Solo sou

ficção de
Maria Inês Chaves de Andrade

ilustração de Julio Saens

  Solo sou eu em minha própria audição. Sozinho, nada mais orquestro senão eu e meus próprios instrumentos de solo: enxada e escavadeira. Tenho pás e vivo em guerra.
O que mais me impressionam são as crianças. Soturnas, os olhos esbugalhados me cobrando auxílio, sedentas, esfomeadas, carentes. Quando fui tudo isso tive pai, mãe, seguro-saúde, água e comida. Então, delas sei apenas que são como eu tinha sido sem me tornar. E não sei de mim ainda, que tornado eu mesmo e agora, depois de amado, alimentado, amparado e satisfeito, se posso fazê-las vir a ser tornar, também, como forma de retribuir à vida.
Brinco de Deus - o crucifixo dependurado na orelha, para dizer que é brincadeira o que se vê morrer por aqui, quando assistir e assistência se associam à incapacidade de prestar para alguma coisa e demonstram o quão somos imprestáveis, vez que não podemos manipular mais nossos próprios conceitos e pré-conceitos, feitos preconceitos e que nos obrigam, nestes instantes, ao nosso próprio questionamento e auto-desmoralização.
  Os becos entre as barracas de lona tombadas pelo vento e pela areia trazidos por ele cerziram uma cidade inteira habitada por moribundos e convalescentes. Caminho por entre estas tendas no deserto, com a intimidade que as bactérias têm para correr os corpos que aqui transitam. O deserto mais desértico que se possa conceber, onde escorpiões e lacraias já se tornaram alimento e a areia foi aquecida em fogo brando para acalentar a fome mais grotesca. O pó maqueia a face do absurdo. Não existe o que há por aqui. O pesadelo é o único sultão vivendo da abastança da miséria.
  Os médicos não dormem há dias e entre um cochilo ou outro que o organismo os obriga, gritam atormentados pela própria realidade, fosse sonho não sonhar. Nada mais dói por aqui que não a dor mesmo.
  Minhas unhas estão sujas de terra. Tenho cavado a semanas um poço atrás de água. Sei que viram-na correr aqui. Depois, viram-na andando, cada vez mais vagarosamente, arrastando-se e de tanto calor, viram-na chuva, a seguir chuvisco, depois nuvem escura, branca e agora, no céu límpido e azul, nada. O buraco resiste raso na terra enrijecida. Só não me desanimo. Tento a irracionalidade do tatu e me debruço, até divertidamente.
  Cavo atrás de água e minha cava evaporando descreve margens de suor em minha camisa, como as margens desenhadas do rio sob minhas mãos. Ainda é possível descobrir ossadas de peixes e de outros animais. Os que viviam na água e os que viviam dela. Deles fazem sopa de água sem tutano, só por fazer sopa de água com alguma coisa para se aquecer o estômago contraído e depois ficam por aí salivando com os ossos chupados na boca.
  Cavar tornou-se primeiro uma obrigação, seguidamente, uma necessidade e agora, meu alento. Aproveito o torpor do sol no final da tarde e a sonolência das manhãs. Neste intervalo, ressono como as coisas observando a vida ser a resistência à morte.
Aro a terra que me consome, de arada que é, porque a ressequidão torna tudo mesmo insatisfeito, seja de água e de sentimento. E quanto mais se dá à insatisfação, mais ela toma, menos se tem, mais dela se tem, e se tendo dela, não adianta se ter mais nada...
  Tenho cavado a semanas um poço atrás de água. Tenho me cavado atrás de água. O compromisso das minhas emoções tornou-se a própria escavação, como se buscando o caminho reverso das lágrimas, descobrisse-me em minha terra, aterrado que estou com nossa ressequidão comum.
  Tenho cavado a semanas atrás de mim. Minhas unhas estão sujas de sangue. O meu sangue no dela fazendo barro. Talvez, a possibilidade de alguma coisa se remodelar.
  O homem, pó, ao pó retornará. Manipulo princípio e fim, meio que sou, meio onde estou. Reconheço-me. Revejo-nos. Homem e humanidade. Cavo cova. Lembro-me de meus sorrisos e dela no meu rosto. Agora sei onde os enterrei. Era doce ter covinhas. Não soubera da morbidez na alegria, como um deboche antecedente à autodestruição.
  Compreendo-me apocalíptico, como a cumprir previsões. Os cavaleiros sou eu. "O inferno é aqui mesmo". Lembro-me de crer nisto, duvidando. Agora...
  Tenho cavado o inferno. Levei uma vida para isso. Larva na lava. Parasitadamente. Tenho cavado no inferno.Tenho cavado e minhas unhas estão sujas de mim, da lava que não se lava.
  Parasita sou mesmo eu neste meu corpo que sempre tentei destruir, de uma forma ou de outra, como se nunca tivesse crido no valor de existir, pelo menos existir da minha forma, da forma com a qual tinha nascido e não de outra, fosse por exemplo belíssimo, inteligentíssimo, famosíssimo, ou qualquer outra adjetivação que me desse a oportunidade de ser superlativo, exagerando invejas, apenas. Mas, relativamente, coube-me ser muito pouco ou ter expressivamente o que quisera inexistente. Sabe, aquela coisa de ser muito pobre, que é a maneira diferente de se ser quem tem muito pouco dinheiro. Acaba-se por se ser o mesmo sendo aquele que se queria outro.
  Faço publicidade do meu próprio buraco, arrastadamente e para mim mesmo. Tenho as mãos feridas, eu que sempre fui aleijadinho sem deficiência à vista nem esculturas.
  O fim é teso, mais que duro. Ressequido. Enrijecemo-nos, quase cadavericamente, não fosse o corpo ainda. Mas, quando a alma morre... É da frieza que se tem de ter para se enfrentar o calor sufocante e o sufocamento das coisas e de toda essa gente que não consigo fazer respirar. Quem dera a ausência de tudo todos os dias fosse a maneira de se ter a presença de nada, quando nada fosse nenhuma dor, nenhuma morte, nenhuma tristeza... Sei de já não ter admitido ter e ser nada. Agora, quem me dera podê-lo. O nada. Dureza, pois, a do fato de se enfrentar teso. Muito teso. Como se, morbidamente, se pudesse experimentar o tesão dos necrófilos, de se masturbar o corpo sem alma, quando apenas corpo com vida.
  Procuro cavar fundo como a saber do ventre da terra, da mãe terra, que gerara tanto e depois, estéril e morta, faz morrer também. Morreu de parto por conceber tanto? Cavo fundo e ponho, uma a uma, todas as minhas expectativas. Haverei de enterrá-las sob cruzes e Ave-Maria. Ao final, arrancarei as cruzes e as queimarei para esquentar qualquer coisa de comer. Quando comerei a ave. Maria, perdoe-me porque blasfemo.
  A mãe Terra agora gesta a morte e com seus mortos, todos os mortos. Caminho por sobre o corpo morto da terra, seu corpo de terra pura, sem colheita, sem rio, sem chance. Não há nem anseio pela morte. Ela é óbvia e íntima. Como houvera de ter sido a vida um dia por aqui. Óbvia e íntima no exaspero da natureza.

foto: Rosana Ferolla - arte de Julio Saens * Poeta e romancista, autora de vários livros, entre eles A SUINDARA, poesia, Ed. Del Rey, 1995 e BÁRBARA, romance, Ed. Autêntica, 1999.

 

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