Laurence Ferlinghetti - reprodução
O Poeta americano Laurence Ferlinghetti, editor e recordista
em vendas de livros de poesia nos Estados Unidos
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Na cabeça
e no
coração

Ronaldo Werneck

Não, não é bala não. Nem perdida, nem bem/mal endereçada. É apenas o poeta-beat Ferlinghetti e seus parques de diversão, A Coney Island of the Mind (CityLights, EUA, 1958) e A Far Rockaway of the Heart (City Lights, EUA, 1997). Ainda em Roma, e na Bibli/Trastevere, agora viajamos (literalmente) com Un lunapark del cuore (Mondadori, 2000), a versão bilíngue, inglês/italiano, do"parque do coração" desse surpreendente Ferlinghetti, que chega velho novíssimo aos oitenta e oito anos. Lawrence é de 1919 (Yonkers, Estado de Nova York), filho de um francesa, Clemence Albertine Mendes-Monsanto - e veio ao mundo pouco depois da morte de seu pai, o italiano e anarquista Carlo Ferlinghetti. Com menos de dois meses, o menino é levado para a França, onde mora com um tia até os seis anos. De volta aos EUA, estuda na University of North Carolina, em Chapel Hill, e serve na marinha norte-americana durante a Segunda Guerra ("mas já era pacifista, a ponto de não disparar um tiro"). O poeta termina seu mestrado pela Columbia University, em 1947. Completado em 1950, o doutorado é feito na Université de Paris (Sorbonne). De 1951 a 1953, qundo se fixa em San Francisco, Ferlinghetti passa a pintar e torna-se crítico de arte. Em 1953, abre com Peter D. Martin a Livraria City Lights, que em 1955 passa também a publicar livros, com o nome de Editora City Lights. Durante mais de meio séculoa City Lights serve como ponto de encontro de intelectuais, escritores e artistas. A Editora começa com a publicação de uma série de poetas sob formato de livros de bolso, com a qual Ferlinghetti criaria um fermento de dissidência de nível internacional. Em 1957, o lançamento de Howl, do poeta Allen Gisberg, causa um qüiproquó dos diabos. Apreendido sob acusação de obra obscena, o livro acaba liberado e vende num só uivo 360 mil exemplares, além de atrair a atenção para San Francisco e para o renascer do movimento dos escritores da geração beat. O chileno Neruda, o russo Ievtuchenko, o italiano Pasolini, o inglês Malcolm Lowry: são muitos e célebres os poetas editados pela City Light. Inclusive, os poemas do próprio Ferlinghett, reunidos em A Coney Island of the Mind, carro-chefe da editora e até hoje o livro de poemas mais popular na América, editado em nove línguas, com mais de dois milhões de exempares vendidos. Há um tradução brasileira de ótima fatura, feita por Eduardo Bueno e pelo poeta Leonardo Froés, "Um Parque de Diversões na Cabeça" (L&PM, 1984). A Far Rockaway of the Heart é seu mais recente livro de poemas, este que tenho agora em minhas mãos na versão italiana, Un luna park del cuore. Só para nos situarmos: Coney Island é um parque de diversões na cercanias de Nova York. Far Rockway, no Estado de Nova York, é uma localidade onde existe um também famoso parque de diversões. Em 1980, o hoje historiador brasileiro Eduardo Bueno esteve com o poeta em San Francisco: "De jeans, camisa de flanela xadrez de lenhador canadense, botas rústicas, ali estava ele, Ferlinghetti - sorridente ao lado de três garotas lindas, olhar safado beatífico, rosto queimado pelo sol, barba grisalha.Sabedoria e vigor aos 60 anos. Apesar da origem italiana, mais parecia um irlandês ativo e empreendedor - daqueles que bebe uísque no gargalo e aparece trabalhando na construção das estradas de ferro em filmes classe B sobre o Oeste selvagem". Mas, na verdade, não era bem assim: estava ali também, à frente de Bueno, um poeta de extração super-sofisticada, na linhagem de Appolinaire, e e. cummings, Ezra Pound, T.S. Eliot e William Carlos Williams. Ferlinghetti tem o poder de transformar em poesia os objetos mais banais, as coisas corriqueiras do cotidiano. São poemas coloquiais, os seus, carregadospor profundo poder de empatia e comunicação. Poesia altamente cantábile - e não é à toa que o octagenário poeta circula ainda hoje pelo mundo lendo seus poemas para um público cada vez mais numeroso. "O bardo da geração beat, o cronista mais extremo e corrosivo de nossos tempos, o sarcástico ´cabaretista trágico´,diz o texto da contracapa desta edição italiana. Que complementa: "Se A ConeyIsland of the Mind contribuiu em 1958 para abrir os olhos de toda uma geração e para construir uma aura política, A Far Rockway of the Heart surge como um vibrante e novo apelo ético à tomada de consciência da geração que transita passivamente pelo novo século". Não têm títulos os poemas de A Far Rockway of the Heart, apenas numerados em seqüência. Não querendo absolutamente concorrer com meu poetamigo e excelente tradutor Leornardo Fróes, passo às pressas para a língua pátria um exemplo da poética de fina estampa de Lawrence Ferlinghetti, exatamente o primeiro poema do livro:

Tudo muda e nada muda.

Séculos findam

e tudo continua

                   como se nada  findasse.

Como nuvens estáticas a meio-vôo

Como dirigíveis presos contra o vento.

E a urbana febre das feras do cotidiano

ainda domina as ruas. Mas ouço cantarem

ainda agora as vozes dos poetas

mescladas ao grito das prostitutas

na velha Mannahatta (*)

ou na Paris de Baudelaire,

chamados de pássaros ecoam

nas ruelas da história

renomeados.

E agora são os Novecentos

e a Bolsa quebrou de novo.

E meu pai vagabundeia aqui perto com toda a sua coragem

os olhos na calçada

uma única lira italiana

e um penny com a figura da cabeça de

um indiano

no bolso

Traficantes de bebidas e carros fúnebres passam

em câmera lenta.

Enquanto ternos novos correm para o trabalho

em arranha-céus que oscilam.

(*) Mannahatta: antigo nome pelos índios americanos ao lugar onde hoje seencontra Nova York.

Poeta e jornalista, 30 anos de Copacabana, Ronaldo Werneck é mineiro de Cataguases, para onde voltou na virada do milênio. Autor de Selvággia (2005) e Noite Americana - doris day by night (2006).