conto

Língua portuguesa
    Lycio Faria

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- Professor, socorro! Eu preciso de sua ajuda. Tenho muitas idéias, que dariam ótimos livros, mas não consigo dominar a língua mater.
- Não seja modesto, sua frase está muito boa. Os puristas exigiriam aspas em língua mater, porque a expressão é latina, mas isso já seria um preciosismo.
- Não é questão de modéstia. Hora eu escrevo certo, hora não.
- Realmente, esses "oras", por exemplo, não têm agá.
- Como acim? Hora não tem agá?
- Hora tem agá, mas ora não tem agá. São palavras homófonas, mas não homógrafas. E assim escreve-se com dois esses e não com cê.
- Cê ta mangando comigo? Acim não é o masculino de acima?
- Não, uma coisa nada tem a ver com a outra.
- Anotado. Eça eu não erro mais.
- Então, anota também que essa é com dois esses.
- Mas e o Eça de Queiroz, não é uma autor famoso, no qual ce pode confiar?
- De fato, no Eça de Queiroz pode-se (com esse) confiar, mas o essa que você escreveu não é o do Queiroz.
- E porque o Queiroz pode escrever Eça e eu não posso? Só porque ele é famoso?
- Não é questão de fama, é questão de ortografia. O Eça do Queiroz é nome próprio e o seu "essa" é um pronome.
- Quer dizer que pronome dele pode e pro meu não pode? Porque?
- Porque, não, por que, porque a frase é interrogativa.
- Ha... agora entendi. Se a frase é interrogativa eu não posso usar Eça, mas se for afirmativa posso. Omeça! Que coisa esquisita.
- Homessa é com agá e com dois esses e no ah que você usou o agá vem depois da vogal. Se o agá vem antes da vogal é do verbo haver.
- E o que eu tenho haver com isso?
- Haver, não, a ver...
- Como a ver? O senhor mesmo não disse que se é verbo é com agá? E ver não é verbo? - Ver é um verbo, mas a ver não...
- Esquessa, professor, isso está ficando muito complicado.
Daqui por diante eu não uso mais nem eça nem essa, só vou usar esta.
- Mas esta e essa não são sinônimos perfeitos. E esqueça não é com dois esses. - Como não, se a expressão é afirmativa?
- Está bem, use o esta, se preferir. Há tanta gente que não percebe a diferença entre esta e essa que eventual má utilização quase não será notada.
- Notada ou anotada?
- Notada, percebida, constatada. Notou a diferença?
- Ah... notei. - Graças a Deus!
- Professor, eu gostaria que o senhor me desce uns exercícios para mim fazer...
-... para eu fazer. -
O senhor não precisa,  já é professor.
- Então, escreva quinhentas vezes: "Para eu fazer a redação, foi a ordem do professor. Para mim, fazer a redação não foi fácil."
- Cê está mangando de novo comigo? Me diz que "para mim fazer"está errado e me manda escrever "para mim fazer a redação." Homessa! (Esta eu já aprendi.)
- Repare na vírgula, ela, no caso, faz toda a diferença.
- Ah, professor, vamos deixar as vírgulas para depois, porque elas me odeiam. Ou sobram, ou faltam e nunca estão onde deveriam estar.
- Está bem, está bem, mas uma coisinha só, por ora: geralmente não se usa vírgula antes de "ou".
- Anotado.
- Uma outra coisa que já me ia escapando: o "desce" que você escreveu para me pedir um exercício é do verbo descer. O certo, naquele caso, é desse, do verbo dar.
- Desse!? Se o verbo é dar, o normal não seria "dasse".
- Não, porque o verbo é irregular.
- Este mundo é injusto mesmo. Rico pode cometer qualquer irregularidade sem sofrer coisa alguma. Para eles, até verbo irregular é certo! Já se o pobre faz qualquer coisinha irregular, todo mundo desce o pau nele.
- Você já está melhorando. Esse seu último desce está corretíssimo.
- Eu não disse? Descer o pau na gente é correto ou melhor corretíssimo.
- É triste, mas é assim. Agora, voltando às vírgulas, nessa sua última frase, a expressão "ou melhor" deve ficar entre vírgulas.
- Mas não foi o senhor mesmo que mandou não colocar vírgula ante do"ou"?
- Eu disse geralmente. Aquele caso é uma exceção. Exceção ou excessão? - Exceção, excessão não existe.
- Como não existe? Que nome o senhor dá a um excesso muito grande? Como nesse caso das vírgulas, que geralmente não se pode usar antesde "ou", mas quando pode são logo duas, de cambulhada. É um excesso, ou melhor, um excessão.
- Você quer aprender a língua mater ou quer criar uma língua nova?
- Desculpe, professor, mas há horas em que eu não consigo aceitarcomo regras coisas verdadeiramente esdrúxulas.
- Parabéns! Uma frase inteira sem um erro. O há está certo, horas também e até um vocábulo não muito comum - esdrúxulas - foi adequadamente usado e sem falha ortográfica (o que é raro).
- Obrigado. Mas o senhor não concorda que há regras meio esquisitas?
- Esquisitas!?
- É, o gênero das palavras, por exemplo. Por que banco é masculino e cadeira é feminina? Tem lógica isso?
- Não é questão de lógica, é questão de uso. As regras não são inventadas pelos gramáticos, elas surgem naturalmente, com o tempo. Os gramáticos apenas as codificam para facilitar o aprendizado.
- Facilitar?!!! Cê está mangando novamente. Veja, por exemplo, (mais uma vez) o caso da grama planta e da grama peso.
- Grama peso não é a grama é o grama.
- Viu? Só para complicar. Está na cara que a grama, mesmo apeso, é feminina. Uma verdadeira Roberta Close da língua. Os gramáticos é que a vestiram de menino, desde a infância e insistem em querer que as pessoas acreditem que ela é macho. Uma violência, um abuso de autoridade. O senhor já viu alguém pedir quinhentos gramas de carne de cabra no açougue? Se pedir assim, na certa vai levar carne de bode...
- Dai-me paciência, meu Deus!
- Não se desespere, professor, eu vou melhorar. Estou me esforçando. Até já comprei um computador para registrar as regras. Daqui para a frente eu computo tudo e...
-... computar é verbo defectivo, não possui a primeira pessoa do singular do presente do indicativo.
- Como? Que regra safada é essa? O senhor disse que as regras se formam naturalmente, com o tempo, e computar é uma palavra ainda na primeira infância. Não houve tempo para regra nenhuma se formar naturalmente. Por analogia também não pode ser, pois não são defectivos os verbos compactar, compactuar, compadecer, compaginar, comparar, comparecer, compassar, compatibilizar, compelir, compenetrar, compensar, competir, compilar, completar, complicar, compor, comportar, comprar, compreender, comprimir, comprometer, comprovar, compulsar. É invencionice dos gramáticos, pura esimples.
- Nada disso, a questão não é de analogia, é de eufonia. Aquele tempo do verbo computar é desagradável ao ouvido.
- Muito delicadas essas suas aurículas. Por que, então, não são desagradáveis os verbos disputar, reputar, imputar? Para não falar no deputar, uma prerrogativa democrática obtenível apenas pelo voto.
- Eu estou quase desistindo. Você não quer aprender coisa nenhuma. Você já é muito sabido e só quer se divertir. Um verdadeiro Lúdico Ladino. Por que você não entra para a política. Você iria longe...
- Não mude de assunto, professor, fiquemos na gramática. Há muitas dúvidas que eu preciso dirimir para iniciar o romance que já tenho engendrado em minha cachola.
- Você pretende ser romancista? O gênero parece simples, mas é muito complexo, a partir do título.
- Nada disso, professor, isso é até o mais simples. Meu romance de estréia terá por título Marimbondos de fogo...
-... isso é plágio. Já existe romance famoso com esse título.
- O senhor não me deixou terminar. Os meus marimbondos são de fogo-fátuo. Sobre estes ninguém ainda escreveu. É um romance esotérico.
- Ah, então você está feito. Marimbondos e esoterismos são passaportes garantidos para a Academia de Letras. Mas voltemos à gramática. Que dúvidas você ainda deseja que eu o ajude a dirimir?
- A nível de...
-... pelo amor de Deus, não use esse modismo. Ele é execrável. "A nível de" mau gosto, ele só é comparável a seu coirmão "enquanto isso", "enquanto aquilo".
- Mas, professor, essas expressões eu as aprendi na mídia...
- Eu sei, eu sei, esse é um dos tormentos dos que amam a nossa língua mater. Muitos (aliás, muitíssimos) midiáticos não a respeitam e a desfiguram irresponsavelmente. Talvez por isso é que é cada vez mais difícilas pessoas aqui se entenderem.
- Se é assim, professor, eu desisto. Vou passar a falar inglês. É uma língua muito mais simples. Você encontra um conhecido na rua e pergunta:
- Como você faz? (How do you do?)
Ele responde, risonho:
- Multa, obrigado. (Fine, thanks) E todo mundo se entende...

 

Lycio de Faria é carioca, nascido no morro (de Santa Teresa) em 1927. Aposentou-se como administrador do serviço público. Depois de aposentado passou a escrever, por diletantismo, por puro amor às letras. Tem cinco livros publicados: O DESTINO e outras histórias (Litteris - Edição privada, não posta a venda);  O FIM DO MUNDO e outras histórias (Papel & Virtual); JOVEM TURISTA VÊ O RIO DE JANEIRO (Booklink); O ELOGIO DA MENTIRA e outras histórias (www.dominiopublico.gov.br ); e MÍDIA, A MODERNA ESFINGE (www.dominiopublico.gov.br ).