"pós-tudo" - Augusto de Campos

ALGUMAS QUESTÕES
SOBRE
FORMA E FUNÇÃO
Paulo de Toledo

Os modernistas brasileiros, com a Semana de 22, tinham como principal proposta criar uma poesia autenticamente brasileira, isto é, Oswald, Mário e seus companheiros estavam conscientes de que a poesia tinha uma função sócio-política dentro da sociedade daquele tempo. Por sua vez, o Concretismo propunha o poema concreto como um "objeto-útil", o que significaria dizer que, para os concretistas, a poesia deveria participar da sociedade como algo funcional e também como um elemento modificador dessa mesma sociedade (posto que, apesar de "útil", o poema concreto se apresentaria como uma "informação nova").
Portanto, assim como aconteceu em todas as fases importantes da história da nossa literatura (inclusive na Geração de 45!), tanto os modernistas quanto os concretistas propunham uma função para a poesia. E os poetas brasileiros contemporâneos teriam alguma noção de qual seria a função da poesia hoje?
Aparentemente, os nossos poetas (especialmente aqueles com menos de 50 anos) não só não querem nem saber de pensar qual é a função da poesia como também não têm a mínima vontade de questionar a validade das formas poéticas herdadas pela tradição, o que levou o crítico Paulo Franchetti a dizer que os poetas de hoje sofrem de "orgulho da influência".
Então, a poesia feita pelos poetas contemporâneos brasileiros, sem função clara e sem vontade de discutir os cânones, serviria pra quê?
Atualmente, temos poetas à mancheia. São dezenas de revistas literárias impressas e outras dezenas de revistas na Internet publicando centenas de poetas de todos os cantos do país. Alguns deles muito talentosos, é verdade. Porém, lendo essas publicações fica na boca um gosto de "déjà vu". São poemas e mais poemas (preferencialmente em verso livre), tentando convencer o leitor de que há algo oculto na mensagem poética que, se encontrado, trará a esse leitor um prazer que recompensará o esforço empreendido. Porém, por mais que se procure, não se encontra nada. A maioria absoluta dos poemas, além de formalmente óbvios, também não nos levam a nenhum tipo de reflexão mais profunda sobre a vida ou sobre o próprio fazer poético.
Se os nossos poetas, na sua maioria, não têm noção de qual seria a função do seu ofício, e se eles não querem se arriscar a criar novas formas de estimular a sensibilidade do leitor, perguntamos: por que esses poetas ainda continuam a fazer poesia?
Pensando sobre isso, vieram-nos duas possíveis respostas. Vamos a elas.
A primeira delas seria a seguinte: os poetas ainda fazem poemas para que seja preenchido o "vazio existencial" causado pela opressão exercida pela "sociedade do espetáculo" e, assim, fugir da angústia de saber-se apenas mais um minúsculo e descartável chip da grande máquina capitalista. É a poesia servindo de "remedinho" para rapazes e moças de classe-média (a maioria esmagadora dos poetas brasileiros pertencem a essa classe).
O segundo motivo de os poetas ainda teimarem em fazer versos (e "não-versos") pode ser explicado pela possibilidade, ainda que remota, de o fazer poético levar esses poetas ao "estrelato". Ou seja, muitos poetas fazem poesia como garotos de periferia jogam bola: ambos têm na sua atividade uma esperança de sair do anonimato. (Não coincidentemente há, hoje em dia, uma quantidade grande de atividades como saraus e apresentações de poetas em festivais e outros eventos literários.) Afinal, gente é pra brilhar. E quem teria mais brilho pra dar do que os poetas?
Finalmente, se, para os poetas contemporâneos brasileiros, propor novas funções para a poesia é algo impensável, se questionar os cânones literários é inconveniente e difícil demais, se a poesia só serve como "remédio da alma" ou como possibilidade de alcançar visibilidade pessoal e, até mesmo, vantagem profissional (sempre se pode arranjar uma oficina de poesia, um posto de resenhista num jornal ou numa revista, uma vaguinha numa editora etc. etc. etc.), portanto: por que esses poetas mereceriam a atenção do leitor brasileiro?
Tem algum poeta aí que possa responder?
Com ensaios ligando Ferreira Gullar a Freud, Marx e Bakhtin, dois leitores do Literal foram os vencedores do concurso que comemora os 30 anos do Poema sujo. Confira os trabalhos de Paulo de Toledo e Tatiana Aparecida, que ganharam um exemplar comemorativo, com direito a CD.

O alto e o baixo em Poema sujo
Paulo de Toledo

Muito já foi falado, escrito e publicado sobre Poema sujo, obra que, para muitos, seria a melhor de Ferreira Gullar, o ponto mais "alto" da carreira do autor de A luta corporal.
Poema sujo, como todos os que o lêem percebem, é um poema organizado pela memória. Se Gullar fosse um poeta grego, provavelmente teria pedido a bênção para a deusa Mnemósine. E, em nossa opinião, além da memória, o que organiza o poema são os pares opositivos, dentre eles: memória/esquecimento, escuro/claro, limpo/sujo, belo/feio, palavra/silêncio, presente/passado etc. etc. etc. Porém, o principal deles é o par alto/baixo.
O poema começa assim:

                       turvo turvo
                        a turva
                        (...)
                        escuro
                        menos menos
                        menos que escuro
                        (...)
                        mais que escuro:
                        claro
como água? como pluma? claro mais que claro: coisa alguma
                        e tudo
                        (...)


Esse "turvo turvo", essa escuridão que vira claridade, é o esquecimento virando memória, que depois vira novamente esquecimento ("mas como era o nome dela?", p. 12) e assim sucessivamente.
A relação alto/baixo, além de conceitual (o que nos remete às idéias de Bakhtin), é também concretizada, no poema, por diversas imagens. As que melhor representam o "alto" situam-se nos trechos do poema em que lemos as seguintes passagens: "ou no bojo de um Boeing 707 acima do Atlântico" (p. 14); e "alguém que venha de avião dos EUA / poderá ver" (p. 73). Essas imagens traduzem duas diferentes formas de ver o mundo: a primeira, em que o poeta está num 707, mostra que, apesar do distanciamento físico, pode-se ainda haver uma proximidade emocional, desde que o sujeito fique "perfeitamente fora / do rigor cronológico / sonhando (p. 14); a segunda imagem do avião, em que americanos sobrevoam a costa do Nordeste brasileiro durante a 2ª Guerra Mundial, simboliza a impossibilidade de se compreender uma realidade que só é possível ser captada pelo sujeito que viveu, que sentiu na carne, aquela realidade: "nada disso verá / de tão alto / aquele hipotético passageiro da Braniff" (p. 73).

O "alto" (no sentido bakhtiniano), em Poema sujo, também é representado pelas belas imagens e pelos sentimentos "elevados", como o amor, a amizade, a saudade etc. Por sua vez, o "baixo" perpassa, impregna e domina toda a obra em imagens contundentes, como:

"um urubu / que é ele mesmo um dia preto farejando carniça / e na carniça / junto do matadouro / que fede / o dia (um dia) apodrece / envolvendo o dia" (p. 41)

"o apodrecer de uma coisa / de fato é a fabricação / de uma noite: / seja essa coisa / uma pêra num prato / um rio num bairro operário" (p. 51)

"um rio / não apodrece como as bananas / nem como, por exemplo, / uma perna de mulher" (p. 56)

"A morte se alastrou por toda a rua, / misturou-se às árvores da quinta, / penetrou na cozinha de nossa casa / ganhou o cheiro da carne que assava na panela / e ficou brilhando nos talheres / dispostos sobre a toalha / na mesa do almoço." (p. 68)

"(...) cidade / que me envenenas de ti,  / que me arrastas pela treva / me atordoas de jasmim / que de saliva me molhas me atochas / num cu / rio me fazes / delirar me sujas / de merda e explodo o meu sonho / em merda." (p. 83)

Mas por que Ferreira Gullar criou um poema em que, apesar da alternância entre as imagens "baixas" e "altas", o "baixo" (o sujo) parece predominar?
Talvez encontremos uma resposta nas palavras de Bakhtin sobre a obra de Rabelais:
As coisas novas, as riquezas que estão escondidas na terra são muito superiores ao que existe no céu, na superfície da terra, nos mares e rios. A verdadeira riqueza, a abundância não residem na esfera superior ou mediana, mas unicamente no baixo. (Bakhtin, p. 323)
Quem sabe, Ferreira Gullar, na sua situação de exilado e com a morte o espreitando a cada esquina, tenha percebido que a verdadeira "riqueza" está oculta sob camadas grossas de repressões civilizatórias e que só escavando essas camadas (ou seja, rememorando e estando "fora / do rigor cronológico / sonhando") poderia ele encontrar o ouro bruto da vida, com suas sujeiras, dores e delícias.

Referências bibliográficas:

BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. O contexto de François Rabelais. São Paulo/Brasília: Edunb / Hucitec, 1996.
GULLAR, Ferreira. Poema sujo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976.

paulodtoledo@uol.com.br