"Let the average man be divine''

RODRIGO GARCIA LOPES- escritor, jornalista, tradutor e compositor. Como jornalista, trabalhou na Folha de Londrina, Folha de São Paulo, jornal Nicolau e A Notícia. Foi um dos editores da revista Medusa (1998-2000) e desde 2002 é um dos editores da revista independente de literatura e arte CoyoteÉ autor dos livros de poemas Solarium (Iluminuras, 1994), Visibilia (Setteletras, 1996; Travessa dos Editores, 2005), Polivox (Atrito Art, 2001), Poemas Selecionados (Atrito Art, 2001), Nômada (Lamparina, 2004). Atualmente, prepara seu segundo CD, entre outros projetos. Há sete anos edita a revista de arte e literatura Coyote.  Em 2005 publicou Leaves of Grass / Folhas de Relva, de Walt Whitman (Iluminuras). É Mestre em Humanidades Interdisciplinares pela Arizona State University, com tese sobre os romances de William Burroughs e Doutor em Letras pela Universidade Federal de Santa Catarina, com tese sobre a poeta e filósofa modernista norteamericana Laura Riding. Tem trabalhos publicados em revista de vários países.
Em entrevista ao poeta Max Silva Moreira Rodrigo conta detalhes da tradução que fez do clássico
da poesia norteamericana FOLHAS DE RELVA, de Walt Whitman.

 

Rodrigo, Como se deu seu encontro com a poesia de Walt Whitman e como nasceu o desejo de traduzi-la?

 Whitman sempre foi um dos meus poetas favoritos, mas sinceramente não me animava a ideia de traduzir a última edição de Leaves of Grass, o que ocuparia muito tempo, talvez anos. Eu já acalentava há anos o desejo de traduzi-lo, sobretudo por não gostar das poucas traduções dele que haviam no Brasil, sobretudo a do Geir Campos. Conversando com Samuel León, meu editor, e com a proximidade do centenário da primeira edição, achamos que seria um gol de placa o lançamento de uma edição comemorativa da primeira edição de Leaves of Grass, já que o livro foi expandido e modificado por Whitman durante toda a sua vida, até mesmo poucos meses antes de sua morte.

Como se iniciou e se desenvolveu o trabalho de pesquisa?

 Bem, eu conhecia bem a poesia completa de Whitman, e ao longo dos anos li bastante também a respeito de sua poesia. Também estudei muito a historia da literatura americana, sobretudo a poesia do século 20. Devido aos cursos que ministrei de História da Literatura Americana e Cultura Anglo-Americana, este interesse reacendeu o interesse por Whitman. Para este trabalho específico, li as principais biografias de Whitman e muitos estudos teóricos e críticos, além de livros de história americana, para me aprofundar ao contexto da época. Assisti a vídeos sobre o poeta e sobre a Guerra Civil, além de vários estudos importantes, como os de Malcolm Cowley, Ivan Marki e Ed Folsom.

Você teve acesso aos famosos notebooks de Whitman?

 Não, apenas os disponibilizados pelo site de Whitman, bolado por Ed Folsom, na internet. Mas tive o enorme prazer de segurar um exemplar da primeiríssima edição na biblioteca da Brown University, em 2006. Daí entendi melhor o verso "quem toca neste livro, toca num homem". 

Qual a importância da poesia de Whitman (1819-1892)?  

Whitman e seu livro se fundiram num mesmo projeto de vida e de linguagem que alteraram os rumos da poesia moderna como uma onda gigantesca e cujos impactos podem ser sentidos até hoje. Sua poesia afetou a sensibilidade de várias gerações de escritores e artistas, de Borges a Pessoa, de Pound a Garcia Lorca. Como diria Pound, "Whitman é para mim o que Dante é para Itália". Precisa falar mais?

 Em sua opinião porque o nome Folhas de Relva?

Traduz a ideia de uma poesia selvagem, nova, que se expande e se entrelaça como uma relva densa e variada. Apresenta uma curiosa multiplicidade de sentidos, todas pertinentes ao projeto poético de Whitman. Leaves pode se referir tanto a folhas de uma planta ou relva quanto às folhas do próprio livro. Mais: a folha de papel onde se imprime o poema e a folha de grama (grass) são irmãs naturais, ambas feitas de celulose. Grass possibilita também várias leituras: grama, capim, relva, pasto, erva. Grassar e também relevar, levantar. Ele queria que os poemas grassassem em toda parte, sobretudo no coração e mente do leitor.

 Qual o tema central na poética de Walt Whitman?

 A liberdade, o amor ao ser humano. 

Sabemos que Whitman passou a vida aprimorando e reescrevendo Folhas de Relva. Quantas edições ele publicou?

Nove. Dos 12 poemas da primeira edição, temos quase 400 na edição conhecida como "de leito de morte". Mas minha visão é que o núcleo duro e sua poética, a matriz de todo seu subsequente projeto de vida e linguagem, está nos 12 poemas da primeira edição. Além do importante ensaio introdutório, que ele eliminou nas edições posteriores, o livro traz poemas-chave como "The Sleepers", "I Sing the Body Electric", "There was a Child Went Forth" e, sobretudo, a obra-prima "Song of Myself", que ocupa 60% do volume.

 Qual edição de Leaves of Grass voce usou na tradução e porquê

A primeira, porque é a mais Myke Tyson dele, é aquela em que seu espírito se revela mais plenamente. O impacto da primeira edição e sua originalidade de concepção são únicos. O crítico Ivan Marki é um dos que defendem que, embora as edições subsequentes tenham feito o livro ganhar em variedade e complexidade, "a voz distinta de Whitman nunca foi tão forte, sua visão tão clara e seu design tão firme quanto nos doze poemas da primeira edição".

 Foi possível a comparação entre as edições? Em que difere a primeira da última edição?

Tentei me manter fiel apenas à pimeira edição, de 1855, mesmo porque Whitman tinha a fama de piorar os versos quando ele mexia posteriormente. Na primeira ele está ali, inteiro, como uma revelação. 

Você pôde perceber na sua pesquisa um método de trabalho do poeta?

Um método caótico. Tinha uma leitura enciclopédica. Whitman escrevia em toda parte nos jornais, na rua, na praia, nos bondes, no teatro e no quarto pequeno que ele dividia com o irmão especial. Não nos esqueçamos de que ele era jornalista. 

Quais foram os contemporâneos mais conhecidos de Whitman na América do Norte? Eles o influenciaram de algum modo?  

Contemporâneos? Poe, Melville, que ele provavelmente cruzou na rua, o fantástico Thoreau, que o visitou certa vez, a conselho de Emerson, e que ficou escandalizado com o visual do poeta e surpreso com o fato de que parecia que ele conhecia todo mundo que ele cruzava na rua. E Emerson, sem dúvida, seu grande mestre. Emily Dickinson, que, segundo alguns biógrafos, achou o livro "uma porcaria". Outros contemporâneos eram Henry Longfellow, Oliver Wendell Holmes, Hawthorne. 

Quais foram as ocupações de Whitman? Elas tiveram alguma influência na sua literatura

Trabalhou numa serie de jornais importantes, foi tipógrafo, marceneiro, editor, professor em comunidades rurais, correspondente de guerra, enfermeiro. E todas estas atividades estão coladas à sua vida.

 Do ponto de vista de quem viveu nos EUA e conhece a poesia de Whitman, você diria que há alguma relação entre Walt Whitman e o american way of life? Qual?

A promessa do sonho americano, a idéia de que, com esforço e trabalho, mesmo saindo do nada, é possível chegar lá e vencer. Há, claro, muita influencia do puritanismo, o que é uma marca registrada da cultura norte-americana.   

Qual a importância do amor na poesia de Walt Whitman? De que tipo de amor fala o poeta?

Do amor universal, mas, sobretudo entre homens. Por sugestão de Emerson, ele chegou a cortar algumas partes mais picantes. Calamus, por exemplo, é um exemplo de poesia homoerótica de primeira grandeza. Quando o livro foi lançado Whitman foi acusado de tudo e um pouco mais.

 Qual a importância da ciência e da religião para o poeta?

Muito grande. Ele lia livros de astronomia, geologia, Darwin, Upanishads, uma leitura errática, enciclopédica que se reflete na estrutura de seu livro Leaves of Grass.

 Há alguma preocupação com a política em Walt Whitman

Sem dúvida.

 Whitman publicou outros livros de poesia? Quais

Sim. November Boughs, Drum-Taps, Democratic Vistas, Good-bye, My Fancy, Two Rivulets, Specimen Days and Collect. Algum destes foram incorporados ao Leaves of Grass, como quase tudo que escreveu em poesia. 

Você tem algum outro projeto de tradução em mente

Deve ser lançado ano que vem a tradução de "Zone & Outros Poemas", do Guillaume Apollinaire, pela Iluminuras. Mas por hora quero me dedicar mais a musica, já que pretendo gravar meu segundo CD em 2010 e também escrever o romance policial que já levou 3 anos de pesquisa. E pretendo lançar mais um livro de poemas, já que o último foi o catatau Nômada.

 Blog: www.estudiorealidade.blogspot.com     

Entrevista concedida a Max Silva Moreira para o site de literatura www.tanto.com.br.


Confira um ensaio de Max sobre  Walt Whitman em:  

Whitmam: percurso de um poeta

Mais Whitman na rede:

http://sdrc.lib.uiowa.edu/preslectures/folsom98/index.html

http://www.whitmanarchive.org/manuscripts/index.html

http://www.whitmanarchive.org/manuscripts/figures/loc.00051.001.jpg

http://memory.loc.gov/ammem/collections/whitman/index.html

http://memory.loc.gov/ammem/collections/whitman/gazphoto.html