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WILMAR SILVA E AS RAZÕES DE "ANU"

Roosewelt Loyola

A imagística e a linguagem de "Anu" (livro publicado pela Orobó Edições, Coleção Mil Vozes 14, Belo Horizonte, 2001), não podem ser definidas com uma só frase e nem constituem um bloco íntegro e monolítico. O eterno fluxo da natureza, a mutação da narrativa tanto do agente observador e como a coisa observada, feito ondas musicais, são intuídas, no tempo, e está presa a uma imagística (estética), visual exterior quanto interior, a fim de atingir a objetividade e buscando a essência do conteúdo de uma poesia conseqüente, equilibrada numa linguagem crítica, explosiva, viva.
Em "Anu", Wilmar Silva foi mais longe, acordou para a forma da língua e, naturalmente, possibilitando-nos vermos que o instrumento da poesia é a imagística e a linguagem, além disto, que o fazer poético é prática do poema como impacto entre a palavra e os fatos, a sonoridade e a sensibilidade. Podemos perceber numa leitura atenta a mutação normativa da linguagem, uma cisão metalingüística (Çeiva), para a atividade indicativa (Pardal de Rapina), e se transmuta em elementos fantásticos, adquirem características de delírio, de loucura perante a realidade mágica em aparições oníricas em "Anu".

"riomarnointeriordasgraiz
euanuavesoubichonasenda
poçudespelhoáslisárguacor"

O mundo incondicional do poeta, não admite compromisso com a formalidade desprezando as regras da língua como fonte de prazer visual. A consciência da linguagem enquanto ferramenta, é o requisito básico para a concepção de uma poesia inquietante. Há uma predominância do signo e do significante, sobre o significado, um relaxamento da forma, uma construção despida de tradicionalismo. A palavra é sempre um feixe de significações: mas ela o é em um grau eminente de intensidade se comparada aos códigos convencionais de prosa. Além de referente semântico, o signo imagístico é portador de sons e de formas visuais que desvendam, fenomenicamente, as relações íntimas entre o significante e o significado.

"perderteuvôoérisciodvidia
sinaurpocanuavdomaulto
ainuelrmoeuplanqtoêsódo
teualvobrilhantquasejade"

Os padrões da língua resistem a qualquer ruptura, interpretada pela linguagem, condicionadora dos valores ocidentais, transcendem a mudança da língua, a linguagem em especialmente estado selvagem. O autor liberta a linguagem e a imagística das dimensões do tempo e do espaço, fazendo-a projetar um fluxo infinito de imagens, numa cadeia praticamente sem fim nem princípio. A ação externa descrita pelo "Anu", as descrições da natureza são ricas, as imagísticas dos diálogos são vivíssimas e abundantes. Tudo se desenrola num clima de tensão insuperável, como se cada palavra, de cada nuance, dependesse a nossa própria percepção. Não só a sensação aflitiva dae realidade que ele constrói em torno a nós produz essa inquietação quase física, porque se trata da questão de vida ou morte e de que, de maneira inexplicável, estamos todos integrados em seu universo.

"véundavausíndigodobrasil
triçaentrioandorinhasanu"

Toda voltada para as forças vitais da linguagem, a poética de Wilmar Silva, procede abolindo intencionalmente as fronteiras entre narrativa e lírica contidas em suas primeiras obras, "Lágrimas & Orgasmos", por exemplo, mas tem um crescente desdobramento da linguagem e da estética, com saltos que se revelam incomparavelmente mais densos, mais poéticos e metafísicos em "Anu". É líquida na sua contextura, querer delimita-las é como querer capturar uma nuvem, evanescente fugidia na sua essência de vapor e de água. Diante desta poesia complexa na sua metalinguagem, insuperável no esplendor de um belo estilo nativista, ou como diz o autor, segundo entendi (bio-poética), talvez tenha uma leitura de enigma que, como um cristal, podemos girar, obtendo disposições completamente novas dos mesmos elementos, são possíveis, realmente, há mil maneiras de avaliar, interpretar como mil serão as maneiras de sentir a sua obra, "Anu", que inclui e revitalizam recursos da expressão poética: células rítmicas, elipses, cortes e deslocamentos de sintaxe, vocabulário insólito, arcaico ou de todo neológico, associações raras, metáforas, anáforas, metonímias, fusão de estilos, coralidade. Mas como todo poeta consciente, Wilmar Silva só inventou depois de ter feito o inventário dos processos da língua, imerso na musicalidade da fala sertaneja, caipira, procurou em um primeiro tempo, fixá-la na melopéia de um fraseio e cadências populares. Do ponto de vista formal, introduz uma mudança na linguagem só comparável á do Cubismo e, mais ainda, à da Arte Abstrata no campo da pintura figurativa. A prosa, além de ininteligível sob o ponto de vista lógico e racional, conduz o leitor à análise do ambiente por meio de uma linguagem que não é comum, mas o intuito investigativo o leva a não mais se servir da prosa vulgar como forma de comunicação, mas sim como forma de incomunicabilidade e como meio de conturbar o leitor com frases e palavras fragmentadas de sua acepção normal. Tomo como referência um fragmento de "Çeiva", obra publicada por Tânia Diniz.

"eu asa di av i seda, avuo
rapina léquas di nebrinas
aorta à flora da plumag
plúmeo e fêmeo, láqteo
-dardos e trutas é q lã são"

O escritor soube zarpar para ousadas combinações de som e de forma maduras, coalhadas de termos e grupos nominais como os descritos acima. O período fundamental da linguagem poética, genialmente instituído, é o da analogia a arcana "lógica poética", lógica dos sentidos, que vincula a fala inovadora às matrizes de toda língua. Ora, o pensamento analógico é pensamento mítico. O que se passa com a linguagem de Wilmar Silva no tratamento das unidades verbais (fonemas, morfemas), ocorre também no plano dos grandes blocos de significado: as suas estórias são fabulas, mythoi que velam e se revelam uma visão global da existência, próximo da religiosidade, porque panteísta, isto é, propenso a fundir numa única realidade, a Natureza, o bem e o mal, o divino e o demônio, o uno e o múltiplo. Essa linguagem nova e estranha arranca-o do centro de suas associações mentais e do aconchego de suas imagens familiares. A linguagem passa a ser uma forma de interjeição, fazendo a palavra regredir à fase pré-lingüística da expressão. E já que o diálogo poético e o monólogo passam a substituir o enredo e a representação em si, um fluxo interminável de palavras surge como alegoria do ser humano atual, massificado e coletivizado. Coloca as palavras por meio das quais, côncavas e convexas, se comunicam, ilhadas em sua solidão invencível. Em "Anu" alma se desmancha nas árvores, lagos, pântanos, nos insetos e nos bichos, como o sabor que não se pode abstrair do alimento. Há um apelo aberto ao lúdico e ao mágico.
Neste livro o processo se radicaliza e pede uma interpretação, metafórica da imagística e da linguagem. Neste caso, constrói a poética sobre a premissa de que a linguagem não pode mais servir de intercomunicação pelos homens, pelo menos enquanto ele for feito de lugares-comuns, de frases feitas desprovidas de uma real participação, por parte de quem as diz, dos problemas sofridos por quem as recebe. Se der ou não importância a linguagem, o fato é que toda a sua obra nos põe em face do mito como forma de pensar e de dizer atemporal e, na medida em que leva a transformações bruscas, alógicas. Se volta ao ponto de partida. A obra de Wilmar Silva, "Anu", é um desafio à escrita de convenções porque os seus processos mais constantes pertencem às esferas do mítico. Para compreendê-la em toda a sua riqueza é preciso repensar essas dimensões da cultura, não in abstracto, mas tal como se articulam no mundo da linguagem. Posso entender que o autor ataca uma linguagem fossilizada, tenta ridicularizá-la, para com isso mostrar os seus limites, suas insuficiências, fazê-la explodir, pois toda linguagem se desgasta, se esclarece, se esvazia. Tentar renová-la ou simplesmente simplificá-la – eis a função do poeta, que por esse mesmo processo acabei de avaliar, atinge o próprio coração das coisas, o âmago da realidade palpitante e em eterna mutação.

"íbridoaraqrisemsabrincho
eurêsvrtidodpicapauilíado
ilhalentreplecsófluxoaríétr"

Outro problema seria o de situar a opção mitopoética do escritor na práxis da cultura brasileira hoje. A transfiguração da vivência rústica interessa principalmente enquanto mensagem, ou enquanto código? O fique ficará em primeiro plano na consciência do homem culto: a reproposição da vida e da mentalidade rural e agreste, ou o experimento estético? É certo que a crítica mais recente, escolhendo o ponto de vista técnico, no espírito do neoformalismo, tende a passar por alto a complexa rede de estilos de pensamento que serviram de contexto e subjazem à poética de Wilmar Silva, já que a sua linguagem não se atém ao valor comum das palavras, mas, ao contrário, as "libera" da acepção cristalizada pelo uso, dando-lhes uma nova acepção, livre da lógica e a leitura ignora essas vinculações de resvalar em uma curiosa ideologia, espécie de transcendentalismo formal, não menos arriscada que o conteudismo bruto que lhe é simétrico e oposto. Mais uma vez, se impõe a procura do nexo dialético que desnuda a homologia entre as camadas inventivas da obra e os seus contextos de base. A invenção não é um dado autônomo, imotivado. O discurso mítico, como qualquer outro discurso humano, necessita uma matéria prévia que lhe sirva de suporte: a nova convenção poética que representa vive acima de tudo por intermédio da graça de sua linguagem e da visão poética do ambiente que transmite. Sem a marca de grandeza que lhe imprime a sua bio-poética, assim isso torna qualquer discussão difícil fora de sua própria esfera lingüística. Sua força, em grande parte, reside em sua objetividade e simplicidade, não apenas na ousada utilização de palavras em contextos inusitados. Encontra-a no meio natural e humano em cujo interior apareceu, protozoariamente. Tende a resolver no plano simbólico as antonomias vividas como dificilmente conciliáveis no nível real. E, no entanto, é necessário tentar fazer um esforço para transmitir, sem uma análise mais profunda do uso de que Wilmar Silva faz das palavras, da sintaxe e da imagística, alguns aspectos que justificam o impacto que causa, bem como identificar as fontes que estão por trás de tal uso. Até aqui, temos a plataforma para entender o que o antropólogo diria: a linguagem só consegue resolver as antonomias porque emprega de um modo mais radical a lógica subjacente à organização da imagística. Na sua poesia, a linguagem utilizada tende a divergir da fala real, a continua a ser uma linguagem que não é falada por ninguém. Mas, essa linguagem é tão vital e original, tão profundamente arraigada à ruptura de várias tradições, que cria uma linguagem verdadeiramente estranha.

Roosewelt Loyola, encenador.

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