Carta aos Pequenos poderosos
e aspirantes ao Poder

Maiara Gouveia

Divulgação
Cena de  O Jardineiro fiel, de Fernando Meirelles

Digamos que Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel têm alguns pontos em comum: o brilhante trabalho do diretor Fernando Meirelles, a estrutura do primeiro orginalíssima, a do segundo, não linear, e, se num caso as tomadas refletem os diversos pontos de vista das personagens envolvidas, noutro, através de flashbacks, cria o clima típico dos romances de le Carré (indo um pouco além, eu suponho), num caso cria a trama a partir de uma narrativa em primeira pessoa, no entanto, desbobrando, através da imagem,em diversas possibilidades de interpretação do enredo, e noutro, demonstra com nitidez a limitação da ciência dos fatos de quem está imerso na trama, em ambos refere-se a problemas sociais que envolvem a participação fundamental dos senhores lá do alto, gerando o massacre de milhares de pessoas, meios abomináveis para os fins de manutenção das relações doentias do poder e da riqueza que se alimenta da miséria: no primeiro, trata-se do tráfico de drogas ilegais e suas consequências na vida das pessoas da enorme favela carioca Cidade de Deus,e, no segundo, da grande máfia de drogas legais da indústria farmacêutica que dispõe da vida das pessoas no Quênia. É claro, são realidades distintas, mas a essência do problema é a mesma, do meu modestíssimo ponto de vista. Mas vamos à pequenina carta que escrevinhei aos pequenos poderosos e aspirantes ao poder inspirada pela comoção causada pelo último filme que vi há dois dias:


Pequenos poderosos e aspirantes ao Poder,

O poder, ah o poder! quem alcançá-lo pode estar certo de uma coisa: o poderoso depende mais da cadeia de relações de interesses sociais do que qualquer outro ser humano. Quem leu "O Príncipe" e sentiu-se enojado ainda tem algumas chances, mas, provavelmente, caso alcance o pretendido, estará violentando-se: é mesmo necessário, afirmo com segurança, um estômago resistente para suportar o que há de vir, senhores aspirantes à glória. Ser um bom manipulador de emoções é essencial à liderança, of course,e então, você poderá escolher entre manipular positiva ou negativamente de acordo com o seu propósito. Para chegar aos mais altos postos, evidentemente, é necessário excelente conhecimento da psicologia humana bem como uma mente muito forte e o dom da persuasão, porque você não é o único que deseja chegar lá, se não sabe da concorrência odiosa a que terá de se submeter, é melhor desistir agora! Bem, supondo que preencha todos os requisitos necessários, é interessante avaliar o que conquistou: um estado, um país, um continente? Grandes imperadores quase realizaram a proeza de tomar conta do mundo inteiro, subjugando a todos. Mas, meu querido rei ou rainha, será que você notou algo estranho? Um: você provavelmente não está satisfeito com o alcançado e quer mais. Dois: você teme ser derrubado do trono. E por que? Porque o maior poderoso depende de seu exército, dizendo de outro modo, depende daqueles que compõem juntamente consigo as pilastras da soberania, porque ser poderoso é, em última estância subjugar-se ,ópio sem deleite produzido da papoula mais amarga: o sonambulismo dos fracos, é isso que você quer? Vá em frente, tantos o fizeram, não será o primeiro nem o último, mas...
A divindade não se submete. Em uma lista bem clichê de verdadeiros podersosos constariam nomes como Teresa, a Madre; Sr. Ghandi, o Mahatma e até Ioshua bem Mirian, o tal do Cristo e veja que pomposos os títulos, sobretudo o último, que atingiu status de Filho do Próprio, creio que isso é glória, não? e sem submissão. Eu acho que se você, ô senhor(a) ambicioso(a), escolheria a mehor opção, mas é claro que eu não quero influenciá-lo, pois não sei se você é realmente capaz de ser mais do que um imperadorzinho qualquer, submetendo-se a todo tipo de indignidade e ao medo de não conquistar o bastante ou de ser deposto, não sei mesmo se você é um homem ou um rato e é realmente muito mais difícil conseguir melhorar a vida de milhares de pessoas do que destruí-las, algo aliás que qualquer furacãozinho Tsunami consegue, nem é preciso ser um homem, se é que você me entende. Nah!

PS: Interessante: Tess, a idealista esposa do diplomata inglês que protagoniza o último filme do Meirelles, escreve em uma carta sobre os fins que justificam seus meios, conto ou não conto o que pensei? naninas. Só pra quem vir o filme e comentar comigo o que achou de tudo.


Maiara Gouveia
tem 22 anos e é estudante de  letras da USP.

maiaragouveia@gmail.com
http://maiaragouveia.blog.uol.com.br

 

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