Nina Rosa Nunes
Nina Rosa Nunes

a lírica
moderna


roberval pereyr

A poesia lírica moderna constitui-se, de fato, numa linguagam "diferente". Contrariando em suas bases o padrão clássico de linguagem, formulado a partir de valores como clareza e coerência, leva a efeito um processo radical de desarticulação dos modelos de mundo e de homem em vigor no ocidente desde a Grécia antiga, mais precisamente desde o princípio da identidade - "O ser é, o não ser não é - atribuído a Parmênides.
   Esse processo de desarticulação operado pela poesia moderna reflete, em um de seus níveis - o explícito - a situação caótica de um mundo fragmentário e minado em seus fundamentos. Por ser, no entanto, uma linguagem cujo centro de articulação é o ritmo (impulso primário, visão da origem), a manifestação lírica acaba por conferir sentido ao caos, estabelecendo o fragmento como tendência. Daí, muitas vezes, do ponto de vista lógica, resultar absurda, contraditória, obscura, e "esburacada". Na verdade, a imagem poética ( isto é, ritmo encarnado) dispensa o princípio da causalidade, porque "advém - como diz Bachelard - de uma   ontologia direta", sendo poeta  "aquele que fala no âmago do ser".
   Ser e não-ser fundidos na imagem, ou no conjunto de imagens que constituem o poema, resultam, e são também resultado, de uma linguagem a um só tempo una e plural. Eis porque, certamente, o poeta moderno pode - não apenas no sentido de tornar viável, mas de suportar e tornar suportável - lançar-se de forma tão cabal ao fragmentarismo. O resultado, não raro,  é uma linguagem tensa (tensão dissonante), que dá formas - encena - a partir de ângulos diversos e inusitados, os conflitos básicos do nosso tempo, um "tempo de partidos"e de "homens partidos". Desvinculadas de todas as correntes ideológicas em vigor, sem no entanto deixar de contemplar, à sua maneira, cada uma delas, a poesia moderna  comporta com muita frequência  a contradição explícita. Em outras palavras, não se deixa capturar pela "unilateralidade da época": adotar o fragmentarismo - isto é - transformar fragmentos em tedências - é não alinhar-se, é jamais dividir-se na base, de onde fala, inteiro, o poeta, e onde os contrários, fundidos, se originam.
   Vimos que uma das consequências desse modo de ser da poesia lírica moderna é o "desnorteio": desnorteio da linguagem e, por extensão, do leitor, que, enquanto cidadão historicamente situado, tende inevitavelmente à busca de uma verdade, de uma orientação mais "precisa" para sua existência. Mas num mundo em que "Deus está morto" e em que a própria Razão, através da Crítica, se automutila, pondo por terra todo um edifício de valores erguidos ao longo de séculos, as "verdades"  vacilam  O mito da ordem - em seus níveis linguística , moral, social, filosófico - desestrutura com o inevitável processo de descentralização do logos operado no ocidente pelo homem modernno, através, sobretudo, da Lingúistica, da Antropologia e da Psicanálise. Instala-se desse modo, a denominada crise da razão - uma espécie de guerra intestina cujo campo minado favorece, mas de forma paradoxal, a reconquista da autonomia da poesia, antes definida, segundo Barthes, como mera "prosa ornamentada", por estar submetida aos dogmas da linguagem "clássica".
   Tal processo de emancipação - que revela, desde logo, uma anormalidade da lírica moderna - implica, na prática, numa série de rupturas, no tocante à poesia anterior e à própria cultura ocidental. É nesse ponto que se rompem os modelos de homem e de mundo a que nos referimos anteriormente, sem quem em seus lugares novos modelos sejam estabelecidos. Isso valeu (ainda vale) à poesia o degredo, o que a obriga a um refúgio na própria linguagem, onde então se alargam os horizontes do eu poético. Linguagem voltada sobre si mesma, em oposição a um mundo alienado e hostil, a poesia lírica expande a sua abrangência, abrindo em seu bojo, ainda que de forma especial, espaços e elementos formais e semânticos de outras culturas, colocadas à margem ao longo de séculos. E, em sua estranha e definitiva maneira de ser, rompe com a tradição até mesmo quando pretende recuperá-la, como ocorre, por exemplo, com a poesia fragamentária de Eliot.
   Deste ponto de vista, o fragmentarismo na lírica representa - frente a um mundo falseado pela idéia de progresso, pela promessa da máquina e pela propaganda - uma quebra da máscara: a sua incoerência nos níveis formal e semântico é, a um só tempo, uma coerência enquanto encenação em profundidade do mundo moderno: um mundo que também transgride sua "gramática" e que, sob muitos aspectos, tornou-se absurdo.. Mas a poesia, se é uma representação desse mundo, é também, e de forma veemente, a sua negação. Assim, por exemplo, ao utilitarismo generalizado, inclusive no que se refere á própria linguagem, ela opõe a máxima fantasia. Uma fantasia, na palavra de Friedrich, imperiosa, que, rompendo conversações e operando "desvios", devolve ás palavras o frescor da origem e carga adormecida sob o jugo opressor da linguagem lógica, ou então diluída no texto "fácil" do jornalismo.
   O refúgio a que nos referimos, do poeta e da poesia na linguagem, além do redimensionamento do eu poético, representa, portanto, a possiblididade de renovação da própria Linguagem. Universo forjado nas ( e com as) palavras, mas situado para além do circuito comum das diversas linguagens em trânsito nos ares práticos do mundo moderno, a poesia lírica, em sua anormalidade congênita, traz (e trava) as marcas do texto sempre novo e estranho, que inquieta e fascina. Apoiadas em palavras cujas bases de articulação se perdem no inconsciente (do texto, do homem), essa poesia edifica-se sobre os abismos de voz e silêncio, não se detendo jamais em instâncias seguras, mas transitando continuamente por céus-e-infernos e atraindo para si os fragmentos mais díspares e às vezes farposos dessas regiões. Ergue-se, pois, sob o signo da negatividade, que, como vimos a define: negatividade que é também uma afirmação. Foi a partir do reconhecimento desse traço básico de sua natureza que lhe atribuímos aquela função geral reparadora e que qualificamos como antídoto para as doenças gerais do seu tempo. Veneno (para a tradição) e antídoto (contra o moderno), o universo lírico representa, para além do alcance meramente ético, a possiblidade, única talvez, de preservação da Poesia. Em sentido mais amplo, ele pode representar ainda o foco mais radical de resistência à alienação em que se encontra envolvidos, em nosso tempo, o homem.

NOTA: 1 Gaston Bachelard. A poética do espaço. In. BERGSON, Henri & BACHELARD, Gaston. Cartas, Conferências e outros escritos/ A Filsofia dinão, O novo espírito científico. São Paulo: Abril Cultural, 1974 (Os Pensadores)

Roberval Pereyr é poeta e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana, Bahia. Autor de vários livros, dentre eles   As roupas do nu, Concerto de ilhasSaguão de mitos.

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