crônica
CHILE
reproduçãoA RODADA DE
PUYEHUÉ

Luís Giffoni

Na época, os generais mandavam e desmandavam na América do Sul e, de vez em quando, ensaiavam uma rusga com a vizinhança para desviar a atenção dos problemas domésticos. Tática tão velha quanto o mundo. Coisa de quem não queria ou não sabia pôr a casa em ordem. 

Um desses generais, bastante espertinho por sinal, descobriu que a rivalidade entre o Brasil e a Argentina ultrapassava as rixas do futebol e pôs em prática uma política pendular. De manhã, jogava no time do Planalto; à tarde, no da Casa Rosada. Ganhou de ambos. Paraguai 2x0.

Quando se cansavam de perseguir os compatriotas, os ditadores de plantão, vociferando contra os países limítrofes, colocavam exércitos de prontidão, convocavam recrutas, apelavam para patriotadas, brandiam ameaças. A disputa pelo canal de Beagle foi um desses episódios. Quase mergulhou a Argentina e o Chile na guerra. Acalmados os ânimos, ficou a animosidade, alimentada por reivindicações oriundas de documentos centenários, profecias de loucos, alertas de santos, temor de perda de território. Enquanto se criavam cidades e guarnições nas divisas e se faziam ridículos discursos, os ventos de ambos os lados dos Andes sopravam para manter a fogueira acesa. Em nome de hipotético orgulho nacional ferido, muita gente torcia para que o primeiro disparo acontecesse: os fuzis viviam com a bala na agulha.

Foi nesse clima que conheci o sul do Chile. O sul, não, o centro. Tampouco o centro, mas o norte. Aliás, sul, centro e norte ao mesmo tempo, dependendo de como se encara o mapa do país. Confuso?

Explico melhor. O Chile, uma tripa de terra com milhares de quilômetros de comprimento, considera o Pólo Sul seu limite austral, pois reivindica uma extensa faixa da Antártida. Assim, sua última cidade continental, Punta Arenas, localizada no Estreito de Magalhães, de frente para a Terra do Fogo, encontra-se no centro geográfico chileno. Isso mesmo. Graças à incorporação da Antártida, o derradeiro ponto da América do Sul fica bem no meio do Chile, isto é, a meio caminho entre o deserto de Atacama e o Pólo Sul. Puseram por lá até um pequeno marco comemorativo.

Dizem que a virtude está no meio. Nem sempre. Punta Arenas é um gelo, mesmo no verão. Dali para baixo, só há ilha, o mar da Antártida, iceberg e pingüim. Aliás, nem pingüim. No outono, algumas espécies fogem para as costas do Brasil. Não querem virar picolé.

Osorno, a região que resolvi conhecer, a mais de mil quilômetros acima de Punta Arenas, fica no sul do país, mas, segundo a convenção geográfica chilena, se situa no norte, ou melhor, quase no centro. Afinal: sul, centro ou norte? Os chilenos sabem confundir a cabeça da gente. Deixa pra lá.

O sul do Chile – qual visto nos mapas não chilenos – é um pot-pourri da geografia. Tem de tudo: planície, montanha, campo de gelo, lago, vulcão, mar, fiorde, ilha, golfo, península, canal, floresta, campina, deserto... Sem falar no Cruzeiro do Sul, que lá nunca se põe, rodopiante no zênite. No inverno, parece a cruz de são Pedro, de cabeça para baixo. O céu, por si só, paga a viagem. Transparente como no primeiro dia do mundo. Se a beleza das estrelas nutrisse o corpo, a gente voltaria obeso. Ainda bem que a mente, quanto mais absorve, mais leve fica.

Quando cheguei, a região estava atolada em neve. O asfalto virara uma fita negra entre campos brancos onde o gado escavava a rala comida. O vulcão Osorno, inativo desde 1835, cone perfeito, lembrava casquinha de sorvete emborcada. O cume, a três quilômetros de altura, brilhava contra o céu azul. Um círculo de gelo arrematava a cratera com precisão geométrica. Outro vulcão, o Antillanca, escondia sob o manto de neve as pedras e as cinzas das erupções mais recentes. Para os friorentos, um consolo: fontes termais brotam ao longo da cordilheira dos Andes, vindas das profundezas do planeta. Daí o nome Águas Calientes dado a um lugarejo onde se desfrutam banhos relaxantes entre um e outro pisco sour servido em copo glaçado com açúcar e limão.

O pisco sour, juram os apreciadores, é a bebida chilena por excelência. Uma heresia, segundo os defensores do vinho. “Se vino a Chile y no bebe vino, a qué vino?”, gracejam os habitantes de Santiago, entre um gole e outro do Cabernet Sauvignon oriundo do vale do Maipú, alguns deles obras-primas da criatividade humana. Ou seria o Chardonnay mais saboroso? O Merlot, talvez? O Malbec, o Carmenère? De novo os chilenos me confundem. Não, chega de confusão. Prefiro o Cabernet Sauvignon.

A bebida fomenta uma disputa adicional entre chilenos e argentinos, divertida por sinal. Estes juram que produzem os melhores vinhos, pois suas videiras recebem o sol da manhã, mais brando, ideal para o amadurecimento das uvas. O Chile, por causa dos Andes, só receberia o sol da tarde, inclemente. A gente escuta cada uma... Brincadeiras e insolações à parte, a disputa tem trazido benefícios para todos os apreciadores do vinho. Quanto a mim, gosto dos argentinos e chilenos, tintos de preferência. O melhor é o disponível.       

            Hospedei-me com a família num hotel perto de Osorno, o Termas de Puyehué, imponente construção em madeira e pedra erguida nas primeiras décadas do século 20. Possuía quinhentos apartamentos antes do incêndio que os reduziu à metade. Ao chegarmos, numa tarde de domingo, havia centenas de pessoas circulando pelas dependências, em geral esquiadores que retornavam das pistas nas encostas do vulcão Antillanca.

À noite, no jantar, a grande surpresa: os hóspedes tinham-se escafedido. Apenas meus três filhos, a mulher e eu restávamos. Só nós cinco usaríamos a enormidade das instalações. Lembramo-nos de O Iluminado, filme baseado na história de Stephen King em que Jack Nicholson encarna o pai enlouquecido pela solidão do inverno num hotel deserto. Meus filhos pediram-me, caso a vida imitasse a arte, que eu os poupasse de machadadas. Respondi arremedando a carantonha do ator.

Perguntei ao Fernando, gerente das Termas, o motivo da debandada geral.

– Fim de férias, desconversou ele.

Tornei:

– Em pleno meio de julho?

Pôs a culpa no ditador:

– O Pinochet reduziu as férias deste ano.

O verdadeiro motivo descobri dias depois: boatos surgidos no domingo à tarde asseguravam que as relações com a Argentina estavam rompidas, a guerra declarada, e a invasão por um ou outro lado era iminente. Em Puyehué, zona fronteiriça, as chances de bombardeio pareciam maiores. Aliás, tropas vindas de Buenos Aires já se concentrariam em Bariloche, perto dali, prontas para o assalto que cortaria o Chile em dois. Havia mesmo possibilidade de bombas nucleares, pois a poucos quilômetros da divisa, em El Bolsón, os militares portenhos administravam reatores poderosos e projetos secretos.

A boataria assustou os hóspedes. Ninguém quis pagar para ver. Eu paguei, porque, recém-chegado, não tinha visto. Nem ouvido.

Sensação esquisita: funcionários, aos bandos, procuravam satisfazer nossas vontades. Serviam-nos apenas os pratos que sonhássemos, com exagero de quantidade. Numa ceia, colocaram na mesa um salmão assado com cinco quilos. Como meus filhos preferiram bife com batata frita, apenas minha mulher e eu saboreamos uma nesga do peixe. Camareiras refaziam as camas a cada hora. As lareiras dos corredores, gargantuescas bocas, queimavam pilhas de lenha dia e noite para aquecer fantasmas. Tudo funcionava normalmente, embora se cochichasse que a guerra eclodiria nas próximas horas – porém eu continuava ignorando o perigo.

Na piscina olímpica das termas, o salva-vidas acompanhava-nos com atenção, porque o relaxamento trazido pelas águas mornas poderia afogar-nos.  Havia trágicos precedentes. Apesar da marcação cerrada, um rapaz paulistano – que conhecemos nas pistas de Antillanca e veio nadar conosco num fim de tarde – entusiasmou-se com o trampolim e, em mergulho ousado de competidor pelo clube Pinheiros, beijou o fundo de azulejo. Resultado: largou um incisivo de lembrança para os chilenos.

Antillanca reservou-nos outro acidente. Guilherme, meu caçula, enquanto aprendia as manhas do esqui, descontrolou-se e, a toda a velocidade, abraçou uma árvore. Arranhado, tonto, não perdeu o bom humor:

– Eu avisei para a árvore sair do caminho, mas ela não saiu. Acho que não entende português.

Dias depois, ele e eu vivemos um magnífico momento de curtição entre pai e filho, momento de descoberta, de identidade entre homens. Resolvemos aguardar o pôr do sol no topo do Antillanca. Esperamos até o último raio, fruímos a bela visão dos vulcões Villarrica e Monteagu, dos picos ao redor, dos campos de neve e geleiras, do festival de cores vermelhas e rosadas. De repente, sofremos o abraço do frio. Ao descermos pelas pistas congeladas, duras, vazias, quase na escuridão, sem possibilidade de resgate imediato caso caíssemos e nos machucássemos, um contou com a solidariedade do outro. Voltamos lado a lado, cuidando-nos, irmãos, amigos. Ele se sentiu adulto, eu rejuvenesci.

Fernando, o solícito gerente do hotel de Puyehué, num início de noite perguntou-me se jogaria pôquer. Topei na hora, porém quis saber onde arrumaríamos companheiros, já que não havia hóspedes. Apontou-me um militar chileno que entrava no restaurante, um coronel bonachão trajando uniforme de campanha.

– Meu amigo Carlos é um deles, revelou.

Carlos não possuía trejeitos de soldado. Nas entrelinhas, tecia críticas a El Hombre – codinome para Pinochet. Deixou escapar: o ditador espicaçava demais os argentinos e brandia a possibilidade de uma guerra que, dessa vez, nem o papa evitaria.

– Guerra, que guerra?, assustei-me.

– Guerra contra os portenhos, ora. Não tem ouvido a boataria que corre solta desde domingo?

– Guerra mesmo, com bomba e tiro de verdade, agora, pra já?, o calafrio me subiu até a ponta dos cabelos.

– Pelo que andam dizendo, começa amanhã.

Estremeci de cima a baixo. Pensei nos filhos e na mulher. De repente, a diversão virou perigo; o paraíso, um deus-nos-acuda. Precisávamos sair dali com urgência. Entendi por que o hotel estava vazio.

Carlos bateu em meu ombro:

– Esquenta não, brasileño, se eu acreditasse em boato já teria invadido a Argentina com minhas tropas, no mínimo, cinqüenta vezes. Vamos jogar pôquer e nos divertir.

Deu uma piscadela, completou:

– Enquanto as bombas portenhas não chegam...

Fernando também procurou me tranqüilizar. Se surgisse problema de verdade, um carro do hotel nos removeria imediatamente para Santiago.          

Éramos, portanto, três os parceiros de pôquer. Indaguei quem seria o quarto. Carlos e Fernando confidenciaram, com ares quem está sendo vigiado, deram de ombros.

– Segredo, disse Carlos.

– Como assim?

– Segredo é segredo, brasileño.

Estranhei: por que cercariam de mistério o nome de um companheiro de carteado?

– Daqui a pouco você o conhecerá, garantiu Carlos. – É buena gente. Relaxa, brasileño.

A estranheza aumentou em seguida. O jogo não seria no hotel, mas numa instalação militar na fronteira entre os beligerantes, dentro do Parque Nacional de Puyehué, área neutra chilena que, pelo lado argentino, fazia divisa com o Parque Nacional Nahuel Huapi. “Por que ali?”, perguntei. Fernando evadiu-se:

– Lá a gente pode blefar à vontade.

Como a estrada era péssima, mera trilha no barro produzido pela neve, iríamos num jipe do exército que nos apanharia em duas horas.

Hesitei, mas acabei embarcando com Fernando rumo ao Parque Nacional. Magnífica a floresta de Puyehué: lengas, ñires e coigues centenários, lado a lado; arrayanes com troncos lisos e avermelhados como os da floresta do Bambi no desenho de Walt Disney; muitas árvores cobertas por musgos e líquens do chão às copas; sobre os barrancos, enormes avencas; à beira dos precipícios, samambaias com porte de jacarandá: suas munhecas, cozidas à moda mineira, alimentariam um batalhão.

Senti-me num mundo antediluviano. Só faltava o urro de um tiranossauro. Aliás, ouvi algo parecido, o horrendo canto da pandúria, ave abundante na região, semelhante à curicaca: uma cegonha supernutrida com bico  alaranjado, longo e curvo. Seu grito de pesadelo evoca eras passadas, prova indireta de que descende dos dinossauros.

A fantasia contagiou meu texto. Vejo-me forçado a dar um desconto nas descrições. Direi que a voz da pandúria cairia bem num filhote de réptil jurássico. E as munhecas de samambaia alimentariam duas pessoas – ou uma com muita fome...

O sombrio da mata remeteu-me ao cavaleiro que avistara na véspera, ao entardecer, perto de Aguas Calientes, enquanto retornava a pé de Antillanca, uma caminhada de vinte quilômetros. O homem montava um descomunal cavalo preto. Vestia calça, camisa, jaleco, luvas e capa que cobria as ancas do animal, tudo preto. Até o chapéu de Zorro era preto. O olhar fixava um ponto no infinito, duro como bridão, contundente como espora. Trotava com galhardia, tão ereto que parecia amarrado a uma estaca sobre o arreio. Cumprimentei-o com um buenas tardes, foi lacônico:

– Buenas.

A rápida abertura da boca permitiu entrever-lhe os dentes metálicos, cor prateada. Nem um pingo de esmalte. A estranha figura bem poderia passar pelo demo em corpo humano, caso eu viesse a abordar o tinhoso numa futura história. Pobre cavaleiro... Tratava-se provavelmente de um trabalhador a caminho de casa ao final do dia, e minha cabeça alucinada o associava ao nem-sei-o-quê. O escritor e sua fantasia.

Minutos depois, enquanto examinava os mergulhos verticais de rochas e os depósitos de cinzas vulcânicas expostos nos cortes da estrada, testemunhos de violento passado geológico, deparei um puma a cinqüenta metros de distância. Animal imponente, onça acinzentada pelo lusco-fusco, assustador. Farejamo-nos, exalei o pavor, estudou-me com indiferença. Petrificado, tentei despistar a bambeira nas pernas, a fraqueza que atrai o ataque. Espichei o corpo, pus a mão na cintura, só faltei ameaçá-lo: “Qualé, gatinho?”. Haviam-me alertado para a presença do felino na área, matador sagaz. Ainda devia estar digerindo a criança que comera dias antes, pois atravessou a rodovia e sumiu, sem me dar a mínima. E eu dei no pé. Com o máximo de rapidez. Ir tão longe para acabar em estômago de puma, onde se viu?

País estranho mesmo, o Chile. Depois do susto da véspera, aliciava-me agora para um jogo de pôquer no meio do nada, quer dizer, numa cabana de madeira perdida nas encostas dos Andes, fria e úmida. Nem bem nos assentamos ao redor de uma mesa feita com um tronco de pinheiro, entra Carlos. Traz várias garrafas de Old Parr e coca-cola. Diz que o uísque fora confiscado de contrabandistas de fronteira e deveria ter sido enviado para El Hombre, mas, ele não entendia como, várias caixas tinham ficado para trás, e precisávamos consumi-las antes que perdessem a validade. Rindo muito, pediu minha ajuda para esvaziar a primeira garrafa. Imbuído de nobre espírito de latinidad, acedi. Carlos apreciava a bebida misturada ao refrigerante, meio a meio, um desperdício. A pecaminosa combinação tinha nome: chipe, ou algo parecido.

Ao final da terceira dose, escuto roncos de tanque de guerra. Começo da invasão? Tyrannosaurus rex com rodas? Delírio etílico? Nada disso. Num blindado leve, chega o misterioso companheiro que faltava. Pois não é que o dito cujo era justamente o comandante das forças argentinas na região? Os dois homens que, de acordo com os jornais e a boataria, deveriam se enfrentar no dia seguinte, passavam as noites jogando pôquer e bebendo uísque. Tornaram-se amigos depois de apresentados por Fernando numa festa de aniversário. A amizade, entretanto, não podia extravasar, senão lhes comprometeria a carreira, ainda mais numa hora tensa entre Santiago e Buenos Aires. Daí tanto segredo, daí a preferência por estranhos, sobretudo estrangeiros, para completar o quarteto de blefadores.

Jogamos até a madrugada, enquanto contávamos piadas e casos de nossos três países. Levantamos os copos a cada gargalhada. Juanito, o militar argentino, morreu de rir quando soube que seus compatriotas, para suicidar-se, pulam do alto de seus egos. 

Ajudados pela mediação escocesa, descobrimos nossa latinidad, nosso caldo cultural com idênticos temperos, nossas raízes comuns, nossos mesmos tiques, nossas visões sobre a vida que, no fundo, coincidiam. O grito das pandúrias não incomodou a confraternização, muito menos a chuva que arrasaria ainda mais as trilhas. O clima jurássico do parque sumiu.

A guerra entre o Chile e a Argentina jamais aconteceu. Talvez tenha perdido um pouquinho do ímpeto quando dois dos protagonistas se uniram numa mesa de pôquer regada a uísque confiscado.

Para mim, a Rodada de Puyehué teve gosto especial: ganhei dos três.  

 

Contista e romacista, autor de diversos livros dentre eles, Adágio para o Silêncio, Tintas de Sangue, A verdade tem olhos verdes, Infinito em Pó, todos pela Editora Pulsar. O texto acima integra seu mais novo livro de crônicas, Retalhos do Mundo. giffonis@terra.com.br

 

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