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O SOL, ESPECTRO DO ABSURDO CAMUSIANO

Lourenço Leite

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Para corrigir uma indiferença natural, fui colocado a meio caminho entre a miséria e o sol. A miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol e na história; o sol ensinou-me que a história não é tudo. Mudar a vida, sim, mas não o mundo do qual eu fazia minha divindade.

(CAMUS, O Avesso e o Direito : 18).

O problema que Camus constata na realidade da África de seu tempo e de sua época, se expandiu, de tal forma, que hoje não se pode mais olhá-lo como algo restrito a um contexto cultural. Deveras, que o homem da tardia contemporaneidade moderna rejeita a cada dia. A solidão e o desamparo, próprios de uma vida que se esvaiu ao longo do tempo e a mercê da sorte, fizeram do homem atual um ser do cotidiano sem transcendência. A mesma realidade fora percebida por Camus na Argélia. Em Núpcias, sua obra fundamental sobre os eflúvios do tempo perdido, retrata magistralmente o vazio e as ruínas encontradas no deserto das almas argelinas. Desse sentimento de vazio e de perda, contudo, enlameado de Sol, Camus perpassa toda sua obra com uma noção de "absurdo", destacando, com isso, a paradoxalidade do mundo.

O Absurdo, como Quimera do mundo, engendra a real possibilidade de unificá-lo e nomeá-lo na esfera do humano. Entre o mundo e o homem, o Absurdo camusiano adquire realidade como tiers exclu da consciência, figurando-se como realidade simbólica. Com efeito, seu entendimento só poderá se dar pela intuição. Realidade e efeito remetem ao terceiro elemento e criam a novidade do mundo na consciência. Sintoma, portanto, da experiência do homem no mundo, deixando fora toda e qualquer realidade que não provenha dessa experiência.

Todavia, Camus introduz implicitamente uma distinção entre o niilismo e a negação absoluta. A verdadeira característica do absurdo, segundo ele em O Homem Revoltado,

[...] é a de ser uma passagem vivida, um ponto de partida, o equivalente, na existência, à dúvida metódica de Descartes. O absurdo é, em si, contradição. Ele o é em seu conteúdo, porque exclui os juízos de valor ao querer manter a vida, enquanto o próprio viver não passa de um juízo de valor (CAMUS, O Homem Revoltado, p. 18-19).

O absurdo camusiano, além de se mostrar em seu pensamento como contradição, ao excluir os juízos de valor, é metaforizado na vida de seus personagens mais importantes, tais como: Meursault, em O Estrangeiro; Jean-Baptista Clamence, em A Queda, Martha, em O Equívoco e Calígula, em Calígula. Todos esses são protagonistas do absurdo e da presença do Sol em suas vidas. Meursault, por sua vez, rejeitara toda forma de regra e de convenção que colocasse em risco sua liberdade. Estrangeiro por excelência, em um mundo fundamentado de moralismos, tivera, como sentença maior, sua perda de liberdade, contudo, não olvidara que sua desgraça só tivera ocorrido por causa da onipresença do Sol. Jean-Baptista Clamence, o juiz-penitente da humanidade em estado de culpa, tenta, a toda prova, purificar-se do tédio e da angústia vividos na selva do cotidiano, alardeando-se, assim que possível, de sua autonomia absoluta, como se fosse possível flanar indiferente nos cais do absurdo em que o outro se tornava presença marcante. Martha, "antiantígona" da filia, rebela-se deliberadamente contra todo tipo de mérito augusto da existência, principalmente diante de seu irmão pródigo que viera também a assassiná-lo. Demonstração da experiência existencial mais fidedigna e mais pura, Martha não se deixa enganar por nenhuma forma de contingência humana que justificasse algum tipo de privilégio. Sempre estivera atenta e fatigada com o peso da existência, mas, mesmo assim, nunca tivera a sorte de poder caminhar descalça numa praia ensolarada. Calígula, imperador da consciência humana, encontrara o Absurdo a partir do momento que experimentara a perda de seu grande amor incestuoso. César do inconformismo, Calígula não sabe se indignar, mas sabe se angustiar com a impossibilidade dos homens morrerem sem serem felizes. Em cada um desses protagonistas do Absurdo reina a ambigüidade da indiferença. Ao tempo que revelam um desejo incontrolável com a presença de outrem, rejeitam-no acintosamente como se pudessem viver isolados e imaculados de toda e qualquer culpa. Mas, o Absurdo, desde que seja identificado, não permanece incólume aos efeitos da linguagem. Como bem afirmara Camus, "a absurdidade perfeita tenta ser muda", mas o silêncio possui uma das linguagens mais ensurdecedoras quando se trata de rejeição e de indiferença perante outrem. Desse modo, Camus, em O Mito de Sísifo, considera que o homem absurdo... [...] reconhece a luta, não despreza absolutamente a razão e admite o irracional. Desse modo, ele recupera a atenção de todos os dados provindos da experiência (CAMUS, O Mito de Sísifo, p. 55).

Em vista disso, o homem absurdo não vive sob os paradigmas de razão nem de mores estabelecidos. A experiência norteia-lhe sua conduta apesar de conduzi-lo ao estágio da irracionalidade. Consoante tal caracterização, Camus utilizou seus protagonistas para evidenciar, tanto o "avesso", quanto o "direito", da existência humana no mundo. Prova disso, em seu ensaio sobre o Absurdo, O Mito de Sísifo, ele consagra atenção para o problema da moral...

A questão não é de dissertar sobre a moral. Tenho visto pessoas de agir duvidoso com muita moral e constato todos os dias que a honestidade não tem necessidade de normas. Existe somente uma moral que o homem absurdo possa admitir, aquela que não se separa de Deus: ou seja, aquela que se dita. Mas ele vive justamente fora deste Deus. Quanto às outras morais (inclua-se também o imoralismo), o homem absurdo não as vê senão como justificativas e, no entanto, ele não tem nada a justificar. Parto, portanto, do princípio de sua inocência (CAMUS, O Mito de Sísifo, p. 86).

A moralidade camusiana, portanto, como se viu, não se atêm às normas de conduta estabelecidas nem aditadas pela razão. Ela impõe-se no homem absurdo a partir do espontâneo. Haja vista, a atitude de Meursault, quando do assassinato e quando estivera na prisão. A de Jean-Baptista Clamence, quando flanara pelos cais do Sena; a de Martha, quando matara seus hóspedes e a de Calígula, quando assassinara Caesonia. A bem da verdade, esses protagonistas do Absurdo são imoralistas. Suas condutas não podem ser julgadas pelo crivo de nenhuma razão, assim como de nenhuma lei. Ora, o problema da morte de outrem se consolida como algo de absurdo porque a alteridade não está configurada em suas consciências. É tão-somente a noção de si que reina absoluta em todos eles, como fora demonstrado anteriormente.

Por conseguinte, só poder-se-ia reiterar essa questão da paradoxalidade do cotidiano na vida de seus personagens, porque o Absurdo e o Sol estão em contínuo conluio com a existência humana. Este último, como gerador prolífico do destino e aquele, como noção do entendimento do mundo.

A título de exemplo, pode-se verificar em O Estrangeiro essa realidade solar que faz de Meursault um fantoche, notadamente quando ocorre a morte do árabe. O sol, enquanto realidade metafísica que se põe como afirmação, opõe-se ao poder se por como negação. A morte do Árabe é a morte do outro sem interlocução que fere a subjetividade de Meursault. Matar aquele Árabe era, igualmente, matar qualquer um que se interpusesse em seu caminho. Não se trata de uma xenofobia às avessas nem de uma atitude imperialista que aniquila o outro cultural. Camus nunca pretendeu defender uma forma de ideologização cultural dominante sob forma sub-reptícia em suas obras. O que está em jogo é a condição humana vista em sua pureza e em sua integridade que devem ser preservadas, isto é, a Natureza Humana. O mundo, para Camus, é destituído de sentido e, a única forma de restituí-lo, é ir ao encontro do absurdo da existência. Mas, assim como M., o homem de hoje precisa formar uma consciência, mesmo em meio ao absurdo. Somente ela poderá mostrar que a absurdidade do cotidiano, enquanto repetição, deve ser abolida. Exceção se faz, apenas, quando a repetição adquirir um sentido sisifiano, isto é, encontrar sentido na própria repetição. Desse modo, estar-se-ia superando as determinações fatídicas da existência e o homem seria elevado a mais nobre categoria ontológica: a de Ser, além de um Ente que pode ser. Meursault é a hierofania da condição humana dos nossos tempos que se mostra sem culpa e sem arrependimento. Esse homem sem preocupação com o futuro e a viver com migalhas do passado não se pretende ser metafísico ou realista.

O Sol, mola mestra do torvelinho das emoções e dos sentimentos, aparentemente estranho, põe em cheque a razão e a liberdade humana. Enquanto que o Absurdo, pré instancia o significado do mundo para levar o homem à esfera de sua própria humanidade. Nessa jornada, aonde não há deuses nem heróis, o homem está só. Mas Camus também. Restam-lhe as lembranças do Mediterrâneo.

Os limítrofes da existência se definem e aparecem pela luz do Sol. O que está configurado, antes e depois, só vai interessar aos que decidiram viver sob a égide da imaginação e da razão. Na imaginação, o outro é apenas um objeto virtual que pode ser mutilado, morto ou ressuscitado, como se o seu criador tivesse o poder absoluto sobre a vida. Distanciado, portanto, da experiência nevrálgica das inter-relações, o homem das manipulações existenciais permanece em seu casulo. Lugar, devidamente oportuno, da ausência de outrem. Porém, lugar de uma consciência que sente falta da presença. Aí, a culpa toma o lugar do outro. Daí começa o conflito humano:

[...] quando recusamos ao mundo qualquer espécie de significado, retrocedemos à supressão de todo julgamento de valor. Mais viver ou, por exemplo, alimentar-se são duas coisas que implicam julgamento de valor. Escolhemos a sobrevivência a partir do instante em que nos deixamos morrer; portanto, reconhecemos à vida um valor pelo menos relativo (CAMUS, Núpcias, p.116-117).

 

O valor atribuído à vida, segundo Camus, é um valor que se move a partir de sua própria instância. A vida possui valor por si só. Senti-la, é, antes de tudo, impingi-la de força instauradora e criadora mesmo que se esteja em meio às ruínas do passado histórico ou cultural. O ethos permanece de certa forma, intacto. É nele que a presença do Sol faz deflagrar as insuspeitas crises de identidade, mas, igualmente, de revolta. Além disso, a Terra e o Mar formam, com o Sol, o triângulo amoroso de Camus. Entrementes, às suas núpcias com o humano, Camus regozijava-se com as ondas e com as águas tépidas de sua tão querida Argélia. Prova disso, pode-se, em seguida, ler Camus entoar o hino ao mar e a liberdade:

É preciso que eu fique nu e, depois, mergulhe no mar e que, ainda perfumado de essências da terra, possa lavá-las nas águas desse mesmo mar, estreitando em meu corpo o abraço pelo qual suspiram, lábio a lábio, há tão longo tempo, a terra e o mar. Uma vez dentro d´água, é o sobressalto, a subida de uma viscosidade fria e opaca, depois o mergulho no zumbido dos ouvidos, o nariz a pingar e a boca amarga — o nado, os braços polidos de água, saídos do mar para se dourarem ao sol e de novos abaixados, numa torsão de todos os músculos, a corrida da água sobre meu corpo, a posse tumultuosa da onda pelas minhas pernas — e a ausência de horizonte. Na praia, é a queda na areia, abandonada ao mundo, uma vez mais de volta a meu peso de carne e osso, embrutecido de sol, lançando de longe em longe um olhar para meus braços, onde as poças de pele seca deixam a descoberto, à medida que a água escorre, a penugem loura e a poeira de sal (CAMUS, Núpcias, p. 13).

Alguém que conseguira expressar nesse hino ao mar o sentimento de profunda liberdade, não poderia, mesmo que quisesse, enveredar pelos caminhos da terra árida da consciência nem pelos vieses da razão para falar de algo que se sente a partir do contato direto com a natureza. Sua inserção no mar, ao se banhar, causa à impressão dele estar em estado de volúpia com tudo que o cercara. Inicia-se com os sôfregos beijos do mar com a terra em que ele se coloca entre ambos. Em seguida, ao mergulhar na água, sente a penetração da água na terra que se estende ao seu corpo. Fatiga-se do mergulho e das braçadas agitadas em cima das ondas. Nessa copulação, ele goza e o seu sêmen se traduz em viscosidades que a água encarregara-se de acolher e se deixar, igualmente, fecundar. Por fim, exibe-se na praia aos cuidados do sol que se ocupa em bronzeá-lo. Ufa! Balbucia Camus estirado na areia coberto de sal, deixando-se secar pelo vento do prazer e da volúpia.

A exigência de viver com experiências de outrora, fizera de Camus um homem de seu tempo, mas, sobretudo, um homem além de seu tempo. Sua vida tivera sido marcada pela experiência mística com o absoluto, assim como Orfeu, doravante não pudera mais suportar sua ausência. Contudo, como bem afirmara em O Mito de Sísifo, "Viver é fazer viver o absurdo. Fazer viver é antes de tudo olhá-lo. Ao contrário de Eurídice, o absurdo não morre apenas quando se olha para trás" (p. 70-71). É preciso que se possa encará-lo no decorrer da existência para, igualmente, fazê-lo morrer. O virar-se orfíco cede lugar ao olhar de frente camusiano.

Profeta dos excluídos e dos revoltados, esse argelino estivera inteiramente embevecido pelo néctar da vida e pelo brilho do Sol, sua primeira e última instância metafísica. Nele, Camus projetou, além de sua vida, a vida de toda humanidade. Esta marcada pela Culpa tenta soerguer-se da queda edênica e recuperar-se da ausência do absoluto que, por conseqüência, engendra a ausência de outrem. Apesar de querer amainar essa dor incurável, Camus não mede esforços, como afirmara outro eminente interprete de seu pensamento, Morvan Lebesque, em colocar a humanidade no confessionário e esperar, como se viu em A Queda, que ela saia regenerada. Mas para que o homem redima-se, a si próprio e aos seus semelhantes, é necessário que a repetição de seus atos, desfigurados de ética, sejam substituídos pelo regret. Notadamente, o remorso impregnado na consciência o conduz a rever sua indiferença. Fora isso, ter-se-ia apenas um tipo de homem blazé. O Sol, portanto, intermediário da razão, pontifica o homem com sua humanidade, isto é, com sua natureza. Mas, antes de conjecturar sobre isso, Camus experimentara-O em sua própria carne:

Para corrigir uma indiferença natural, fui colocado a meio caminho entre a miséria e o sol. A miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol e na história; o sol ensinou-me que a história não é tudo. Mudar a vida, sim, mas não o mundo do qual eu fazia minha divindade. Assim é, sem dúvida, que abordei essa carreira desconfortável em que me encontro, enfrentando com inocência uma corda bamba, na qual avanço com dificuldade, sem estar seguro de alcançar a outra ponta. Em outras palavras, tornei-me um artista, se é verdade que não há arte sem recusa nem consentimento (O Avesso e o Direito, 1995, p. 18).

Quem vivera desse modo não poderia deixar de ser um artista. A arte, para ele, além de ocupar um lugar de destaque na estética da existência, retira-o da conformidade com o estabelecido. Ela opera em Camus a mudança de olhar o mundo, mesmo que, esse mesmo mundo apelasse sua transformação. Ora, se porventura Camus pretendera mudar alguma coisa, teria sido a vida. Sua própria vida fora exemplo dessa mudança e desse soerguimento. Nada o houvera impedido de transpor as contingências que lhes foram impetradas. O mundo, por seu turno, não poderia ser mudado. A revolução, para Camus, deveria começar no próprio homem, ou seja, em sua própria vida. A revolução que poderia mudar o mundo houvera fracassado em meio a todas as tentativas ascendentes. Por isso, a configuração do mundo moderno apela por uma mudança, sim, mas que se inicie no seio de suas causas e não nos apanágios de suas absurdidades.
Em um mundo moderno em que a razão supera todas as expectativas da existência; em um mundo em que a ordem só pode ser entendida pelo prisma das ideologias; em um mundo em que as injustiças não são devidamente reparadas e em que a justiça é impotente, o absurdo se consolida e não encontra eco nas consciências. Ora, se a razão declarou, desde Descartes, que o real só pode ser compreendido se objetivado, a esfera do simbólico gira aleatoriamente sem poder firmar-se no mundo. A arte e a religião ocupam, portanto, a responsabilidade de interpretação, mas não de positividade com o real. Impera-se a "peste" da ignorância e os ratos, condutores da epidemia, inoculam, desde o início da propagação, o vírus da cegueira e da resignação. O primeiro destitui os homens de conhecimento, enquanto que o segundo, atira-os aos confins da vida celeste ou nos Jardins suspensos da Babilônia terrestre. Em A Peste, essa alegoria da alienação é descrita sem piedade, mostrando, inclusive, o estágio a que chegam os contaminados pela peste. As feridas expostas pela peste mostram o grau de ignorância de uma sociedade que não se preveniu deste tipo de mal, contudo, desolada e doente, não pode mais estar aberta aos contatos com o resto do mundo. O absurdo consolida-se como se fora irremediável. A clausura provocada pela epidemia definha, pouco a pouco, a dimensão cosmopolita de uma cidade. Fazem de seus cidadãos seres decaídos e miseráveis. A morte, por seu turno, mostra seu rosto através do desespero dos citadinos e tenta sobrepor-se à vida.

Frente a esse tipo de realidade, Camus percebera que viver era mais importante que morrer de peste. Suas contingências sociais (órfão de pai e educado por uma mãe analfabeta) e físicas (tuberculose quase sempre presente) não o impediram de continuar a viver como se estivesse sempre em boa forma. A vida, portanto, era-lhe infinitamente cara. Todavia, as formas de negação da vida deveriam ser extirpadas, porque, como afirmara, já em Núpcias: "[...] o que me nega nesta vida é, antes de tudo, o que me mata. Todas as coisas que exaltam a vida aumentam ao mesmo tempo seu sentido de absurdo" (Núpcias, p. 38).

A prodigalidade de Camus frente ao Absurdo vem acompanhada de sua incoercível autenticidade com a vida que fazia tremer toda forma de mediocridade e toda indiferença com o outro. Nota-se, ainda em Núpcias, essa sua atitude frente ao que é mais sagrado: "Se deveras existe um pecado contra a vida, talvez não seja tanto o de se desesperar com ela, mas o de esperar por outra vida, furtando-se assim à implacável grandeza desta" (Núpcias, p. 39).

O seu "antiescatologismo" e anticlericalismo nunca foram demasiados nem colocaram em questão a presença do sagrado no mundo. De fato, seu ateísmo fora um dos mais genuínos testemunhos de Deus. Alguém que reconhecera e definira Deus como sendo a prova da mais pura inconseqüência e inumanidade, não pretendia, sob molde nenhum, "antropormofizá-Lo". Com isso, Camus não vicejava reduzir a humanidade a Deus. Deus, instância plena, é Alguém irredutível a toda e qualquer forma humana, mas que só se pode admiti-Lo quando sua divindade toma assento no Gólgota na existência. Deliberadamente, sobre essa concepção, afiançara Camus: "Foi por invejar a nossa dor que Deus veio a morrer na Cruz. Esse estranho olhar que ainda não era o seu..." (Cadernos III, p. 100).

Estranho olhar que se oportuniza, como o Kairós, para entrar no mundo. É notório que Camus, apesar de nunca ter assumido sua crença em Deus, nem na Igreja nem em Jesus Cristo, sinaliza através de suas obras a sua marca da tradição judaico-cristâ. Morvan Lebesque, um dos comentaristas do pensamento de Camus, quiçá, o mais autêntico, destaca em sua obra Camus par Lui-Même, citada inúmeras vezes nesse estudo, o traço cristão de Camus. Atenção justa faz-se, visivelmente pelos títulos de suas obras: Os Justos, A Queda, O Exílio e o Reino, A Peste, A Devoção da Cruz, Réquiem para uma Freira, Os Possessos, A Mulher Adúltera. Além disso, pode-se, igualmente, verificar os nomes de seus personagens ou de seus títulos de estudo: Martha e MariaO Equívoco, Os Filhos de CaimO Homem Revoltado., Jean-Baptiste Clamence d´A Queda.

Contudo, apesar de Camus, não utilizar os dogmas irrefutáveis da teologia cristã, reconhece e capta as suas influências, inclusive, localizando-as em autores que lhe serviram de referência para a compreensão da condição humana. Em seu capítulo, Os Filhos de Caim, d´O Homem Revoltado, encontra-se um sumário dessas marcas e da configuração de um Deus cruel e caprichoso construída ao longo da história.

Camus não se importunara com a feição de um deus cruel nem caprichoso. Tanto mais se admitisse um deus dessa ordem, mais distante do humano o homem se encontraria. Ele queria, tão-somente, revelar a verdadeira face do humano no homem. Tampouco, não pretendia defender nem enaltecer a força imperiosa das ideologias que reduzem o homem à história. A única história verdadeira é aquela em que o homem escreve sua autonomia e independência nos anais de sua vida, contra tudo que o torna inumano. Por isso, o prazer da vida, segundo Camus, é a medida de se saber que é possível ser feliz. Vale notar esta citação em O Homem Revoltado sobre a vida feliz: "Necessita-se de rara vocação para ser um hedonista. A vida de um homem se realiza sem a ajuda de seu espírito, com seus recuos e seus avanços e, ao mesmo tempo, sua solidão e suas presenças" (O Homem Revoltado, p. 39). Desde que se tenha experimentado o gozo da vida a felicidade torna-se possível e pode ser mantida. A felicidade, não é, desse modo, o impedimento nem o abafamento da alegria que abriga a tênue flâmula da eternidade. Camus, frente à onda avassaladora da ocupação nazista em Paris, não perde tempo em denunciar essa peste que se propaga e faz de seus hospedeiros agentes de disseminação. Com efeito, a força imperiosa da peste substitui o esplendor do Sol. Ao sinalizar as intempéries desse mal que se torna, inclusive, o mal do Século XX, Camus, em A Peste, preconizou a ausência do Sol.

A jocosidade irônica de Camus perante a proliferação da peste insinua que uma sociedade em estado de sítio, como aquela de Oran, perdera "as primaveras do mundo" e se entregara aos efeitos funestos de uma epidemia que realça a morte e inibe a vida. Contudo, retomar, quase sempre, a presença do Sol, é, nessa perscrutação dissertativa, restaurar, com Camus, o diálogo impetrado com as pedras e a carne, tal como se verifica em seguida:

[...] à medida que o mês de agosto transcorre e o sol se avoluma, a brancura das casas vai-se tornando cada vez mais enceguecedora e as peles tomam um calor mais profundo. Como seria possível deixar de identificar-se com esse diálogo entre a pedra e a carne, marcado pelo ritmo do sol e das estações? (Núpcias, p. 29-30).

Em Camus, não há tergiversação do tema "Absurdo" e do "Sol". Recorrentemente, pode-se encontrá-los em todas as suas obras. Não há nele uma evolução desses temas que, em determinado momento, adquirir-se-iam outra conotação. O Absurdo, quando não está presente e nomeado, aparece sub-repticiamente como se evocasse a saída de sua clausura. O Sol, quando não se mostra causador do destino, metaforiza-se em antônimos que fazem, obrigatoriamente, reocupar o seu lugar. Tanto um quanto outro, vociferam um tipo de entendimento da realidade que somente o conhecimento simbólico teria sustentação. Isso somente é possível porque Camus não pretende categorizar o real da existência. A experiência humana é traduzida, assim como os gregos fizeram antes da filosofia, na engendração dos mitos. Contrariamente, agrilhoado e a mercê do domínio do conhecimento, o homem tem se "dado conta", que, mesmo em meio a todas as possibilidades de objetivação do real, algo permanece oculto e indecifrável. Porém, o conforto da falta da presença da totalidade do real é sentido pelo corpo humano que, além de suas sensações, também pode acolher o indescritível. Essa linguagem dos sentimentos, do tato, da dor ou da esperança, pode-se encontrar no mito. Camus, por sua vez, ao tratar de questões que se justificariam pela razão, utiliza-se da inteligência intuitiva que captura o real com dados provindos do corpo. A intermediação, portanto, como meio de ligação entre o concreto e o racional, tradicionalmente exercida pela filosofia, nem sempre encontra lugar no pensamento camusiano. Levando, inúmeras vezes, críticos de plantão, questionarem a sustentação filosófica de Camus perante elementos que requereriam uma categorização metafísica. Ao responder a essa indagação, Camus, reitera-se:

Quanto a mim, não sei o que procuro, menciono a questão com prudência, desdigo-me, repito-me, avanço e recuo. Obrigam-me, ainda assim, a dar-lhe nomes determinados ou a defini-la uma vez por todas. Sempre que isso ocorre, irrito-me; aquilo que se define já não estará perdido? Eis, ao menos, o que posso tentar exprimir (Núpcias, p. 111).

Posto o questionamento, a resposta decorre de seu estilo mítico-poético, sem, contudo, resvalar por uma negação da filosofia. Conscientemente, sabe-se que a filosofia grega, ao tempo que trouxe para o âmbito da razão a compreensão do real, simultaneamente, ao "logogizá-lo", decretou sua falência inovadora, propagando-o, ao longo da história do pensamento ocidental a repetição do mesmo.
O Absurdo camusiano, conquanto, revela-se à consciência mesmo sem poder ser decodificado. Assim, impõe-se como algo que contém uma sensação, diferentemente de uma elucubração. Ou seja, como um símbolo que, aparentemente, revela-se como algo absurdo e, muitas vezes, sendo visto como uma entidade malévola. Devendo, portanto, por causa de sua forma, ser aniquilado o seu conteúdo. Antepondo-se a esse tipo de reação, Camus percebe que na experiência do Absurdo algo deve ser modificado ou salvaguardado no mundo. A "heroicidade" do homem no mundo começaria com a atitude de total indignação com o que põe em risco a vida em querendo se substituir por algo irreal produzido pelo distanciamento do real. Com efeito, a implicação do homem no mundo é manifestada por uma atitude de aceitação e conformismo. Não há esquecimento da memória quando o conhecimento é fruto da experiência.
Inversamente, da experiência com o Absurdo, Camus retira a noção de revolta:

 

Repetir, por conseqüência, enleia no espírito humano, de um lado, a conformação, de outro, a resignação. O primeiro enquadra-se facilmente aos moldes da ideologia que almeja transformar o mundo, para que os homens vivam em igualdades de condições. O segundo reduz as contingências ao poder divino de recuperação e ameniza as dores do mundo.
A revolta camusiana, como fora mostrado antecedentemente neste estudo, não se pretende transformar o mundo nem o homem. Nem se incumbe de substituir as revoluções realizadas na era moderna. Ela se propõe a transformar a vida do homem recuperando-lhe a dignidade de outrora, como afirmara Camus em O Homem Revoltado: "A revolta clama, ela exige, ela quer que o escândalo termine e que se fixe finalmente àquilo que até então se escrevia sem trégua sobre o mar" (O Homem Revoltado, p. 21).
A fim de poder se fazer compreender nesse âmbito da revolta, Camus, ao invés de se manter confinado no front da história pela guarda das armas, rebela-se com a espada da palavra escrita que lhe serviu de arsenal para conspirar contra todo tipo de aniquilamento da vida. O romance, meio literário de sua revolta, ocupara em sua vida uma das mais ousadas e inovadoras formas de expressão, podendo, desse modo, metaforizar, não somente sua experiência mediterrânea, mas, sobretudo a denúncia de uma sociedade desumana e enfadonha. Em O Homem Revoltado, Camus reafirma essa possibilidade do romance tratar, não mais da fantasia, mas da história.

A história, evidentemente, para Camus, é aquela em que narra a vida humana repleta de percalços, de sensações e de revolta. O romance, como meio literário dessa revolta, traz a público o poder que é conferido ao homem quando dele brota a inexpugnável presença da diferença, o amor. Com isso, faz da história do homem algo que só pode ser entendido pelo coração.

A arte do existir, portanto, ao refletir esse paradoxo, não se envergonha em ser diferente da maioria. Ela somente é arte porque pode revelar, desde sempre, a inovação do existir. O "ama e faze o que quiseres" agostiniano se atualiza nessa perspectiva camusiana e, sem querer cristianizá-lo, unimo-lo ao grupo dos eleitos que habitam no panteão da imortalidade.

"A meio caminho entre a miséria e o Sol", esse argelino não é mais francês, nem europeu; nem africano nem latino-americano. Seu porte literário e filosófico atinge os píncaros do conhecimento para toda a humanidade. Esse Prometeu da atualidade revigora as estações primaveris do cotidiano e revela a potencialidade humana como, talvez, nenhum dito existencialista tenha tido a coragem de fazer.

O pied-noir do Absurdo contribui para que, com a revolta absurda, "nasce (a) então a estranha alegria que nos ajuda a viver e a morrer e que, de agora em diante, nos recusamos a adiar para mais tarde. Na terra dolorosa, ela é o joio inesgotável, o amargo alimento, o vento forte que vem dos mares, a antiga e a nova aurora" (O Homem Revoltado, p. 350). Para concluir, apropriar-se-á de uma das falas dos personagens do filme de Mohsen Makhmalbaf, A Caminho de Kandahar:
O único obstáculo a esta minha viagem é o sol que luta comigo injustamente. Sempre achei que, se cada um de nós brilhasse como a luz de uma vela, não teríamos necessidade do sol.

REFERÊNCIAS

  • CAMUS, Albert. O mito de sísifo: ensaio sobre o absurdo. Rio de Janeiro: Guanabara, 1989.
  • CAMUS, Albert. O exílio e o reino. Tradução de Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro: Record, 1997.
  • CAMUS, Albert. O estrangeiro. Tradução de Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro : Record, 197-.
  • CAMUS, Albert. O avesso e o direito. Tradução de Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro : Record, 1995.
  • CAMUS, Albert. A Peste. Lisboa : Edição Livros do Brasil, 197-.
  • CAMUS, Albert. Calígula / O Equívoco. Tradução de Ersílio Cardoso. Lisboa : Edições Livros do Brasil, 197-.
  • CAMUS, Albert. O homem revoltado. Tradução de Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro: Record, 1997.
  • CAMUS, Albert. A queda. Tradução de Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro: Record, 198-.
  • CAMUS, Albert. A inteligência e o cadafalso e outros ensaios. Tradução de Manuel da Costa Pinto. Rio de Janeiro: Record, 1998.
  • CAMUS, Albert. Núpcias, o verão. Tradução de Vera Queiroz da Costa e Silva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979.
  • CAMUS, Albert. Estado de sítio. Tradução de Maria Jacintha e Antonio Quadros. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
  • CAMUS, Albert. Cadernos. Tradução de Gina de Freitas. Lisboa : edição livros do Brasil, 196-.
  • CAMUS, Albert. Cadernos II. Tradução de Antonio Quadros. Lisboa : Edição livros do Brasil, 196-.
  • CAMUS, Albert. Cadernos III (1948-1951). Tradução de Antonio Ramos Rosa. Lisboa : Edição livros do Brasil, 196-.
  • CAMUS, Albert. Caligula suivi de le malentendu. Paris : Gallimard, 1998.
  • CAMUS, Albert. Discours de suède. Paris : Gallimard, 1997.
  • CAMUS, Albert. L’ étranger. Paris : Gallimard, 1999.
  • CAMUS, Albert. L’envers et l’endroit. Paris : Gallimard, 1997.
  • CAMUS, Albert. L’état de siège. Paris : Gallimard, 1998.
  • CAMUS, Albert. L’exil et le royaume. Paris : Gallimard, 1999.
  • CAMUS, Albert. L’homme Révolté, essai. Paris : Gallimard, 1998.
  • CAMUS, Albert. La chute. Paris : Gallimard, 1998.
  • CAMUS, Albert. La mort heureuse. Paris : Gallimard, 1998.
  • CAMUS, Albert. La peste. Paris : Gallimard, 1999.
  • CAMUS, Albert. Le mythe de Sisyphe. Paris : Gallimard, 1998.
  • CAMUS, Albert. Noces suivi de l’été. Paris : Gallimard, 1998.
  • GONZÁLEZ, Horácio. Camus: a libertinagem do sol. São Paulo: Brasiliense, 1983, Col. Encanto Radical.
  • KAST, Verena. A condição prévia para o castigo. In: idem. Sísifo — a mesma pedra — um novo caminho. Tradução de Erlon José Paschoal. São Paulo: Cultrix, 199-.
  • LEBESQUE, Morvan. Camus par lui-même. France : Éditions du Seuil, 1965.
  • LEITE, Lourenço. Do simbólico ao racional. Ensaio sobre a gênese da mitologia grega como introdução à filosofia. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia (Selo Editorial Letras da Bahia), 2001.
  • MOELLER, Charles. O silêncio de deus: literatura do século XX e cristianismo. São Paulo: Flamboyant, 1958.
  • NICOLAS, André. Albert camus ou le vrai prométhée. France : Éditions Seghers, 1966.
  • SADE, Marquês de. A Filosofia na alcova: os preceptores imorais. Tradução de Mary Amazonas Leite de Barros. São Paulo: Círculo do Livro, 198-.
  • SARTRE, Jean-Paul. Situações I. Tradução de Rui Mário Gonçalves. Lisboa: Publicações Europa-América, s.d.
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Professor de Filosofia, credenciado no Mestrado em Filosofia da Universidade
Federal da Bahia, doutor em Letras pela mesma Universidade, com a tese: Albert
Camus e o Paradoxo da Ausência de Outrem. Desenvolve atualmente pesquisa na
área de Literatura Comparada e Filosofia com o projeto: O Suicídio como olhar
metempírico da Morte (Albert Camus e Vladimir Jankélévith frente ao absurdo
da niilização).       lleite@ufba.br
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