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A COLEÇÃO

Luís Giffoni

   Compro muitas esferográficas. Mesma marca, mesmo modelo, mesma cor azul. Adquiro, em geral, uma dúzia por dia; uma grosa, quando fico mais tenso. Receio que sumam do mercado. Já ameaçaram, três décadas atrás, uma quase tragédia para mim, que vivo de escrever. Nunca
me adaptei a outro tipo de caneta.
   Tentei, é verdade, mas não deu certo. A inspiração sumiu, não produzi uma linha. Daí meu apego a elas.Devo-lhes o ofício.
   Esferográficas são depósitos de histórias. Dentro das cargas há contos, romances e novelas, uns grudados nos outros, prontinhos. A profusão escurece a tinta.
   Cargas e obras se confundem. Eu apenas removo as histórias para o papel. A tarefa demanda um pouco de paciência, é claro. Lembra um quebra-cabeça onde peças de jogos diferentes se misturaram, com um detalhe adicional: ignoro as imagens que devo montar.
   A coleção cresceu. Não tenho mais espaço para guardá-la. Já não posso comer, lotou a cozinha. Tampouco dormir, ocupou o quarto. A sala se reduziu ao túnel pelo qual engatinho, espremido entre milhares de caixas.
   Não me vanglorio do maior estoque de ficção do mundo. Pelo contrário, morro de medo. A carga é terrível. Compro cada vez mais.

 

Luís Giffone nasceu em Baependi, Minas Gerais. Mora em Belo Horizonte. Tem vários livros publicados, entre eles A JAULA INQUIETA, O OVO DE ÁDAX, TINTA DE SANGUE e ADÁGIO PARA O SILÊNCIO. Recebeu diversos prêmios, APCA, Bienal Nestlê e o Nacional de Romance e de Contos de Belo Horizonte.
giffonis@zaz.com.br

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