
   Seduziram-nos a dessacralização da morte, notável no poeta francês, bem como a aproximação do amor à morte, à maneira de Byron.
   Pouco a pouco, aqueles médicos romperam com a visão tradicional que opõe palavras como bem e mal, belo e feio, nobre e vil. Além dos chamados poetas malditos, contribuíram de forma decisiva para essa ruptura os postulados do simbolismo, as formas descritivas, sobrenaturais, de um El Greco, a movimentação trágica do Barroco, o pesadelo de Goya, a epilepsia de Brueghel ( e a de Machado de Assis). Também não deixou de ser estímulo para essa reconceituação da morte, a escravidão, que chegara ao fim havia pouco tempo, deixando um sentimento de inferioridade em todos. Sobretudo diante da escravidão, com toda sua violência contra o humano, é que a literatura passou a se lhes apresentar como uma espécie de força terapêutica.
   A filial do Instituto Oswald Cruz – hoje, Fundação Ezequiel Dias – foi criada no dia 27 de junho de 1907, na Rua da Bahia, centro de Belo Horizonte, onde funciona atualmente a Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa. O principal ``operário`` da filial, Ezequiel Dias, era cunhado de Oswaldo Cruz e foi um dos primeiros a trabalhar em Manguinhos, onde se instalou a lendária matriz da Fiocruz. Morreu de tuberculose, com apenas 42 anos, em 22 de outubro de 1922, deixando recomendações para que seu corpo fosse amortalhado num lençol e ficasse sem flores, longe da vista de todos. Assim começa Carlos Chagas um texto sobre o amigo: ``... Quando, no desvelo de uma saudade que não finda, regressamos aos tempos primitivos de Manguinhos e procuramos relembrar naquela época as melhores alegrias de um convívio cordial e afortunado...``
   Poucos médicos do seu tempo tinham tanta desenvoltura no manejo do vernáculo como Ezequiel Dias. Publicou ""Traços de Oswaldo Cruz "e o resumo histórico``O Instituto Oswaldo Cruz 1899-1918``, além de inúmeras teses e artigos . Sempre inquieto, traduziu Flaubert, Rosseau, Schiller, além de obras científicas do alemão e até do aramaico. O mais baudelairiano de seu grupo, traduziu o autor d`as flores do mal em 1905, bem como escreveu poemas que são legítimas paráfrases de Baudelaire, como este ``Credo`` , que traz implícito o ``Ladainhas do Diabo`` do poeta francês: `` Creio na morte, a boa companheira da vida,/sua irmã mais fiel do que esta,/que é rameira impiedosa e vã./Creio na dor, na dor do corpo e dàlma , que se transmuda em pranto,/Remédio vão, que nem sequer acalma tanto tormento, tanto.../ Creio no ódio, creio na vingança, medonha, a rugir./ Creio no mal, no demo, no pecado, pois só pecado existe/ Creio que o peito humano é tortura, creio em tudo que é triste./Creio também num sonho remansoso, sereno como o luar,/Fruído, finalmente, no repouso da mansão tumular.``
   Atuando como uma sombra que lhe havia ter criado dentro da alma um sentimento de revolta contra a injustiça do destino, a tuberculose leva Ezequiel Dias a escrever, desenvolvendo aquele interesse especial ``pelo detalhe e pelo detalhe do detalhe`` de que fala François Laplantine na sua Antropologia da doença, um processo similar ao que caracteriza a microbiologia na medicina.
   A sensibilidade atenta ao detalhe é que permite que Dias visualize as enormes contradições da vida social brasileira do início do século xx: de um lado, promessas de industrialização; de outro, cólera, malária e outras pestes sacrificando a população, um quadro que favorecia a imaginação de um sentido trágico a atormentar a existência. O melhor retrato desse morados da rua Gonçalves Dias, 344, em Belo Horizonte- Ezequiel Dias-, deu-nos Pedro Nava, no seu Beira-mar.
   ``...A este eu só conhecia de vista e de cumprimentar. Ele era aureolado por tal fama de saber, eram tão célebres seu cunhadio e colaboração com Oswaldo Cruz, que sua pessoa só era vista dentro de um halo de adoração pelos discípulos.
   Desde a primeira vez que o vi, encarei – o fascinado, e no bonde sentava no banco no caradura só para apreciá-lo, no chapéu – de – chile muito descido sobre os olhos, nestes a mansidão meio irônica e sorridente; nos bigodes levantados e no cavanhaque que terminava triangularmente o rosto fino; no corpo alto e magro; na postura elegante, nos colarinhos duros e muito altos, no colete fechado, no decoro da roupa escura – geralmente azul- marinho. Minha admiração era tal que ficava a encará-lo quase com impertinência. Um dia ele notou isto, surpreendeu-se, considerou-me também, mas o que ele leu na minha fisionomia embasbacada deve tê-lo agradado, porque sorriu a meio e tocou de leve o couvre- chef da sua aba.
   Logo desbarratei-me com espalhafato e começaram daí nossas relações de cumprimento. ``
   Já Carlos Chagas cultuava o que Edgar Morin, no seu Amor poesia sabedoria, chama de
`` estado poético``. Sua escrita é fundamentalmente influenciada pela visão literária do seu tempo: ``Não é fácil separar, com exatidão, pensamentos de palavras, e a palavra é o pensamento simbólico``, anota. Comenta-se que passara uma temporada em Ouro Preto e lá ``cometeu`` algumas poesias no melhor estilo boêmio, que teriam sido enviadas às prováveis namoradas. Para Chagas, a doença seria uma espécie de ``instrumento de transfiguração artística``, o mesmo ponto de vista que fomentou o florescimento da ``poesia científica`` de um Augusto dos Anjos.
   Entre os médicos- escritores, o que mais escreveu e publicou foi Octávio de Magalhães. Seu entusiasmo cultural o levava desde o manejo do violão de Catulo da Paixão Cearense até o diálogo com cientistas ilustres, como Albert Einstein. Foi experimentador de métodos medicinais, biologista, fisiologista, microbiologista, anatomapatologista, sanitarista, educador, professor universitário e humanista. Sua contribuição é das mais significativas em cada um desses terrenos. Amigo de Ezequiel Dias, foi um dos instauradores da medicina experimental em Minas Gerais.
   Octávio de Magalhães era uma espécie de Marcel Proust : `` os fazedores de desertos brasileiros não são menos criminosos do que os que vão criando o deserto do nosso passado``, afirma no livro Ensaios. O que parece dualístico no discurso de Magalhães volta-se para o pensamento francês: ``O que é vergonhosos, afrontoso à majestade da vida humana, é que nos queiram permitir a vida como um favor de um exemplo, e não como um direito sagrado garantido``. O enraizamento do seu modo de pensar em Pasteur e Baudelaire, seu sentimento científico- satanista, revela-se nesta aula sobre o `` escorpionismo``:
``... o veneno na cauda – o veneno. Realmente , na cauda, e só na extremidade da cauda, há o veneno... Símbolo de constelações ou signo de mês; arma de suplício em objeto de culto, foi sempre pelo que de horror ele inspirou aos homens de todos os tempos que sua figura de arthopodo solene e majestoso aparece nas tradições humanas. Na obra de Plínio, nos cantos de Virgílio e de Plutarco, inteligentes ou tardigrados, astuciosos ou néscios, venenosos ou inofensivos – a vida dos escorpiões se agita, ora cheia de lendas, ora com observações penetrantes, que os séculos vieram confirmar.``
Quando era chamado a opinar sobre a cultura brasileira, falava: ``A arte, o sensualismo tremendo da raça mista``, e emendava, a propósito das dores do mundo: `` O espetáculo diário das misérias humanas não vos estancará as lágrimas nem os tremores das emoções.`` E era assim que a relação entre literatura e saúde pública, na Belo Horizonte do início do século xx, não ficava restrita às paredes acadêmicas, era algo realmente visceral, bem expresso nas palavras veementes de Octávio de Magalhães: Senhores ! Precisamos primeiro viver!
`` esta falta de independência mental é um sinal evidente de fraqueza, de inferioridade, tanto entre homens como entre nações. Demonstra uma falta de confiança nas próprias forças. Ainda somos relativamente jovens no concerto das nações, mas já é tempo de ir deixando para o lado esta feia ação de copiar. Ao invés de ver o que a experiência de nossa civilização, do nosso passado, dos nossos costumes, da nossa vida, enfim, pede e exige, vamos buscar em outras sociedades costumes diferentes, aquilo que nos deve reger em estrutura social, em ensino, em arte, em ciências... Somos, por isso, uns eternos retardatários, em perenes mutações.`` Pontifica Octávio nos Ensaios .
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`..Acabaram de soar as nove badaladas no convento dos Franciscanos. Num tranqüilo recanto da rua Montecaseros, com frente para a colina onde se acha o cemitério, demora um solar antigo situado num jardim de hortênsias. Um lustre encarnado, ao alto da varanda, ilumina suavemente as escadarias. No salão de visitas também vermelho, tudo é escuridão. Na sala de jantar, algumas pessoas cabisbaixas falam à surdina, pisando na ponta dos pés. Ao lado, num quarto, à luz mortiça de um ``abat-jour``, jaz estendido ao leito o vulto ofegante de um homem`` trecho de texto do médico- escritor Ezequiel Dias retratando seu mestre e cunhado, Oswaldo Cruz, morto .

 

 Poeta e artista cênico, Sidney José do Carmo nasceu em Belo Horizonte.
Em fins dos anos 80, atuou intensamente no grupo performático ``Vírus Mundanus``,

encenando autores como os franceses Baudelaire, Rimbaud, Válery, Lautréamont e
os alemães Paul Celam e Gerg Trakl, além do norte- americano Edgar Alan Poe e
os brasileiros Murilo Mendes, Drummond, Dantas Mota e Augusto dos Anjos.
Desde o início dos anos 90, vem realizando pesquisas na fronteira literatura/saúde
pública, com suporte da Fundação Ezequiel Dias –
Desenvolve na Escola de Saúde Pública de Minas Gerais o Projeto Saúde Com Cultura.

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