SAUDADE:
UM RIO QUE CORRE
NA RETINA DO TEMPO

R. Leontino Filho(*)


MariaDenas    Maria Denas

Amorosamente, a saudade se instala no alpendre do tempo, desejosa de novas paixões para mudar o passo das coisas presentes. Na sisudez das horas, já não esconde o cansaço do corpo, a rouquidão do canto e o desassossego da alma. A saudade muda o semblante das estações, instala uma sintaxe de estrelas e expõe seus vincos com a alquimia dos sonhos. A saudade banha-se no rio de todas as infâncias, pula as cercas vivas do pensamento, guarda a limpidez das primeiras águas, roça a linha divisória da melancolia suave e dilacerante, sublima a sombra dos sentimentos patéticos, delineia o sentido primordial das perdas e, no limiar da viagem, dissolve a fragrância errante do necessário amor. É, sempre, a comoção da partida e a celebração da chegada. Transitoriedade e sofrimento nunca faltam no seu alforje. Realidade e fantasia descem a ribanceira de sua gramática existencial. Razão e irrazão palpitam, como súplica, em sua febre de encontro. Liberdade e tirania misturam-se ao script das ausências azulejadas. Ao redor dos dias, a saudade reboca o chão forasteiro de cada reminiscência e acumula as lições do tempo. De quantas saudades é feito o homem? De tantas quanto a vista captura. De tantas quanto o desejo morde. De tantas quanto a dúvida decifra. De tantas quanto o calendário rebenta. De tantas quanto a dor soçobra. De tantas quanto a escrita exibe. De que saudade é mesmo feito o homem? De uma que desponta ao longe e que destranca as portas do destino, lustrando em chiaroscuro a vigorosa substância da memória: a flor que flora no canteiro da lembrança – a poesia.
Regar o canteiro do esquecimento para assegurar a justa transação do velho com o novo, do passado com o presente, eis a tarefa que cabe ao poeta. Argüido pelos ventos, o poeta repara os seus muros de conquistas e derrotas e lapida a sua crônica de abraços. Lê na grafia dos brotos, o propósito das perdas, nomeia as coisas, ciente da própria friagem dos nomes e entrega-se, sem receio, ao chamamento da dura lida do humano amor. Tatuado por lembranças, o poeta, na rota escalavrada do tempo, engendra seu refúgio de espantos quando espalha suas carícias na cidadela da infância entardecida do outro. Pelo lado de dentro da poesia, o poeta, de mansinho, apalpa suavemente a saudade, conspiradora eterna da beleza e do medo. Na expressão lírica do vate, imenso é o rio que não teme o mar, mas que a ele se alia para proporcionar mil devaneios, numa espécie de espetáculo de lembranças, vastas velas de recordações. O rio, com o seu corpo de amor e sua linguagem de paixão, vigia a memória do mar e invade, pelas frinchas das ondas, a miragem de afetos recém-nascida das oferendas das águas. Saudade e rio, poesia e mar, veredas na constelação da língua do poeta que borda, à revelia do tempo, cada verso, cada linha, do outro lado da multidão. Com requintes de abnegada devoção o ser poético se instala na ranhura dos acontecimentos, fazendo brotar o começo e o fim da perene dívida com as suas inquietas lembranças. O sentimento avassalador que o impulsiona espalha pelos cômodos do passado a serena crueldade do rio que soluça na varanda do mar. Cada rio e cada mar são quase rezas no intervalo das ondas de saudade que o poeta desnuda. Desnudar a saudade, decantar o tempo, destilar as dores do mundo, manter acesa a língua que governa o mapa dos mistérios, enfim, convocar o silêncio da prece e penetrar no conluio de sombras da existência, são as principais e mais relevantes tarefas do poeta que acena para o futuro de cor cambiante e rala plumagem de esperança.
Na realidade, esse longo e manhoso intróito sobre a saudade, objetiva tão-somente traçar algumas palavras a respeito de um livro importante e fundamental para o entendimento do que vem a ser uma verdadeira vocação poética. Utiliza-se, aqui, o termo vocação com todo o risco que a palavra traz em si de incompreensões e mal entendidos, afinal de contas determinados vocábulos parecem, às vezes, cair em desuso, ou melhor, em descompasso com o ‘reino surdo’ dos sentidos – o dicionário –, quando minados pela praticidade desvairada da hora presente, não possuem mais asas para as utopias, e se há um estreito parentesco lingüístico entre as palavras, um deles, certamente, pode ser estabelecido entre vocação e sonho, pois, todo sonhador é um ser vocacionado e que faz de suas esperanças a rota para a transformação da vida. O livro em questão intitula-se Coisas velhas saídas da beira do túmulo, um denso inventário pelas contingências do amor, da tristeza e da revolta, tudo isso mesclado pela submersa saudade do poeta. O poeta chama-se Raimundo Herculano Moura (1914) que, com sábia humildade e destemida calmaria, gera os seus pungentes versos fundindo os contrários do amor e da descrença. A idéia central de sua poesia pode ser capturada no célebre soneto de Augusto dos Anjos, O lamento das coisas, quando o universal autor do Eu celebra, a contrapelo, a transcendência não realizada, a luz que não chega a ser lampejo, em síntese, a natureza chorosa estacionada na planície do desejo. Pelo próprio título do livro, Coisas velhas saídas da beira do túmulo, a afinidade com Augusto dos Anjos suscita outras referências: o nascimento de novas cosmogonias do amor, o ocaso da matéria, a crença e a descrença no ser humano, a morbidez plangente dos relógios, o martírio da solidão, a voz dolente de todas as ausências, o exílio cravado no dorso da aurora, as prolongadas reticências dos tormentos e, por fim, a saudade que habita o ventre tardio das súplicas. O poeta é, desse modo, um construtor de sombras, um arquiteto de névoas, um fabricante de casulos, um inquilino das paisagens, um cigano – meio trôpego – das noturnas esperas.
O livro Coisas velhas saídas da beira do túmulo abrange mais de 60 anos de uma rica e devotada cumplicidade com os mais humanos sentimentos. Numa clara demonstração de que o homem é uma espécie de arco-íris de emoções quando atravessa o campo em flor das dores e das alegrias que o mundo oferece. Raimundo Herculano Moura, em seu solitário gesto de poeta, observou com hábil mão de mestre, as aderências da infância, as desgovernadas aventuras da adolescência, os inexauríveis caminhos da maturidade e a psicologia da senectude. Com tudo isso, sobre a mesa dos anos, elaborou o memorial das lágrimas e dos sorrisos e fez do ofício íntimo da saudade a parábola crepitante do longínquo viver. A verdade de sua poesia principia na hora do repouso e aquece o clima das vontades de lembrar. Lembrar as trilhas percorridas, as ginásticas para alcançar um pouquinho de felicidade, os manuais empoeirados do amor que soam feito guizos de priscas eras. E, também, deslembrar, esse exercício de não esquecer, de desaprender para melhor aprender as coisas e decifrar os gestos. O que se esvai nos escritos do poeta corta rente aos escombros da realidade e firma o pacto com a imaginação. Imaginação que se esparrama entre as margens do rio da infância, sentindo a brisa inebriante do tempo e experimentando a nostalgia das mudanças. Imaginação que contorna o mar de afeto prenhe de melancolia e tristeza. Um mar que é pura vivência e que consegue catalisar todas as experiências do coração da memória. O poeta é o coração da memória, sempre. Pois, dos camarins da vã futilidade humana e da borra das coisas, ele consegue extrair a breve paz dos eleitos. O seu sotaque é inconfundível, sob o signo da urgência, interessa-lhe o vertiginoso processo da ambigüidade típica do lirismo: algo que se constrói com a argamassa de vertentes trágicas e dramáticas. O lirismo guarda o emblemático olhar da solidão e, é quase certo, que o mais intenso diálogo do homem, aquele que provoca as mais gritantes e desafiadoras questões, está intimamente associado à solidão. Toda construção poética, digna de ser chamada poesia, é fruto da solidão e do pesadelo histérico das multidões.
A obra de Raimundo Herculano Moura, composta em sua esmagadora maioria por poemas que versam sobre o transcorrer do tempo e os embates amorosos, estes associados a pessoas, a lugares e mesmo a coisas, é o retrato bem construído de uma vida toda ela dedicada a contemplar as pequeninas inscrições essenciais da existência. Seja por meio de poemas, de trovas e de algumas crônicas, o poeta ocupa as zonas fronteiriças da escrita com recursos estéticos que combinam com desenvoltura a sensação íntegra do dever cumprido: externar poeticamente a materialidade da língua agindo no corpo da linguagem. Em todos os poemas copilados ao longo de mais de 60 anos de reclusa atividade, três marcas estilísticas ressaltam no livro. Acentuando de início a carga lírica dos textos, bem como, a extrema individualidade do autor que de maneira lúcida e corajosa conseguiu passar ao largo dos modismos passageiros e das novidades textuais tão comuns em tempos de ocas tentações. Resguardando, no entanto, olhares profundos e sensíveis para as dores de seu semelhante que durante muitos anos sofreu na carne com as intempéries do destino e com o desatino dos homens. A poesia de Raimundo Herculano Moura é sem arestas, cultivada que foi sem os espinhos da vaidade – essa planta tão daninha e maléfica aos valores da arte, em especial, da poesia. Pois muito bem, é mister assinalar de uma vez por todas, as três principais preocupações estéticas percebidas nos grotões da poemática saga do vate cearense: 1) o domínio do ritmo que singulariza a melodia dos versos, cada poema é quase um canto, o retorno aos primórdios da poesia; 2) a criteriosa seleção de palavras que compõem os textos, não se percebe nenhum descompasso entre o que é dito e o modo como é dito – o artificialismo das intenções é negado pela pureza das expressões e 3) a ênfase na narração, uma forma de recuperar sempre que possível, a força telúrica dos acontecimentos sem os mecanismos tergiversantes do mero beletrismo.
Vale ressaltar, a título de ilustração, alguns poemas que mais de perto realçam cada traço acima descrito. No primeiro bloco, inscreve-se a totalidade dos poemas, o ritmo melódico faz-se com a intermediação de tons variados, a cadência de sons funde-se com o notável balanço das palavras e revigora a substância sonora de cada linha, de cada estrofe e de cada poema. Provavelmente, o exemplo mais acabado da rica melodia presente em Coisas velhas saídas da beira do túmulo seja o belíssimo poema Bastidor de labirinteira, que além da multifária presença de diversos tons, exprime uma delicadeza erótica bastante sutil. No tocante à seleção de palavras, há um esforço permanente por parte do poeta de não submeter o seu leitor aos desarranjos de uma falsa erudição. Noutras palavras, ele jamais compartilha da tese de que a robustez do poema está no hermético jogo lingüístico, mesmo porque, cada palavra é semente de novas interpretações, importa adequá-la da melhor maneira ao sentimento que se deseja exprimir, mesmo que para tanto, às vezes, receba a pecha de ingênuo. Quantas vezes, os quintanares não foram tachados de ingênuos e de igual modo, as andanças de Cora Coralina pelos becos de Goiás Velho foram vistas como simples elucubrações de uma observadora inocente, só muito depois, é que foram reparar que por detrás da máscara da simplicidade existia e existe uma metafísica que poucos conseguem enxergar. Vários poemas que falam sobre a saudade, entre outros, Saudade, Que é saudade? e Prematura saudade resumem o exercício lingüístico do poeta e a sua concepção metafórica do termo saudade – o vasto rio do tempo. Por fim, chega-se ao terceiro traço, o que diz respeito à narratividade da poesia, tão bem expressa em dois longos e comoventes poemas Rosa Fanada e Súplica ao anjinho pardo do pé torto, quando da inundação de Aracati. Este último revive a dramaticidade da enchente de 1974 que assolou a cidade de Aracati e provocou tragédias coletivas e individuais de vastas proporções. Pela ótica do poeta, o desenrolar dos acontecimentos faz-se com a dramática e enternecida história de um anjinho – a crença do autor fortalece sua disposição em relatar os infortúnios desse inocente ser tragado pelas malhas do destino. Mais forte do que a queda é a fé que atravessa oceanos e gera novas esperanças. Nas asas do singelo personagem, o poeta ergue sua catedral metafórica e planta nas encostas do amado rio, um céu plissado de estrelas.
Não bastassem os mares agitados de poesia inseridos em Coisas velhas saídas da beira do túmulo, Raimundo Herculano Moura singra, com desenvoltura e ludismo, as encostas burlescas e satíricas do fazer poético por meio de algumas dezenas de trovas. O trovador destila seu humor ferino quando rascunha em quadras de perfeita técnica a singularidade de sua visão de mundo. O trovador é, a partir de então, uma espécie de cronista ligeiro do amor, da felicidade, da tristeza, da revolta, da esperança, da fé, da descrença, do pessimismo, da angústia, da melancolia. Enfim, das coisas miúdas que estão sempre ao rés-do-chão, como aquela flor furando o asfalto, sem ninguém perceber, a não ser os olhos do poeta gauche da vida. E é no dorso da memória que o trovador transmuda-se em hábil cronista, narrando, registrando, comentando e sugerindo as coisas e as pessoas que o cercam, os livros que leu, as tristezas que o marcaram, os cortes e os recortes da vida, a gratidão que não murcha jamais e a peregrinação dos anos na légua rude dos caminhos. A um só tempo, poeta, trovador e cronista três faces arremessadas, com sabedoria e sensibilidade, no alpendre de todos os feitiços.
Conclui-se, com a leitura de Coisas velhas saídas da beira do túmulo, que o poeta é um peregrino da saudade. Saudade, sentimento tão misterioso e inebriante que corre na retina do tempo, perfazendo feito caracol, a mítica viagem ao redor de si mesmo. A saudade é um rio que por vezes atende pelo nome de Jaguaribe, quiçá muito mais belo que o Tejo, pois que é o rio da aldeia do poeta e a aldeia do poeta guarda os tesouros assombrados de todos os exílios. A saudade é um vento que por vezes atende pelo nome de Aracati, a terra que estende suas raízes e carícias no abismo distante das calmarias. A saudade, já o disse com saborosa sabedoria o excepcional ensaísta português Eduardo Lourenço: "A saudade (que mais podia ser?) é apenas isto: a consciência da temporalidade essencial da nossa existência, consciência carnal, por assim dizer, e não abstrata, acompanhada do sentimento subtil da sua irrealidade". A carnalidade do tempo se sobrepondo a tudo que é reles aparência. Para o poeta resta apascentar, como sentinela dos sonhos, os rumores do vento aracati e se deliciar nas águas do Jaguaribe, o rio que de veias abertas ampara cada milimétrica saudade de seus filhos. Coisas velhas saídas da beira do túmulo é, em suma, a miragem entardecida da plena consciência da saudade, é a rapsódia frondosa de amores noturnos, é o mágico substrato das águas que correm pelo corpo reticente dos adeuses. É mutação à beira da vida, agora e sempre.

*Leontino Filho é poeta e
Professor da Universidade Estadual do Rio
Grande do Norte,autor de
Cidade Íntima.

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