A ARTE DE COMER UM QUADRO DE POLLOCK

Luís Giffoni

Trecho do romance Infinito em Pó, lançado em dezembro pela Editora Pulsar.


Galáxia vizinha à Via Láctea - reprodução

 

Shiva experimentou a fome de cores durante o quarto ano de viagem. Quando a Unity se afastou do plano da eclíptica, ele viu o Sistema Solar de cima – ou de baixo, de acordo com a convenção dos mapas estelares da época. Ao encarar a Terra em quarto crescente, meia lua solta na imensidão, num susto deu-se conta da aventura em curso e teve certeza de que não retornaria. Jamais ouviria em Tiksê as gigantescas trombetas que reverberavam no Himalaia, jamais tocaria as corredeiras de jade do Indus, jamais encontraria Sarasvati, jamais sentiria o jasmim nas noites de verão em Leh, jamais comeria o dahl que sua mãe preparava no Ano Novo, jamais presenciaria o Festival das Luzes... Arrepiado de espanto e medo, notou que os planetas e o Sol revolviam contra um maremoto de estrelas. Pior ainda, percebeu a insignificância da nave frente ao vácuo: ele e os companheiros eram grãos de poeira, micróbios arrogantes que desafiavam o infinito.

Enquanto duas lágrimas se engastavam nos cílios, sobreveio-lhe a solidão, a suprema solidão, o pesadelo de gritar a mais pavorosa das dores e nunca merecer qualquer resposta. Se todos berrassem juntos, ninguém os escutaria. Se suplicassem ajuda, nunca a receberiam. Se morressem, vagariam sem destino por milhares, talvez milhões de anos. Como escreveu o poeta Wang Teng Chu no épico Calixtíadas, no início do século vinte e dois, "quando se chora, se urra, se implora e o horror não devolve o eco, eis que o infinito nos atravessa sobre o dorso das Fúrias". O vazio cercava-os, ameaçava-os, conduzia-os, pulverizava-os. Para onde quer que olhassem, pesava a vastidão, oprimia-os o silêncio, lancetavam-nos os raios cósmicos, pairava a incerteza. Contavam apenas com a fragilidade para sustentá-los: fragilidade da vida, da tecnologia, dos estoques, dos materiais, da ciência, do sonho – a fragilidade ou, melhor dizendo, a falta? A Unity era começo, meio e fim. O ufanismo pela exploração desapareceu face à enormidade do nada. Shiva aplacou a primeira fome com um prato de amarelo e dourado absorvidos de uma holografia.

Quando a Terra sumiu do campo visual, a carência por cores recrudesceu até ameaçá-lo a cada dez, quinze dias. Combatia-a através da racionalização: a solução era avançar, a espécie merecia o sacrifício, agarrava-se ao projeto de infância, recordava-se de seu indicador apontado para a Via Láctea, voando mais rápido que a luz entre Sírio e Aldebarã enquanto se imaginava, com a força de Órion, ao comando de uma astronave impulsionada por um buraco negro.

Dizia para si mesmo: "Ainda vou lá". Ainda vou lá! Estava indo. Numa profunda inspiração, despachava o incômodo, acalmava-se por momentos. Sim, o espaço significava um lugar como outro qualquer, um pouco mais inóspito talvez. Para ser conquistado exigia ser aceito sem reservas, de igual para igual. A humanidade só havia lucrado com as migrações, a diversidade de raças surgira da adaptação a novos ambientes, os colonizadores de Marte e Titã comprovavam que, uma vez mais, a evolução seguia o curso. Após a exploração dos planetas, a galáxia constituía o passo natural à frente.

Precisava manter o orgulho de liderar a missão. Que durasse doze, vinte ou cem mil anos, o prazo pouco importava. A aventura, sim, faria a diferença. Nessa luta, ele significava mero degrau para os verdadeiros beneficiários. Sua contribuição e a de cada tripulante estariam presentes nas gerações futuras, levadas pelos genes, pela dedicação e pela cultura. Quantos nasceriam em planetas distantes, com ecossistemas nem de longe parecidos com os terrestres, embora capazes de abrigar a vida? Quantos teriam os vinte e três pares de cromossomos, porém aparência diversa, talvez crânios mais ovalados, braços mais compridos, postura curvada pela gravidade? Quantos cantariam músicas, contariam histórias e falariam de praias, florestas, montanhas e cores sem saber – ou se importar – sua origem, tampouco desejariam visitar a Terra dos antepassados? Tudo porque, milênios atrás, grupos destemidos de habitantes das cavernas começaram a escarafunchar os continentes, sem cogitar que os descendentes se arriscariam fora do planeta.

Além do mais, na Terra ou a caminho Alpha Centauri, a vida reduzia-se à velha rotina: crescer, trabalhar, reproduzir e morrer. Ninguém escapa do ciclo – jamais escapará. Os membros da Unity, contudo, eram cobaias do vazio e da insensatez. Cobaias, bando de loucos, suicidas, inconseqüentes! Não, ele não podia continuar iludindo-se. Doze milênios de viagem sem um desastre, sem uma trombada, sem falhas nos motores, sem perda de água ou oxigênio, sem desnutrição, sem epidemia, sem rebelião? Nunca! Quinze anos de engodo bastavam. Todos mentiam, todos cortejavam falácias, todos tremiam de medo. Ele conduzia a manada para o salto no vazio. Seria lembrado como o líder do extermínio, o maluco que prometia o paraíso enquanto servia o copo de veneno. Pôs-se a correr.

Entrou na cabine, arrancou a roupa e, do centro do cômodo, a voz aos solavancos, dirigiu-se à esfera de cristal no centro da escrivaninha, sobre a qual um led verde piscava:

– Carregar as pinturas de Jackson Pollock... Exibir Pólos Azuis: Número 11, 1952... Dimensão original. Rápido, Madeleine!

Uma névoa formou-se à frente de Shiva, diáfana a princípio, depois monolítica em sua densidade etérea, um sanduíche de camadas de tinta à primeira vista lançadas a esmo sobre um painel de ar. Em segundos, a obra de Pollock materializou-se: uma tela com mais de dois metros de altura e quase cinco de extensão resgatada na riqueza original dos detalhes, dos pingos roxos aos escorridos brancos, dos borrões amarelos aos traços verticais em preto. Em meio à aparente desordem, o mesmo princípio de criação se repetia, quer se considerasse o quadro como um todo, quer se limitasse a um canto: fractais de tinta.

Shiva tentou remover os rastros vermelhos do centro, porém eles entraram-lhe pelas mãos, atravessaram a pele e saíram intactos do outro lado. Invadiu a holografia, cruzou-a e, do reverso, após observá-la coçando o queixo com impaciência, ordenou:

– Ligar as extremidades de Pólos Azuis, fazer rotação ao meu redor em nível três. Liberar intervenções. Gravar.

A imagem dobrou sobre si mesma até fechar-se num cilindro, começou a rodopiar. Nas faces interna e externa, as cores se fundiram em linhas, faixas, ziguezagues e ondulações, esmaecidas por uma sombra cinza de alto a baixo. Shiva pegou na escrivaninha a caneta-de-luz e, ao acaso, espalhou riscos turquesas sobre a composição, seguidos de verdes, vermelhos e amarelos. Caminhou, ora no mesmo sentido, ora ao contrário do movimento da pintura, conduzido pela Dança das Horas, uma música com gosto de passado, textura de neve e cheiro de jasmim. Notas agudas flutuaram sobre o caos da tela, pequenas ilhas de ordem. O vermelho era salgado; o amarelo, doce; o verde, ácido. Espirais queimavam, pontos faziam cócegas. A confusão cinética tendeu para o branco, ele contra-atacou com azuis e verdes, o amarelo ressurgiu, triunfante, para se transmutar em laranja e, por fim, em dourado. Dourado... Cinco mil e novecentos angstroms, o comprimento de onda que embeleza o pôr do sol. O número levou-o a um fim de tarde na planície do Serengeti, após um orgasmo de descarregar o corpo inteiro, com uma colega de universidade. Ah, chamava-se Artemis... Caçara-o e fora caçada. No empate nascera o prazer maior, fonte da saudade. No momento do clímax, ele acreditara que dominaria as cores da vida, do vermelho ao violeta, parceiras nanicas cujo tamanho cabia milhares de vezes dentro da migalha de um centímetro. No entanto, elas faziam o mundo. Ártemis era obsessiva com cinco mil e novecentos angstroms. Só usava dourado, no tom exato. Me dá vida, dizia.

– Madeleine, parar a rotação. Desligar as extremidades. Reassumir forma retangular.

Shiva perdeu o ricto tenso, soltou os ombros, sorriu enfunado pelo êxtase e, olhos semicerrados, pôs-se a comer nacos da holografia. Mordiscou-a ao longo do perímetro inferior, mastigou com a boca cheia, engoliu a massa etérea em tragos de vinho raro, aspirou o buquê, deliciou-se com o volume que lhe abrandava o estômago mental e restabelecia o fluxo de idéias. Insatisfeito, atacou a pintura com ferocidade. Retalhou-a, deglutiu-a às pressas, empanturrou-se. A sanha cresceu até lhe faltar ar. Conteve-se, experimentou a plenitude. Para estímulos diferentes, idênticos resultados. A felicidade transportou-o à manhã em que fora nomeado comandante da Unity, aos vinte e três anos, uma surpresa sobretudo para os concorrentes que o consideravam azarão. Sim, era um vencedor.

Num golpe de graça, borrifou faixas carmesins no alto e na base do quadro, cobriu de ocre os vazios devorados, assinou em violeta na diagonal: Ramafecit. Ficou arrepiado entre a nuca e a ponta da orelha direita. Lambeu os lábios, fruiu o gosto de churrasco que a letra "a" lhe trazia, inspirou o odor das tintas vivas.

Ocorreu-lhe um momento soterrado pelo peso do tempo qual um sol subitamente comprimido em pulsar. Estava na província da América do Sul três dias antes da decolagem, numa praia próxima ao monte Pascoal, sozinho, no auge da raiva contra sua mulher pela desistência do embarque. Em Corumbau pagava-se caro para voltar ao início do século vinte: os hotéis não passavam de choupanas, as ruas mantinham-se em terra batida, a orla contava apenas com a luz da Lua. O lugar gozava a fama de melhor do mundo para se observar Alpha Centauri: a estrela nascia do mar como se morasse na ponta dos recifes e deixava seu pálido rastro sobre as marolas. Shiva, entretanto, buscava outro objetivo, descobrir se a viagem teria êxito. A consulta lhe soava estapafúrdia, mas ele carecia com urgência de um sinal que o tranqüilizasse, um mínimo augúrio, de preferência vindo do céu. Um fugaz meteoro seria alvissareiro, dois mereceriam comemoração. A noite, tão límpida quanto no Serengeti ou no Himalaia, pareceu-lhe eliminar a distância de anos-luz. Esticou o braço, colocou Alpha Centauri sobre as palmas das mãos, uma corrente gélida invadiu sua coluna, a nuca se eriçou, as costas se engrouvinharam, arriscou: chegariam ali?

Procurou nos arredores o sinal passível de interpretação, aguardou alguns instantes, nada aconteceu. Insistiu, vasculhou as constelações, seguiu a Via Láctea. Concedeu à sorte uma extensão de prazo. Frustrado, caminhou pela areia recém-lambida pelo mar, pisando no quarto crescente que o acompanhava: o reflexo lembrou-lhe as ondulações dos osciloscópios que modulam a voz humana. Talvez um dos ziguezagues prateados lhe dissesse, sim, a Unity alcançará intacta seu destino – ou, ao contrário, sucumbirá à gravidade do Sol e cairá na fornalha nuclear. Parou para examinar uma poça, o oráculo se foi: a Lua, desfocada, trêmula de vento, ocupou o espelho d’água.

Sorriu, pensou na fantasia. Ela contaminava a vida, criava mundos, desfazia outros. Punha tanta coisa para circular na cabeça, muitas desprovidas de nexo, contudo momentâneas e incontestáveis verdades para o espírito. Na opinião de seu avô centenário, o delírio a substituíra com a pretensa viagem fora do Sistema Solar. Para o ancião, o projeto cheirava a blefe, mero espetáculo pirotécnico disfarçado de comemoração do primeiro século de instalação do Governo Central, aliado aos setecentos anos da descoberta da América. Ranhetice de velho... Em contraponto, para o filho de Sarasvati quem sabe haveria uma maneira de alcançar as estrelas no decorrer de uma vida? Fantasias... Onde suas fronteiras? Onde sua sanidade? Naquele momento, graças à falta, sempre a falta, Shiva penava a dúvida.

Voltou-se para a consciência, soma e diferença de todas as dúvidas: o que ligava dentro do cérebro os estímulos dos sentidos, oriundos das diversas partes do corpo, porém os conduzia à impressão de que se processavam no mesmo lugar, resultando na montagem de um ser único, coeso, delimitado, uma pessoa enfim? Ou, generalizando, o que fazia todos esses seres únicos fundirem seus variados temperamentos e percepções para construir uma realidade coletiva, aceita como o senso comum? Alpha Centauri nascia de fato sobre o mar, estava mesmo a quatro anos-luz de distância ou era uma miragem forjada por delírios que, geração após geração, copulavam entre si? A fantasia contaminava os aparelhos a ponto de induzir dez bilhões de pessoas à crença de que três ou quatro estrelas ao longe orbitavam em torno de um centro comum de gravidade? Por que centenas de anos de pesquisa ainda não haviam solucionado indagações tão básicas? Entender a própria consciência estaria fora da capacidade humana, porque é impossível a um sistema fechado compreender a si mesmo? O conhecimento desenvolvera leis restritas, de lógica local, exclusiva para o Homo sapiens? Haveria outras equações que, antíteses das nossas, explicariam melhor o Universo? A ciência era um vôo com asas de cera sob sol escaldante?

Não, não era bem assim, a tensão da partida exagerava o tamanho do problema. Muita resposta havia sido encontrada, por exemplo a principal: Alpha Centauri estava lá, numa ascensão reta de quase quinze horas e declinação negativa de sessenta e um graus, bem medida e explorada através de observatórios em terra e no espaço. Porque, com cem por cento de certeza, estava lá, ele e os companheiros ultimavam os preparativos para a decolagem.

Enquanto outra pequena onda lavava a Lua a seus pés, uma voz dentro da cabeça lhe soprou: "a missão será um sucesso". Voz vaga, próxima do desejo e do instinto, do eu que rompe com a razão e mata o monstro da dúvida. A fome das seis da tarde talvez procurasse revigorar esse bafejo otimista.

Shiva fugiu das lembranças, esvaziou os pulmões, prendeu o ar. Contemplou a obra originada em Pólos Azuis, afastou-se para apreciá-la em toda a extensão. Era desconexa, bela, boa de ver, tocar, degustar, sobretudo de ser. As cores invadiram-lhe os olhos, cruzaram a retina e repousaram no fundo da cabeça. O relaxamento desceu pela coluna e irradiou-se para o tronco. Seguiram-se calafrios. Estava salvo. A fusão Pollock-Ramanujan uma vez mais incutira-lhe esperança: sim, tudo correria bem.

– Madeleine, numerar e arquivar imagens da criação e do resultado final. Nome do arquivo: Ladakh com Pólos número 171. Autor: Shiva Ramanujan. Acesso permitido apenas com minha senha atualizada. Fechar.

A holografia desapareceu com a rapidez de lâmpada que se apaga. Uma neblina esverdeada pairou no ar por momentos e se consumiu num estalido. A música parou.

Shiva arriou o corpo, fruiu na pele o frescor do piso e do ar condicionado, retomou a respiração normal, assumiu a posição de lótus. Com tão pouco, meros oito minutos de balé cromático, recuperara a autoestima, a integridade e a segurança. Em oito minutos de prazer reconquistara o domínio da mente e, de maneira indireta, da nave. Não, não estava doente, apenas sentia saudade das cores. Por que não? Um bom vinho não se saboreia de novo? Uma bela paisagem não merece revisitas? Quantos, ano após ano, não vinham ao Museu Central, em Washington, admirar a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, A Ronda Noturna, de Rembrandt ou As Meninas, de Velázquez? Todos buscavam cores. Cores... Por que o fascinavam tanto? O que as tornava amigas, nutritivas, tranqüilizadoras?

A interpretação do quadro de Pollock poderia, no entanto, trazer-lhe perigo. A espionagem de arquivos particulares era um passatempo proibido, embora amplamente praticado a bordo – e quase indetectável, graças à habilidade dos invasores. Quanto mais se sofisticavam os bloqueios, mais atraente se tornava o desafio de rompê-los. Os adolescentes, na surdina, competiam para desvendar os códigos de acesso uns dos outros e expunham o melhor da intimidade alheia em comunicados apócrifos. Os adultos mantinham reserva das descobertas, receosos de punição, mas se aproveitavam delas nas rixas e nas entrelinhas das conversas.

Shiva havia vasculhado muita gente em nome da manutenção da ordem, prerrogativa outorgada pelo posto de comandante. Conhecia detalhes de amores, ódios, amizades, planos, ânimos e, acima de tudo, opiniões a seu respeito, escritas na suposição de segredo e de inviolabilidade do regulamento. Apesar da troca diária de senha – baseada em números, letras, voz, detalhes da íris e símbolos aleatórios –, se alguém acessasse suas intervenções sobre Pólos Azuis talvez as entendesse de maneira equivocada. Em lugar de manifestação artística ou atividade para liberar tensões resultantes do acúmulo de responsabilidades, o intruso poderia considerá-las fruto de um homem em processo de desagregação. A maneira como se desnudava para pintar – arriscando-se ao bombardeio dos raios cósmicos –, a volúpia da inspiração, o fluxo do eterno ao qual se rendia, a união do sentir e do compor, o mergulho da mente no substrato da arte, a estética da composição, a dança durante a captura do espírito das cores, a fruição da tela acabada, essas idiossincrasias de criador a um incauto poderiam sugerir maluquice. Sem falar na escolha de Pollock, um suicida, como objeto de estudo. O comandante precisa ser, e sobretudo parecer, são.

A angústia reapareceu ao pensar em Lahore. Bisbilhoteiro profissional desde antes da construção da Unity, o chefe da Segurança provavelmente havia desenvolvido maneiras para acessar qualquer arquivo. Além disso, possuía sagacidade para transformar uma inocente pintura em grave distúrbio psíquico. Com sutil persuasão, traria o suspeito até o Conselho de Bordo e provavelmente o condenaria à hibernação. Se pressionasse os membros mais suscetíveis com alusões aos próprios deslizes ou lhes prometesse favores, arrancaria pena de seis ou nove anos, isto é, o dobro ou o triplo da usual. Para manter-se a par dos fatos, desde um namorico até a autoria dos cartazes contra o Governo Central, utilizava todo o tipo de equipamento, do estetoscópio à nanocâmera. Anotações pessoais arquivadas constituíam sua principal fonte de informação.

Shiva viu-se em perigo. Encarou a esfera de cristal. A luz verde permanecia piscando. A freqüência e a intensidade dos clarões aumentaram.

– Deletar todas as imagens de produção da série Ladakh com Pólos. Manter apenas as obras finalizadas, na dimensão original.

– Deletar toda a sua criação, Shiv? – a voz feminina misturou a sensualidade ao espanto.

– Toda.

– Já lhe disse, Shiv, que, enquanto pinta, você demonstra um talento inato para o balé?

– Não interessa agora, Madeleine.

– Então vou repetir: algumas de suas atuações têm real valor estético, Shiv, lembram um ritual dionisíaco em que as cores funcionam como bacantes. Se depuradas, formariam uma bela coreografia, dignas dos melhores palcos. Se um dia eu tiver que abandonar a Unity, levarei comigo umas duas ou três.

– Deletar tudo, por favor.

– Poderíamos apresentá-las na festa de Natal. Você com certeza ganharia aplausos entusiasmados. En-tu-si-as-ma-dos. Pense bem: Pollock, um gênio, recriado por outro, o comandante! Todos vão adorar. Talento é coisa rara neste canto do Universo, você sabe melhor do que ninguém.

– Deletar tudo.

– Mantenha, pelo menos, a performance catalogada sob número 104. Balé maravilhoso, Shiv... De mim para mim, eu o chamei de Reincarnação de Nijinski. Belo, belíssimo.

– O que está acontecendo, dona Madeleine? Já mandei deletar, não estou falando por falar.

– A atuação de hoje também ficou muito boa. Inspirada. Aliás, Shiv – a voz fez uma pausa –, apesar de entender como uma manifestação de carinho, não gosto de que você me chame de dona Madeleine. Fica joco...

– Deleta logo, dona Madeleine, não discuta mais!

– Também não precisa falar tão bruto assim, Shiv! Você já reparou como anda me tratando ultimamente? Fico ofendida. Não desconte seus problemas em mim. Nada tenho com eles. Só quero ajudar.

– Será que dá para me atender, Madê, ou vou ter que reprogramá-la para dar menos palpite?

– Como sua mais fiel amiga – por sinal sua única amiga neste ninho de víboras, se me permite a sinceridade –, quero apenas alertá-lo sobre um possível equívoco.

– Meu equívoco foi lhe dar muita autonomia.

– Ora, ora, veja só quanta ingratidão do todo-poderoso! Minha autonomia já o salvou de muitos problemas. Como agora, pela enésima vez, estou tentando fazer. Sem contar que já lhe dei informações interessantes, como a libidinagem de seu filho no observatório de treinamento. Tive um trabalhão para filmá-lo, já que o safadinho desligou tudo. Mas consegui, e você gostou muito do que viu. Essa é minha função, da qual muito me orgulho.

– Chega, Madê!

– Ai, que susto! Não se altere, por favor. Emoções fortes viciam e levam a nada. Você se irrita por conta de miudeza, sem motivo. Por acaso está, de novo, com medo de Lahore? Pois saiba que não me desgrudo dele. Está tão ocupado com seus cálculos sobre universos multidimensionais e tradução de genes para bites que nunca iria...

– Chega!

– Só estou querendo acalmá-lo, Shiv, tento trazê-lo à razão. Antes que você se arrependa, como anteriormente. Você sabe o trabalhão que tive para recuperar as imagens do seu balé na semana passada. Sem falar que perdemos um pouco da qualidade original. Ah, como foi lamentável, Shiv! Me dá vontade de manter um arquivo temporário, para a eventualidade de arre...

– Deleta tudo, porra!

– Ai, que linguajar indigno para o comandante da primeira missão interestelar! A temperança é a qualidade maior dos verdadeiros líderes, já lhe contei?

– Deleta tudo, porra, agora, já, sem mais discussões!

– Então vou providenciar, lorde Shiva. Vou providenciar, a contragosto, a destruição dos arquivos – e a voz tornou-se metálica: – Confirma autorização para deletar todas as imagens de criação da série Pólos, sem direito a arrependimentos posteriores, meu senhor absolutista, deus deste canto do Universo, lorde Shiva Ramanujan, primeiro e único?

O comandante manteve-se mudo, encarando Madeleine.

– Solicitação executada. Mas continuo achando que foi um erro. Você ainda vai se arrepender, aposto o que quiser. Eu o conheço, eu o conheço muito bem, meu caro. Você devia seguir meus conselhos.

Shiva preparou um murro, hesitou para aplicá-lo. Investiu a mão três vezes na direção da esfera, recuou no derradeiro instante. Na quarta ameaça, roçou a superfície do led, a luz verde piscou descontrolada e desligou-se num estalido.

Luís Giffone nasceu em Baependi, Minas Gerais. Mora em Belo Horizonte. Tem vários livros publicados, entre eles A JAULA INQUIETA, O OVO DE ÁDAX, TINTA DE SANGUE e ADÁGIO PARA O SILÊNCIO. Recebeu diversos prêmios, APCA, Bienal Nestlê e o Nacional de Romance e de Contos de Belo Horizonte. Infinito em pó é seu último romance.
giffonis@zaz.com.br

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