Auto-retrato, 1980 (90 x 73 cm)

 

 

INIMÁ E O COTIDIANO
Renato Sampaio*

 Inimá, que integra o reduzido elenco dos grandes artistas de assegurada permanência, é, há muito, uma das explosões mais vivas da arte brasileira. Sua importância, entre nós, está para esta quadra do século tal como Guignard esteve para a anterior. Este último, com o lirismo e a genialidade que fizeram dele verdadeiro mestre da paisagem poeticamente recriada em uma linguagem que representou um dos momentos mais fecundos da arte do país; Inimá, com a exuberância de seus traços fortes e emocionais projetando-o como um mestre das cores e da sua profusão sobre a tela.
  Vigorosamente expressivo, é preciso destacar também o grande retratista que é o Inimá. Neste gênero, que não é o mais difundido da sua obra, freqüentemente ele alcança resultados tais que, uma vez concretizados os seus retratos, estes, desvendando ou ultrapassando os componentes de pessoalidade comuns a quaisquer modelos, transformam-se, um passo além, em obras de arte autônomas e dotadas de vida própria. Mais do que simples retratos, portanto, acabam assumindo por inteiro a própria condição da pintura "em si"; aquela que se assegura para os tempos do depois e ao que neles viverá.
  Mas não é este o espaço para aprofundar minúcias ou detalhar aspectos da sua arte superior. Afinal de contas, isto muitos têm feito ou já o fizeram e, além do mais, tais tintas devem caber apenas a quem é do ramo. Aproveito apenas para fazer um registro mais afeito ao cotidiano do artista em seus períodos de criação; algo como o testemunho de alguns de seus hábitos usuais ou mesmo do seu jeito peculiar de ser; enfim, a descrição de um dia-a-dia que é próprio dele.
  Em Inimá, o ato criador - nele a bem dizer uma constante -, desencadeia-se, o mais das vezes, com um só vigor ou uma só serenidade. No primeiro caso, quando, dias inteiros, semanas, senhor de seus caminhos, entrega-se ele à pintura trazendo à tela um mundo de cores e de formas que, interligadas, em essência, à própria natureza das coisas, transbordam vigorosas de seus olhos míopes de um azul além das lentes. Olhos que enxergam a cor além da própria cor.

  Nesses períodos, como é natural, há como que um incontido alheamento ao mundo exterior ou às coisas do lá fora: nervo fácil, telefone nem se fala; trabalho, apenas trabalho. À noite, o repouso, a música; um vídeo não é raro. E, cumprida a tarefa, a explosão admirável: felizes aqueles que têm a oportunidade de contemplar 10, 15, 20 telas, ainda molhadas, superpostas, lado a lado, em seu vasto ateliê. Telas que, a essa altura, ainda costumam receber uma ou outra pincelada; um retoque aqui, um outro ali: "este azul é necessário, dá força, equilíbrio; a textura está boa; tudo bem é isto mesmo!"
  Serenidade também, como disse, no caso de uma tela única, desejada: a paisagem ontem mesmo redescoberta, aquelas flores do não-sei-onde, o retrato de um amigo.
  E os livros? Ah, o capítulo dos livros! - "Estes você deve ler; depois discutiremos os detalhes." Anotadas, questionadas, elas, as páginas são muitas, à minha frente. Biografia de pintores, de artistas, com predomínio, nos últimos tempos, de obras sobre teorias da arte. - "E não deixe de me trazer as tais cartas do Mário de Andrade", cobra-me ele, ao
despedir-se.
  E entre uma e outra semana, às vezes no almoço, às vezes pela tarde, mais ouço do que falo: - "porque você sabe, o pessoal fica escrevendo isso, dizendo aquilo; está certo, as coisas têm de evoluir, mas, o pós-modernismo, é preciso compreendê-lo melhor: as pessoas às vezes falam de coisas que não entendem; eu, por exemplo, acho que os valores estéticos são fundamentais, pouco importando a moldura do "ismo" que lhe dê rótulo. O essencial, você sabe, o essencial é o que conta."
- "Tudo bem, Inimá, mas..." - "Ah, sim, você tem razão, só que Picasso... Aliás, convém ler aquele livro sobre o Morandi."
  E a conversa segue em frente: um copo de vinho, o Inimá é "connaisseur".
Claro, nem só de arte vive alguém ou vive o Inimá. Saúde em alta, alegria à solta, o
mundo vem à mesa: falamos de política, de amigos - "José Nava: hoje são poucos os que se lembram dele, não é mesmo? E quando é que você termina o livro? A propósito, vamos lá em cima; vou mostrar-lhe os últimos quadros".
E subimos ao ateliê onde o mestre, satisfeito, segura uma tela com a mão esquerda e com o indicador da direita aponta-me um detalhe: a beleza, bem o sei, ali mesmo, azul em toda ela, em todas as outras, hoje, amanhã, para sempre, eternidade.

* Escritor; autor de "Inimá - Uma Biografia"