Sandra Moreira


A FULANA 

Leonardo de Magalhaens

(conto) 

Durante aquele ano eu fui um adorador de Fulana. Um devoto
convicto. Fanático em verso e prosa. Deslizando na pele
amorenada, oscilando nas ondas dos cabelos longos em
cascatas. Delirando a cada olhar insinuante ou lugar-comum
imaginado.
Mas quem disse que Fulana olhou pra mim? Ela me ignorou
solenemente. Exceto numa 'cola' exigida durante a opressiva
prova de Bioquímica. Certamente 'radicais livres' não era o
forte da futura enfermeira.
Ah, as enfermeiras! O que não aprontam com os entediados
doutores nos plantões madrugadas adentro! Ah, as noitadas
no hospital! Pelo menos um lado 'soft' e 'relax' de ser médico.
Carreira pesada e pesarosa, nada gloriosa, diz mamãe. 
Não que desaprovasse, mas preferiria um filho advogado ou
construtor de arranha-céus. Mães!
Pois é. Falávamos de Fulana. A bela Fulana - morena e
provocante. Saindo com quem? Com ninguém da turma 
- que eu saiba. Se tivesse fila eu logo encontraria um lugarzinho...
Mas nada disso. Um modelo de pureza! Eu com meus "bons dias"
e "tudo bem?", e ela um sorriso apagado, um reclinar de cabelos.
Nada mais. Não que faltasse simpatia. Era simpática, mas algo
distante. Por que? Sabe-se lá! (Saberia depois...)
Antes pensei que era questão de estética. De repente, eu era
um cara feio, até disforme. Loucuras. Menos de duas semanas
depois eu vejo Fulana com o Valdir, aquele quase careca, com
uma medonha cicatriz no queixo, que, segundo dizem, ele caiu
da moto. Pois é, e ela saindo com o Valdir? Cara mais feio do
que eu - com certeza! Então o problema não é a beleza, ou melhor,
a AUSÊNCIA de beleza. Talvez seja o 'jeitinho', a atitude do sujeito.
O cara ser mais, digamos, enfático, incisivo, sei lá, 'chegar junto'!,
ser insistente, invasivo, até brutal!
Mas o Valdir! Olhe, não é inveja não! O Valdir até merece!
E alguém precisa ser o primeiro da fila... Então, o Valdir!
Mas descobri que o lance não era sério - o Valdir oferecia
carona e ela pagava com um sorriso, uns beijos distraídos e
inocentes. Isso aí. Ela economiza a grana do ônibus e evitava
estresse. O Valdir se deliciava com a presença amorenada e
perfumada. Felizardo! Uma relação, digamos, simbiótica.
(Somente no fim do ano eu pude comprar o meu primeiro
carro. Mas era tarde demais...)
Pois bem. No fim do semestre, resolvi abordar Fulana. "Olá,
udo bem? Tem teatro na arena, amanhã à tarde. De repente,
podemos...", e ela nem esperou a conclusão do período frasal,
"Oi, Beltrano! Mas é que amanhã... amanhã é difícil. Depois,
quem sabe? E a prova de Genética? Estudar, né?" e foi saindo
e tal, sem demoras. Fugia?
Bem, meditemos. Não sou feio (e mais de perto, o Valdir é
mais horrendo!), não sou pobretão (ainda que não tenha ainda
um carro novo!), não sou idiota (ainda que não passando de B
em endocrinologia, e não levando uma moça pra cama ao longo
do mês de junho...), então qual o problema? Mulher é sentimento,
dizem. Sentimento pelo Valdir? Gratidão? Reconhecimento eterno?
Balelas!
Então passou-se julho. Férias. E logo, agosto. (Ela não apareceu
na calourada das novas turmas. Sumiu...) Chegou setembro.
Primavera nos corações. Estou viajando nas flores multicores,
em plena Praça da Savassi. E quem vejo? A Fulana! Ela sem
engano! Um pouco magra, um pouco maquilada. Um pouco não!
Excessos. Batom algo lilás algo roxo algo rubro sangue. 
Não entendo muito de cores e nuances. Mas de lábios não 
proclamo
insciência. Os de Fulana são inconfundíveis. Inesquecíveis.
São únicos. Ela mesma. Então por que não se aproxima. 
Ao
menos um 'boa noite' ou um simples 'oi, tudo bem?'. 
Contudo,
afastada. Um vulto junto ao tronco de fuligens. 
Olha pros lados
da avenida do ditador, reclina-se para a 
avenida do descobridor.
Indecisa? À espera de alguém? Logo eu saberia.
Um carro parou. Faróis baixos, lento e felino. Junto a quem?
Sim, sim. Quando ela se destacou, sob o derrame luminoso do
poste, é que vi o vulto todo: ela de batom, sim, e de minissaia.
Perplexo e maravilhado! Um par de pernas turbulento, um perfil
de mulher-gato. E de sandálias vermelhas - pra combinar com
o batom!
O caro ali parado. O Valdir? Não, não era. Um qualquer. Ela foi
de mansinho. Se debruçou felina à janela, com os cabelos
derramados no ombro esquerdo, em reflexos para mim. 
E ali inclinada, um decote assombroso! O que fazia?
Ora, coração, coração! Ela negociava, ela se alugava, ela se
p...! (óbvio como o sorriso de candidato em outdoor!) a minha
(minha?) Fulana era mesmo uma... E de luxo! Não foi com o
cidadão do carro (o preço? O tipo de cara ou do carro?) 
Não foi.
Voltou para o poste. Poste? Não, a árvore de fuligens. 
Discreta.
(Discreta? Sim, o quanto podia ser discreta com 
aquela minissaia
e batom e sandálias rubro-sangue!)
Mas a Fulana - quem diria! Então ela reapareceu. Algumas aulas.
Nunca no laboratório. Vez ou outra na classe de Genética. 
Ou
na Anatomia Humana. Só a aula teórica. Talvez ela sofresse
alergia de clorofórmio... Mas (ó coração!) a Fulana? 
Uma garota de. Incrível. Não digerível.Então ela debruçada 
na paredinha do pátio, cabisbaixa. Eu a
ponto de vomitar. 
Fulana! "Olhe, Fulana, era você mesma?" e
ela num sobressalto, 
mas a mergulhar olhos nos olhos, "Eu
mesma o quê?", e eu quase
  a vomitar, "olhe, Fulana, era você!
Era você! Lá na praça! O carro parou... Era você!", e ela piscou,
"Ah, era um amigo. É, um amigo. O que há?", e ela era arrepios,
no ataque, quase gritou, "o que foi, Beltrano?", e eu perdi o juízo,
"Olhe, aqui, Fulana! Não fique aí pensando que eu sou um baita
idiota! Você sempre me esnobou, ficou aí fugindo, como se eu
fosse um OGRO, um monstro! E por aí em voltinhas com o
Valdir! Problema é seu! O Valdir! E se fosse o Sicrano eu até
entendia! Olhe, e pois bem, e você quem é? Uma... uma... 
E
quanto vale? Quanto é o programa? Qual é o preço?", e fiz a
insanidade de arrancar a carteira e puxar duas notas de 50 e
depois mais o cartão de crédito e o cartão do banco, atirando
tudo nas mãos dela, "Quanto é? Qual é o seu preço? 100 reais?
200 reais? Posso pagar com cartão? Espere! Vou ali ao caixa
eletrônico", e só parei quando achei que ela ia ter um troço, fazer
um escândalo, ou chorar igual as putinhas nas novelas e tal, e ela
devolveu as notas e os cartões, agarrou a bolsa e desceu a escada.
Não me encontrei mais com aquela Fulana.

28/29 jun 08

Leonardo de Magalhaens, Poeta, blogero e professor