Julio Saens

A RECEITA BÁSICA PARA UMA
SOPA DE LETRAS
Lecy Pereira Sousa

   Quando se fala em sopa de letras, é fundamental escolher uma boa marca de macarrão.
   Brincadeiras à parte, para produzir uma literatura tipo fast-food e com sabor de quero mais, é preciso adicionar uma pitada de pirlim-pim-pim lobatiano – leia-se Monteiro Lobato.
   É sempre bom considerar que, segundo dados recentes da Câmara Brasileira do Livro, falamos do ano 2002, o Brasil possui 17 milhões de leitores que estão lendo, em média, 5 livros/mês. Mas em contrapartida, há 86 milhões de leitores potenciais que precisam despertar o interesse pelos livros.
   O texto está descambando para uma discurseira apaixonada, mas por uma sopa impecável, vale o grito.
   O ideal seria que a maior parte do poder público, meios de comunicação social, academias de letras, gazetas de arraiais e páginas de internet buscassem, de forma lúdica e dignamente temperada, disseminar , cotidianamente, a literatura enquanto arte e forma de obtensão de sabedoria, amplitude de visão de mundo, a conquista meritória do êxito ou da realização pessoal e, por conseguinte, a capacidade de respeitar as diferenças humanas, tantas quantas são as suas digitais presentes nos quatro cantos do globo terrestre . Aqui, o texto é semelhante a um manual de auto-ajuda. É bastante confortável e delicioso dizer ao próximo exatamente como preparar uma sopa de letras ao dente.
   Agora, convenhamos, um cidadão comum, medianamente esclarecido, esperar que os dirigentes dos meios de comunicação de massa, pessoas capazes, ótimas leitoras do mundo, entrem num consenso quanto aos melhores ingredientes para a preparação da sopa é o mesmo que achar que a faixa de Gaza é um fabuloso parquinho de diversões e que os radicais israelenses e palestinos vão, algum dia , no além, brincar de roda e cantar: ciranda-cirandinha-vamos-todos-cirandar. O mais provável é que eles cantemorgulhosos:atirei-NAPALM-no-gato-e-o-gato-se-espatifou.
   Nós, os brasileiros, vivemos num país com quatrocentos anos de experiência e cem anos de displicência, afora alguns românticos, sonhadores e iluministas que não temem se passar por bodes expiatórios. Somos tão incipientes na sopa de letras que até o prédio sede da Academia Brasileira de Letras- ABL, foi doado por franceses, esses, sim, verdadeiros mestres-cucas e eternos defensores das causas sociais.
   Mesmo o computador sendo artigo de luxo para um número esmagador de crianças em nosso país, ainda assim os campeões mundiais em invasão de sistemas de software de grandes empresas como a NASA são jovens brasileiros, denominados hackers. Outro recurso eletrônico que tem forçado os jovens a escrever mais é o e-mail, responsável por namoros e casamentos virtuais.
   Como a fome de saber é similar a fome orgânica, cada organismo tem as suas preferências alimentares. Há cozinheiros e consumidores vorazes. Para quem odeia sopa de letras, há opções como sopa de tijolos com cimento, sopa de fotografias, sopa de enfermagem, sopa de sexo... Eis os diferentes sabores do mundo!

Lecy Pereira Sousa, Presidente da Academia Contagense de Letras-ACL
cultcon@ieg.com.br

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