Crônica

"Pobre menina rica"

Petrônio Souza

 

Julio SaensUm dos maiores horrores acontecidos em nosso país, o assassinato de Marísia e Manfred von Richthofen foi repercutido em todos os canais de TV, sugerindo uma espetacularização patológica de onde uma mente doentia pode chegar. O caso Richthofen é uma aberração que devida sua alta exposição, nos parece sugerir que aquele crime já assimilamos e que podemos assimilar outros piores, como se estivéssemos edificando uma escada para o fundo de um poço escuro e enlamaçado.
Neste caso, todos nós somos vítimas, pois respiramos este mundo sórdido que nos cerca. É como se a condição humana fracassasse sobre suas próprias debilidades. As pauladas deferidas contra as cabeças dos Richthofen são diariamente dadas contra nossas cabeças, por este mundo midiático alicerçado pelo vazio débil e constrangedor. Suzane, a filha Richthofen, encarnou este mundo da valorização do que é mais pueril, bárbaro e covarde.
A mãe, psiquiatra, não percebeu sua maior paciente, sua 'cliente' mais íntima. O pai, filho e neto de ex-combatentes, não percebeu seu maior inimigo, o mais frágil e virulento. Perdeu a guerra para o distanciamento entre as gerações que tanto este mundo-mercado enobrece e glorifica. Até bem pouco tempo as pessoas falavam com os padres e tinham arrependimento dos seus erros, dos seus pecados. Existia o sentimento da culpa. Hoje, elas falam com os psicólogos, os maiores PHD's e assassinam seus próprios pais. É a certeza do poder ultrajovem preconizado pelas TVs.
O amor paterno não libertou Suzane deste aprisionamento moderno, voraz e invisível. A liberdade que ela desfrutava era desenhada, determinada no seu diminutivo mundinho publicitário. Suzane conquistou esta liberdade com seu aprisionamento, que agora lhe parece tangível. Se ela tivesse despertado para esta condição antes, talvez veria as coisas de uma forma diferente e não seria hoje, o contra-exemplo, a contra-propaganda do mesmo mercado diário.
Os sete pecados capitais: a ira, a gula, a inveja, a preguiça, a cobiça, a mentira e a luxúria foram declarados justamente para proteger a família humana das coisas que a afligem, que a dilaceram. Neste caso, todos eles coexistiram em um determinado momento, revelando o quão sábio foi sua devida classificação. No entanto, eles agora foram beatificados e a divina-decadência se tornou o grande sonho juvenil.
Estes pecados, fomentados por este mundo moderno, estão atrelados ao viver moderno,
subproduto de um grande mercado, onde somos vítimas deste belo e sedutor universo que nos parece paralelo, mas vivifica dentro de todas as casas. Os altos muros da mansão dos Richthofen não os protegeram deste mundo. Os vícios, as grandes estrelas deste desumano mundo urbano, catequizam diariamente nossos meninos para coexistirem dentro deles o filho e o drogado, o filho e o assassino, criando uma juventude edificada sobre a égide de um aborto moral, nacional, em que ter e poder são as grandes drogas, que em algum momento podem levá-los a uma overdose em que seus reflexos quase sempre são fatais. Pobre menina rica, pobre fruto de uma geração submissa. A citação é antiguíssima, bíblica: "a cura é pela palavra". Então, no lugar do ter vamos escrever ser, no lugar de poder, escreveremos amor, e no lugar de morrer, escreveremos viver...

 

Petrônio Souza é escritor e-mail: petros@brfree.com.br

 

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