Gertrude Steins no livro "A Paris dos anos 20"Livros de Viagem - 1

Ronaldo
Werneck

Gertrude Stein apareceu aqui por acaso, e de passagem, em uma das crônicas anteriores, exatamente quando eu e Daniela cruzávamos a Rue de Fleurus com o Boulevard Raspail, numa noite parisiense do ano passado. Coincidentemente, havia comprado no Museu Picasso, de Barcelona, a edição francesa do livro Picasso par Gertrude Stein, devidamente devorado nesse tour europeu, a exemplo de outros vários "livros de viagem". No hotel de Lagos, Portugal, nos intervalos do Festival Cineport, e levado do Brasil, o livro que José Miguel
Wisnik (muito bem) escreveu sobre Caetano Veloso. Em Lisboa, encontro numa pequena livraria do Rocio uma tradução de peso do Hamlet-Shakespeare pela grande poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen. Em nota sobre essa tradução, Sophia diz: "Nada pode reproduzir a aura específica da linguagem shakespeariana, a sua música, a ênfase da sua paixão cintilante, a sua densa intensidade, a sua ressonância, o seu brilho obscuro. (...) É evidente que a tradução vive entre o possível e o impossível e por isso nada é mais vulnerável e exposto. É um trabalho que só podemos empreender aceitando à partida uma certa margem de impossibilidade. Um trabalho que nunca estará pronto, pois sempre haverá algo que apetece refazer. (...) Tentei,quanto possível, traduzir rente ao texto, ser fiel à riqueza e à densidade decada frase e encontrar uma linguagem que seja a do teatro". Sophia diz também que evitou aquilo que se chama "recriação",  pois "à tradução-recriação chamo adaptação ou glosa". E ainda: "não creio que Hamlet possa ser traduzido de uma ponta à outra em prosa. O contraponto entre a prosa e o verso faz parte da estrutura da peça, do jogo do poeta, da eficácia teatral, do relevo e do sentido de cada cena. (...) Onde Shakespeare usa o blank verse de dez sílabas usei o verso livre (...) porque a ressonância dodecassilabo português é diferente da ressonância do decassílabo inglês". Mas, vamos a um exemplo dessa tradução ao mesmo tempo tão fiel, tão criativa,como se "ouve" (homem de teatro, Shakespeare queria que suas palavras fossem ouvidas, não lidas) nos primeiros versos do monólogo de Hamlet, aquele: "Ser ou não ser, é isso a questão,/ Será mais nobre deixar que o espírito suporte/ Os golpes e as setas da fortuna ultrajante/ Ou erguer armas contra um mar de angústias/ E, não aceitando, pôr-lhes termo? Morrer, dormir,/ Dormir e talvezsonhar./ Ai, mas aqui é que está o difícil -/ Pois que sonhos surgirão nessesono da morte/ Quando tivermos despido o tumulto mortal?". Também na mesma livraria encontro uma tradução de Cecília Rego Pinheiro de "I:six nonlectures", as famosas seis "inconferências" proferidas pelo poeta devanguarda norte-americano e.e. cummings (Edward Estlin Cummings, 1894-1973) na Universidade de Harvard durante o ano letivo 1952/53.
A lembrança de mamãe voltou à toda na leitura de uma dessas conferências. Minha mãe sempre gostou de "poesia", na verdade de poemas que copiava com amor e bela caligrafia de professora primária em seu "Caderno de Poesias". Guardei muitos desse poemas de cor, principalmente
"O Pássaro Cativo", o seu preferido: "Armas, num galho deárvore o alçapão,/ E, em breve, uma avezinha descuidada/ Batendo as asas, caina escuridão!". E por vai - com o cativo parnasianismo de seus burilados versos, e batendo asasas na escuridão - o nosso Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac. Não mefalem mal dele. Mãe é mãe. Disso bem sabe e.e. cummings (que grafava assim o seu nome, em caixa baixa): "Os dois fatores indispensáveis na vida, a minha mãe sempre afirmou, eram saúde e sentido de humor". E com saúde e bom-humor, Bilac na cabeça. Logo a seguir, diz o poeta, o norte-americano: "A minha mãe gostava imenso de poesia: e copiou a maior parte dos poemas de que mais gostava para um pequeno livro que nunca estava longe dela". E Cummings passa a ler para o público de Harvard um dos poemas de que sua mãe - tal e qual a minha e muitas outras mães - mais gostava, a Ode de William Wordsworth intitulada "Intimações Da Imortalidade A Partir De Lembranças Da Infância". Bilac versus Wordsworth, mãe por mãe, olha aí: é páreo pra filho nenhum botar defeito. Mas há que reconhecer a beleza das "palavras que valem a pena" de Wordsworth em trechos como: "A glória e a frescura de um sonho/ Não é agora como foi
outrora;-/ Para onde quer que me volte,/ Seja noite ou dia, / As coisas que vinão mais as posso ver// ...// Para onde fugiu o fulgor visionário?/ Onde está agora, a glória e o sonho?// ...//Embora o fulgor que foi tão brilhante outrora/ Tenha sido para sempre levado da minha vista,/ Embora nada possa
trazer de volta a hora/ Do esplendor na relva, da glória na flor// ...//Pensamentos que freqüentemente repousam demasiado fundo para lágrimas". Poema que é poesia: pois é. Como o que o próprio e.e. cummings dedica à sua mãe, com aqueles parênteses "colados", a junção de palavras e o corte/espaçamento característicos de seus melhores trabalhos: se há alguns céus a minha mãe vai(só para si)terum. Não será um delicado céu de amores-perfeitos nem um frágil céu de lírios-do-vale mas um céu de rosas vermelho negro o meu pai vai estar(profundo como uma rosa alto como uma rosa)de pé perto da minha inclinando-se sobre ela(silencioso) com olhos que afinal são pétalas e ver nada com a face de um poeta que afinal é uma flor e não uma face com mãos que murmuram Esta é a minha amada a minha (subitamente na luz do sol ele fará uma vênia, e todo o jardim fará um vênia) Queria ir além (Tejo), mas não consigo soltar minhas amarras de Lisboa. Dapróxima vez, recomeço daqui este giro em torno dos Livros "de viagem". Engraçado que escrevo essas crônicas do "Há Controvérsias" sempre ao"vai-da-valsa", como a deixar que as palavras me (e)levem. Controvérsias as há - e procuro administrá-las. Mas, qual o quê! Começo a a falar de uma coisa eacabo em outra, com num redemoinho. Há pelos menos dois "Há Controvérsias"estou a tentar a formulação de um link GertrudeStein-Abujamra-Picasso-Paris-Alice Toklas-Cataguases, mas acabo levado para outros caminhos. Palavras, palavras, punti luminosi - que mistério esse, das palavras puras-impuras, claras-obscuras, obsclaras. Mais adiante, quem sabe?,espero que Gertrude Stein & suas palavras-invenção & seu séquito decelebridades baixem de vez neste terreiro.

Poeta e jornalista, 30 anos de Copacabana, Ronaldo Werneck é mineiro de Cataguases, para onde voltou na virada do
milênio. Autor de Selvággia (2005) e Noite Americana - doris day by night (2006).