O eterno Sítio do
Pica-Pau Amarelo

Petrônio Souza

Quando menino, tinha apenas um sonho: casar com a Narizinho no
Reino das Águas Claras. Era o mundo mágico do Sítio do Pica-Pau
Amarelo embanlado os sonhos de toda uma geração. Aquele Sítio
lobatiano era uma extensão da nossa vida, da nossa rua, da nossa
casa. A valentia de Pedrinho, a sabedoria de Visconde, a sagacidade
da Emília, a bondade da Tia Nastácia, a generosidade da Dona Benta
e a pureza da Narizinho, de alguma forma, contribuíram para minha
formação, para minha orientação das coisas boas da vida, e que de
alguma forma, o mundo moderno tenta apagá-las.
   Narizinho, foi sem dúvida, a minha primeira namorada e talvez, a
mais bela. Pedrinho, o amigo que nunca tive, mas que me ensinou
muitas coisas. Visconde de Sabugosa, o irmão mais velho, Dona
Benta, a eterna avó e Tia Nastácia, a terna confidente. À noite me
encontrava com todos eles no mundo dos sonhos. Conversava, pedia
conselhos e perguntava sobre as coisas da vida. Eles, sempre da
mesma forma que a TV passava.
   Anos depois, encontro o Visconde de Sabugosa nas ruas de Belo
Horizonte, disfarçado de André Valli. Vi nos olhos do ator a grande
personagem, o alongamento da mortalha. Me fala ele do Sítio em que
viveu e que de alguma forma, insiste em não sair da sua vida.
Lembramos juntos do distante ano de 1977 – tão perto - quando tudo
começou.
   André estava na época finalizando a novela Escrava Isaura,
quando uma kombi da TV o aborda durante as filmagens, com o
recado de que o Geraldo Casé – um dos diretores da emissora, queria
falar com ele com urgência. Ali, André receberia o seu maior papel na
TV, seu personagem muito além do tempo. Foi estar com o Geraldo,
onde recebeu a notícia - uma decisão do Geraldo e do Bony, que iria
protagonizar a nova produção da emissora, um programa infantil sobre
a obra de Monteiro Lobato. Era o Sítio do Pica-Pau Amarelo.
   André preencheria no programa o lugar de outro ator, Antônio
Ganzaroli, que adoeceu pouco antes das filmagens iniciais. O destino
reservou para ele uma grande surpresa, o Visconde já estava nele
antes de nascer.
    Idealizado por Geraldo Casé e criado por Arlindo Rodrigues, o
Sítio foi um marco na TV brasileira, sendo anos depois remontado,
sem contudo, perder sua propriedade de encantamento. Como era
muito grandioso, o Sítio não cabia dentro da TV, sendo todo filmado
fora dela, na região da Marambaia, onde hoje é a Barra da Tijuca, no
Rio. Da sede da TV até o Sítio era aproximadamente uma hora e meia
de viagem , feita naquela época de kombi.
   O Sítio era tão verdadeiro, que não poderia ser apenas um
cenário, tinha que existir mesmo. E naquela restinga da Marambaia,
estava lá a vaca mocha, o pé de jabuticaba, a charrete da Dona Benta,
o galinheiro, a casinha do Tio Bernabé e tudo mais, bem como
acreditávamos existir.
   Dona Benta Escarrabodes de Oliveira não era apenas a
personagem da Zilka Salabery, mas ela mesma, se descobrindo
dentro do mundo lobatiano. André nos conta que Zilka, ou melhor, a
Dona Benta, toda vez que chegava ao Sítio, era saudada pela vaca
mocha, que ao ouvir sua voz, saltava um longo mugido de felicidade.
Dona Benta, a grande guardiã, comprava com seu próprio dinheiro,
ração para a vaca mocha, para o burro falante, para as galinhas,
aguava as plantinhas, e se entregava a história encantada do Sítio.
   As primeiras filmagens de Visconde foram gravadas na Cinédia,
em Cromak. Solitariamente, o sabugo de milho ganhava vida entre os
livros da estante de Dona Benta. O boneco feito por Pedrinho, viria
ainda a descobrir petróleo e, com o espanto da sua descoberta,
começaria a falar para nunca mais parar.
   Nelson Carmago, Jacira, Zilka, Tonico, André, Júlio, Dirce, Romeu,
Rosana, Dorinha, Samuel, entre tantos outros, foi a primeira turminha
do Sítio, e por isso, a mais lembrada. Sem esquecer, é claro, do
Genilvado, o saci baiano criado por Marlene Matos e do bom Seu
Elias, Francisco Nagem, que tinha sua venda lá para as bandas do
Sítio.
   As gravações eram feitas de segunda a sábado, das 8h às 20hs.
Na parte da manhã, eram gravadas as cenas sem as crianças, que só
chegariam ao Sítio depois das 14h, todas vindas da escola. As cenas
do laboratório do Visconde e dos quartos das crianças eram feitas em
estúdio.
   Pedrinho, muitas vezes na hora de gravar suas cenas, estava
perdido dentro do mundo encantado do Sítio. Ás vezes, chegava ao
local de gravação todo sujo e com o cabelo desarrumado, mas como
era uma criança de verdade, não precisava de maquiagem, precisava
de vida e gravava a cena como estava.
   Seduzidos pela beleza do programa, vários atores consagrados da
Globo quiseram participar do Sítio. Rosa Maria Murtinho, Ítalo Rossi,
Walter Avancini e Gracindo Júnior, foram alguns deles.
   Durante os anos das gravações do Sítio, sempre mudavam as
crianças, que cresciam e perdiam a inocência original para dar vida as
fábulas lobatianas. Mas a tríade principal passou por todas elas,
polarizada nas figuras de Visconde, Dona Benta e Tia Nastácia. Lúcia,
a menina do nariz arrebitado, seria vivida ainda por Isabela Bicalho e
Danielle, Pedrinho, por Marcelo Proteli e Daniel Lobo e a Emília, por
Reny Oliveira e Suzana Abranches. Visconde, desculpe, André Valli,
nos lembra que a cada nova turma que chegava para ‘morar’ no Sítio,
era sempre um novo começo para todos, uma nova viagem.
    E assim, se reinventando foi o Sítio até 1986, quando a TV
começou a ganhar novas estrelas, onde a grande novidade não era ser
criança, mas virar adulto antes da hora. No Sítio do Pica-Pau Amarelo
as crianças não bebiam guaraná, bebiam suco de manga, de goiaba
ou alguma outra fruta colhida no pé, comiam os bolinhos feitos com
carinho por Tia Nastácia, faziam seus próprios brinquedos, e
compravam suas coisas na venda do Seu Elias. Não havia espaço
para merchandinsig e por isso, dava pouco retorno financeiro para a
emissora. Era a fábula sendo corroída pela verdade da grana.
    Com a confirmação das últimas filmagens do Sítio, Dona Benta
ficou sabendo que iriam matar a vaca mocha. Indignada, a matriarca
foi ter uma audiência com o Sr. Roberto Marinho para pedir pela vaca.
Roberto Marinho a tranqüilizou, dizendo que a mocha não iria mais ser
morta, iria habitar sua fazenda. Era o Sítio vindo morar para todo
sempre na memória da gente.
    Lembro-me agora que em uma das suas últimas entrevistas,
Monteiro Lobato dizia que seu maior arrependimento na vida, era de
ter escrito pouco para as crianças. Lobato nos deixou as histórias do
Sítio, o que é para o mundo infantil, um latifúndio, um poço mais rico e
profundo que o de petróleo do Visconde, uma lição de brasilidade e
fraternidade.
   Hoje, em sua quinta edição televisiva, o Sítio volta mudado,
adaptado ao seu tempo. Acredito que a obra de Lobato é muito maior
que todos eles, pois ainda assim, quando ele nos mostra um mundo
contrário ao que a TV moderna nos quer catequizar, ele chega ao
princípio originário da grande obra, aquele que quando entramos nela,
saímos diferente.
   Como foi bom ter vivido tudo aquilo e só agora, muitos anos
depois, saber da verdade e da sinceridade dos meus ídolos, naquele
mundo fabuloso do Sítio. É José Renato, ou melhor, José Bento
Monteiro Lobato, a vida é diferente e por isso, sempre mais o seu Sítio
vai estar vivo aqui bem dentro da gente, e quando quisermos encontrar
com a Narizinho, com o Pedrinho e com o Visconde, é só lembrarmos
do pó de pirlimpimpim e nos transportamos no tempo, ouvindo
histórias do vento, de um tempo que era belo e que não volta mais.

Petrônio Souza é escritor petros@brfree.com.br

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