Sandra Moreira

Chuviscava sobre minha infância sempre que a tevê saía do ar
NELSON DE OLIVEIRA

 

 Elogio da ignorância talvez fosse o melhor título para este breve depoimento. Justiça seja feita: sempre fomos muito íntimos, minha ignorância e eu. Mas apenas graças à literatura foi que descobri a que profundidade chegam as raízes dessa intimidade.
Pode-se dizer que minha relação com a literatura começou, para valer, muitíssimo tarde. Uma relação incestuosa, pois somos meios-irmãos e não sabíamos. Só em 86, aos vinte anos, cheguei à conclusão de que o que de fato queria fazer na vida — e se possível viver disso — era escrever ficção. Com ou sem o consentimento da palavra e da própria vida. Todo o ingênuo romantismo contido nessa determinação só ficaria mais claro no futuro. Na época, pelo que eu podia deduzir dos suplementos literários que devorava mal chegavam às bancas, não havia nada mais glamouroso do que uma vida passada entre os livros e a gente sábia e refinada que os escrevem. Tudo o que posso adiantar-lhes é que não demorou para que eu descobrisse que gente sábia e refinada existe, sim, mas raramente entre os grandes escritores. Ah!, os grandes escritores… Por qualquer dá cá aquela palha, sacam a pena e não fica pedra sobre pedra. Se a sombra de um romancista passa por cima da sombra de um poeta, Deus nos acuda! A sapiência tornou-se, nas mãos dos mestres contemporâneos, a arma mais mesquinha usada pelos baixos instintos (avareza, gula, ira, luxúria, preguiça, soberba e inveja) na disputa territorial. Razão pela qual recomendo aos novatos o exercício da ignorância.
Quantas vezes vocês já não ouviram um escritor revelar, como Borges, que seu primeiro contato com os livros aconteceu aos sete, oito anos, na biblioteca (geralmente imensa) do pai ou do avô? Acho invejável esse tipo de experiência, talvez porque na minha infância nunca tenha ocorrido nada igual. Sobre sua infância, Borges, cujo pai escrevera diversos livros, dizia: "Em casa, tanto o inglês como o espanhol eram comumente usados. Se me pedissem que nomeasse o acontecimento mais importante da minha vida, eu diria que foi a biblioteca de meu pai. Ainda posso descrevê-la. Ficava numa sala só para ela, com prateleiras envidraçadas, e devia conter vários milhares de volumes." Como se sabe, Borges tinha predileção especial por enciclopédias. Depois que a cegueira o envolveu completamente, ele afirmava não se lembrar mais de nenhum rosto que vira na infância, mas se lembrava bastante bem das gravuras da Enciclopédia Britânica.
Na casa de meus pais — uma casa pequena, de dois dormitórios, em uma cidade pequena, São Joaquim da Barra, situada no interior de São Paulo — nunca entraram livros. Nem quando eu era criança, muito menos recentemente. Mas não vou perder tempo discorrendo sobre isso. Em São Joaquim da Barra não havia livraria, o que explica em parte o problema. Ainda hoje, quem quiser comprar um livro tem de ir a Ribeirão Preto, pois na minha cidade livrarias mostraram-se um negócio fadado ao fracasso. A falta de interesse que meus pais e muita gente no Brasil têm pelos livros sempre me espantou. Obviamente a leitura não é, para essa infinita multidão, a fonte de prazer e descobertas que é para todos nós. O mais curioso é que as pessoas sem nenhuma intimidade com os livros costumam ver a nós, leitores, como criaturas excêntricas ou, pior, esnobes e metidas a intelectuais. Vivemos, eles e nós, no mesmo planeta, mas certamente não no mesmo universo*.
Quando digo que na casa de meus pais nunca entrou livro algum, é claro que exagero. Faço isso porque é a melhor forma de determinar qual o prestígio que os livros tinham ao lado dos outros objetos da casa. Eram, na verdade, como pedras ornamentais que se colocam em um jardim de inverno. Não tínhamos jardim de inverno (talvez porque a atmosfera, na região de São Joaquim da Barra, arda acima de 30° C praticamente o ano todo) mas a imagem é boa. As pedras não requerem cuidado especial, suportam altas temperaturas e não falam, sendo em tudo diferentes dos livros. Os que se achavam na estante de casa, ao lado da tevê, dos bibelôs e dos pequenos vasos que as mães gostam de dispor nas prateleiras, eram vetustos como as pedras. Deviam ter mil anos e falar outra língua — por isso não nos entendíamos. Ninguém os abria. Ficavam lá, quietos, conferindo certo charme ao ambiente. Por isso tinham de ser tão parrudos: o porte aristocrático era imprescindível, caso quisessem impressionar as visitas. Livrões mudos como eunucos, para os quais estava fora de cogitação cantar para uma criança de sete anos.
Na minha infância não houve ninguém — tio, avô ou amigo da família — que me introduzisse no universo dos livros. Em casa não havia o hábito da leitura nem de revistas nem de jornais, muito menos de histórias infantis na hora de dormir. Se nessa época a literatura nunca tentou me seduzir, em contrapartida tenho de confessar que eu, bem servido pela tevê, também não sentia a menor falta das grandes leituras. Diferente de Borges e de tantos outros cujas bibliotecas foram verdadeiros locais de contato com o sagrado, o mundo profano veiculado pela televisão me bastava. Se, por um lado, a literatura não fazia parte dos meus interesses, por outro os desenhos animados e os seriados de ação, que eu assistia em preto-e-branco, supriam a necessidade que eu tinha, e toda criança tem, de acompanhar e se envolver com narrativas. Todos sabem que não há nada mais imbecilizante do que a televisão. E ninguém assistiu mais à tevê, na infância, do que eu. Sem que eu soubesse, a dose maciça de Vila Sésamo, Jornada nas estrelas e Terra de gigantes estava pavimentando com tijolos de ouro (como n’O mágico de Oz) o caminho que me levaria à estética da ignorância. Faço parte de uma geração de escritores cuja infância foi bombardeada pela televisão. Ainda não parei para avaliar como o chamado circo eletrônico, ao substituir as estantes da grande biblioteca que nunca existiu na casa de meus pais, costuma se apresentar na minha literatura: se de maneira positivo-negativa ou negativo-positiva. Mas ninguém que tenha, como eu, passado tantas horas diante de veículo tão avassalador poderá afirmar não ter sido contaminado por ele de maneira irrevogável. Na trama de minha histórias, quer isso me agrade ou não, há a sombra de muita hidra eletrônica — com a cabeça do Zorro, dos Três Patetas e de muitos outros.
Minha educação infantil, como se vê, foi basicamente visual. Foi só aos doze, treze anos que comecei a ler livros. Não os da verdadeira literatura — e por verdadeira literatura entendo desde a obra dos autores canonizados, como Machado e Rosa, à dos jovens em atividade na década de 70, como Caio Fernando Abreu e Leminski — mas os da outra, da literatura de massas. Uma tia de minha mãe, que morava em outra cidade, possuía a obra completa de Monteiro Lobato. Sempre que a visitávamos, na volta eu trazia comigo um ou dois volumes das aventuras da turma do Sítio do Pica-pau Amarelo. Foram leituras muito esporádicas, devido a distância que me separava dos livros dessa tia longínqua, mas foi também uma experiência marcante. Jamais me esqueci do prazer que a prosa juvenil do Lobato me proporcionou. Nessa época, também passei a freqüentar a biblioteca municipal, minúscula e sem graça como manda o figurino. Até então a tevê, os quadrinhos e o cinema me alimentavam satisfatoriamente de ação, suspense e aventura. Aliás, comecei a freqüentar o único cinema da cidade por volta de 77, ano em que estrearam Contatos imediatos do 3º grau e Guerra nas estrelas. É difícil explicar à juventude atual, já acostumada com as maravilhas da informática do século XXI, o impacto que estes dois filmes provocaram na mente dos jovens da década de 70. No meu caso, especificamente, foram os responsáveis pela seleção literária que eu começava a fazer. Passei toda a minha adolescência metido com livros de ficção científica. Li tudo o que havia em português dos papas do gênero: Asimov, Robert Heinlein, Arthur Clark e Ray Bradbury.
Na época em que eu me deliciava com os best-sellers destes senhores, eu não sabia da existência de Borges ou Kafka, Joyce ou Cortázar. Mas hoje, que já os conheço relativamente bem, percebo no meu íntimo um vínculo emocional muito forte, que une estes mestres da literatura universal aos Asimovs e Heinleins da minha adolescência, donos de uma obra datada que hoje ninguém mais lê. Em nome de certo sentimentalismo nobre, às vezes gosto de suspender todo o juízo de valor e acomodar na mesma prateleira os contos de Borges e os de Bradbury. A fantasia que me fascina atualmente nas páginas de Kafka e Cortázar é, por exemplo, a mesma que me deslumbrava nas páginas do Lobato que escrevia para as crianças. É claro que a maneira como cada autor elaborou ficcionalmente seu próprio universo fantástico é o que faz a diferença entre a alta e a baixa literatura. Mas juntar, vez ou outra, a alta e a baixa literatura é, a meu ver, algo que ajuda a manter viva a cultura literária de um país.
Como disse, meu envolvimento a sério com a literatura só aconteceu no ano em que completei vinte anos. Essa tomada de decisão foi a principal conseqüência de um fato mais importante ainda: em 85, eu me mudara de São Joaquim da Barra para São Paulo, a fim de cursar a faculdade. A mudança de uma cidade pequena e provinciana para a capital cultural do país representou para mim uma imensa explosão criativa. De uma hora para a outra, me vi cercado de gente interessante e estimulante, dentro e fora da faculdade. Descobri sebos e cineclubes, museus e teatros. O mundo da alta cultura, pelo qual eu não nutria nenhum interesse por achar meio maçante e esquizofrênico, devagar foi se abrindo e me revelando suas maravilhas — mais ou menos como a máquina do mundo do poema de Drummond. Uma vez diante dos pratos desse banquete sem igual, deixei que a fome aflorasse e passei a devorar tudo o que havia de mais apetitoso. Em música, descobri Stravinski e Monk. Em pintura, Max Ernest e Di Cavalcanti. Em cinema, Kurosawa e Bergman. Em literatura, uma infinidade de nomes, mas principalmente Rosa e Leminski. Essa imersão na alta cultura, resultado da minha mudança para São Paulo, foi um dos acontecimentos mais significativos da minha vida. A ignorância que me habitava nunca mais foi a mesma. Ela ganhou contornos mais definidos, mais densidade e envergadura. Deixou de ter apenas três dimensões e evoluiu de uma sincera poética para uma completa estética da ignorância.
Minha formação acadêmica é a de artista plástico. Por muito tempo, meu único desejo foi o de trabalhar com gravura, pintura a óleo, ilustração para jornais e revistas e história em quadrinhos. A idéia de algum dia trabalhar com vídeo e cinema também não me desagradava. Uma vez terminada a faculdade, meu primeiro emprego foi como diretor de arte em um agência de propaganda. É claro que eu escrevia ficção, mas muito esporadicamente, sem nenhuma disciplina. Apaixonado pela obra do Leminski, escrevi muita poesia satírica, muito conto metalingüístico. Mas o que eu queria mesmo era me firmar como artista plástico. Cheguei a fazer algumas exposições, mas abandonei esse projeto de vida depois de trombar com dois marchands cuja ética profissional fora cuidadosamente instalada entre a sola de seus sapatos e a superfície da Terra. Isso, mais a bolsa que a Secretaria de Estado da Cultura me concedeu para que escrevesse meu primeiro livro, fizeram com que eu abraçasse de vez a causa literária.
Essa bolsa surgiu na esteira de uma oficina da qual participei em 89, coordenada pelo João Silvério Trevisan. Eu tinha em mente um livro de contos curtos, meio humorísticos, cujo título seria Fábulas. Tanto a oficina quanto a mesada que recebi, durante seis meses, para escrever o livro, foram determinantes para que eu, devagar, fosse deixando as artes plásticas de lado. Também teve um peso muito grande nesse processo o Prêmio Casa de las Américas, que as Fábulas receberam em 95. Como podem ver, sou um escritor mestiço — filho da tevê e das artes plásticas —, movido a tapinha nas costas e algum incentivo financeiro. Talvez não estivesse aqui, hoje, se em vez de esbarrar com os dois marchands de ética duvidosa tivesse topado com um par de editores sem nenhum caráter. Não importa. Todos os profetas e demais salvadores da pátria também se fizeram por caminhos tortos. O fato é que, nestes dez anos de envolvimento com a literatura, escrevi uma série de textos que me deram, e ainda dão, imenso prazer. Também juntei alguns livros, nesse meio tempo, e quase já posso chamá-los de minha biblioteca. São a deliciosa pedra no caminho: sempre que tento me mover, esbarro numa pilha deles. Esses choques cotidianos entre mim e a obra alheia é fundamental. Os livros, se não fizeram de mim um sábio, pelo menos não me deixam recuar nem esquecer que tenho uma missão a cumprir. A trilha da reta ignorância passa por incalculáveis leituras.

* Não resisto a uma citação. Citações, ainda mais no idioma original, são o verniz rococó que realça as cores da melhor ignorância. Alberto Mangel escreveu, em A history of reading: "Something in the relationship between a reader and a book is recognized as wise and fruitful, but it is also seen as disdainfully exclusive and excluding, perhaps because the image of an individual curled up in a corner, seemingly oblivious of the grumblings of the world, suggests impenetrable privacy and a selfish eye and singular secretive action".

 

Nelson de Oliveira nasceu em Guíra, Sâo Paulo, em 1966.
Contista, romancista e ensaísta, Publicou Naquela época tínhamos
um gato (contos, 1988), O filho do crucificado (contos, 2001) e
A maldição do macho (romance, 2002),
entre outros. Em 2001
organizou a antologia Geração, reunindo os melhores contistas
brasileiros surgidos no final do século XX. Dos prêmios que recebeu
destacam-se o Casa de las Américas (1995), Fundação Cultural da
Bahia (1996) e o da Asssociação Paulista dos Críticos de Arte (2001).
O presente artigo integra o livro
O século oculto e outros sonhos provocados, publicado recentemente pela Escritura Editora - SP- escritura@escritura.com.br

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