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Pausa em duas paisagens

Ricardo Corona 

Alguém disse que o exercício da linguagem pode conter princípios de prazer ou de sofrimento. Que a linguagem pode se tornar uma possibilidade de prazer ou ser usada para um referencial externo a ela mesma. Não que "escrever bem" seja somente dar tratos à linguagem, sem se importar com o mundo explodindo na sua porta, ou, por outro lado, "escrever mal" seja impor um discurso externo sobre a mesma. Porém, se a linguagem é a maior e mais perfeita invenção do homem, responsável pela sua sociabilidade, então, a poesia, deveria ser sua obra-prima. Neste sentido, o caráter lúdico, a brincadeira, o zelo pela linguagem devem vir no pacote, mesmo nos temas mais difíceis, mais, digamos, antipoéticos. Aliás, nessa zona de fronteira (linguagem/mundo) que pode nascer a verdadeira poesia.
   Nesse contexto, é perceptível quando um poeta, ao escrever seus poemas, sentiu prazer ou sofrimento. E não há juízo de valor nessa afirmação. Apenas a constatação que, no entrevero com as possibilidades da linguagem, os poetas se revelam sádicos ou masoquistas.
   Paisagem transitória (SP, Ciência do Acidente, 2001), livro de estréia do poeta curitibano Mario Domingues, encaixa-se na primeira classificação. A condição sádica, o princípio do prazer está evidenciado na maior parte de sua safra. Está presente no caráter lúdico, no modo como explora as sutilezas e contradições da língua, e, em especial, no talento que possui para trazer o mundo para dentro de sua poesia.
   No livro, que é dividido em seções ("relâmpagos", "paisagem transitória", "carpe urbem", "dedos de poesia", "poemas helenos", "musarium", "mínima ilíada", "novos poemas" e "poemas americanos"), há vários estilos poéticos (epigramas, poesia satírica, participante, haicais, modernismo, etc.). Porém, não se trata de mero ecletismo, mas, talvez, descrença naquilo que se entende por unidade. Mesmo que Domingues não tenha escapado de "falhas" típicas de primeiro livro, como irregularidade de conjunto, excesso de referências e estilos, seu livro merece um brinde somente pela sua liberdade de linguagem.
   Por questões de espaço, escolhi duas partes, ou melhor, congelei duas paisagens de Paisagem transitória: "Carpe urbem" e "Poemas americanos".
   "Carpe urbem" concentra poemas urbanos, feitos de cortes bruscos e sobreposições de imagens "sujas", como por exemplo, as marcas de produtos publicitários: "num céu sem fim / nem serafins / o zepelim goodyear / suja a paisagem suja / mas passa / ave / avião / no céu que nos projeta" (sem título, pág. 32). Ou este, duas páginas depois, de igual genialidade: "parque Ibirapuera, São Paulo: / atrás / do monumento / às bandeiras / - Brecheret (pedestres no horizonte) / uma nuvem extática / congelada / em letras corridas / c o c a – c o l a / miragem para engarrafamentos" (sem título, pág. 34). São poemas despretensiosos e, talvez por isso, eternos, que, singelamente, dialogam com o modernismo refinado e telegráfico do esquecido Luis Aranha, em seu poema "Cocktail" (que também dá título ao seu único livro): "HOTEL RESTAURANT BAR / A cadeira guincha Garçom / No espelho ‘Experimente nosso COCKTAIL’ / Champagne cocktail / Gin cocktail / Whisky cocktail / Álcool / Absinto / Açúcar / Aromáticos / Sacode num tubo de metal / É frio estimulante e forte / Cocktail / Cocteau / Cendrars (...)
   Cabe anotar ainda, uma sutileza na transitoriedade das paisagens: os poemas urbanos vêm logo após o capítulo "Paisagem transitória", que é composto de um só poema, de várias partes, sem título, que, além de dar nome ao volume, provoca um transe imagético "litorâneo": (...) "dunas / de pequenas dunas / assim o vento as quer / frisos roxo piche / arestas de espuma / onde tudo ondula em duna (...) (pág. 24), para, em seguida, colocar o leitor no alvoroço da urbanidade: "trânsito de táxis / trabalho de abelhas / práxis. (sem título, pág. 33)
   No capítulo seguinte, "Poemas americanos", a ironia sutil, desdobrada, contida no título, contamina todos os poemas e poderá desconcertar o pensamento que não está em transição, movimento. Pois quem pensa encontrar uma série de poemas "influenciados" pelo ambiente americano, encontrará logo na primeira página o "Vozes do Br": "no rádio / o teto dos aeroportos: / pássaros de prata / rasgam o céu da nação / na tv / o resumo do dia: / artilheiros fazem festa / num domingo de gols / no samba / mulatas arrastam / sandálias de prata / nas ruas / moscas circundam crianças / em latas de lixo" (pág. 89). Ou, caso ainda não tenha entendido, ao virar a página, vem a porrada de "novo mundo": "do mundo livre / ao livre mercado / nas vidraças da bolsa de valores / reflexos estilhaçam zeros / o néon hesita ritmado / entre o supermercado mundo / e o supermundo mercado" (pág. 90). O uso deste simples título ("poemas americanos"), no meu entender, contém até obviedades que não deveriam mais constar em nossa pauta: americanos são somente os do Norte?
   O poeta se sabe contemporâneo, não se amedronta com as dificuldades do seu tempo, ao contrário, participa dele com seu código poético, sua fala com design, sua imagem celerada.

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RICARDO CORONA é autor de Cinemaginário, poemas (SP, ed. Iluminuras, 1999) e do CD de poesia Ladrão de fogo (Curitiba, Medusa edições, Col. "poesia para ouvir", 2001). Em 1998, organizou a antologia bilíngüe de poesia contemporânea Outras praias – 13 poetas brasileiros emergentes / Other Shores – 13 Emerging Brazilian Poets (SP, ed. Iluminuras). Com Eliana Borges, edita a revista de poesia e arte Medusa.

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