O prazer de beber uma Coca Cola no deserto do Arizona acabou: notas sobre os históricos retrocessos estadunidenses.

 

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por José Luiz Dutra de Toledo

 

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(...) "O mal do homem moderno consiste em fazer uma construção de espírito dentro da idéia de tempo. O espírito do homem moderno caracteriza-se sobretudo pelo cansaço que tem das pesquisas inúteis."
(Murilo Mendes, poeta de Minas Gerais, da Península Ibérica, do Rio de Janeiro
e da Itália e amigo de Ismael Nery).

   O século XX começou com a derrocada do plurissecular poderio inglês. O século XXI pode ter começado com um evento terrorista que anuncie ou consume o anunciado no desfecho da guerra do Vietnã: uma acelerada decadência e fragilização da força e da riqueza norte-americana!...Os Estados Unidos foram formados pelos puritanos que se contrapunham ao Império Britânico e acabaram na vala do mais grosseiro e rambônico imperialismo militarista e econômico, esquecidos do futuro da Civilização Ocidental que os tinha em sua liderança ou sobre a qual hegemonizavam na definição dos seus próximos e estratégicos passos.Constituídos e baseados em valores como os da liberdade individual e sobre as teorias de Adam Smith sobre a riqueza e a felicidade das nações, os estadunidenses nunca chegaram tão perto do totalitarismo antevisto por Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo e por George Orwell em 1984 ou do estatismo patriótico soviético- stalinista (combatido pelos yankees na Guerra-Fria de 1945 até 1990) e até da "guerra-santa" islâmica (guerra contra um "Mal" que nada mais é do que uma força que se lhes contraponha política e culturalmente).A pujança da terra do Tio Sam dá lugar a cenários e tramas trágicas, aos mendigos das suas grandes metrópoles, ao medo do futuro e do inesperado, ao pavor da peste e da guerra, à mais terrível solidão e desconfiança, ao abandono das comodidades de uma viagem aérea, à infantil compulsão na busca de uma companhia para a travessia das trevas da sua soturna e imperial noite. Os EUA caíram até numa catastrófica recessão econômica, processo que já se reflete nas relações internacionais e na globalização que orientavam em todo o mundo.Inicialmente motivados por questões de ordem espiritual e religiosa, os descendentes dos ingleses e dos irlandeses vieram a se embriagar na mais materialista e entediante onda de consumismo, pragmatismo e utilitarismo desumanizante e embrutecedor. Uma traição ou negação dos seus nortes primordiais?!...
   Gorilas gigantescos (símbolos da pura vida selvagem) escalam e tomam de assalto o Empire State Building estuprando uma alva e loura virgem americana. Nathaniel Hawthorne desmascara em A letra escarlate a hipocrisia americana e Herman Melville, em O vigarista e seus truques desvenda as desonestidades e espertezas dos descendentes dos puritanos construtores dos alicerces da sociedade estadunidense. Até hoje os Estados Unidos não abandonaram o cinematográfico sonho policialesco (que, mais tarde, traria o macartismo?) de se afirmarem como xerifes e mocinhos do far-west interminável que desencadearam em todas as latitudes de um mundo que não é só deles e do qual eles fazem parte. A rota americana pode estar sendo tão às cegas, tão burra e suicida quanto a dos kamikases e fundamentalistas de todas as longitudes. Não se trata de engrossar o coro dos histéricos anti-americanistas (apreciei vários sanduiches de peixe servidos no Mc Donalds da Plaza de la Constituición, de la Ciudad Vieja de Montevideo em Enero de 1999). Mas, sim, trata-se de clamar a favor da vida!...
  Sempre fomos levados a aplaudir (em matinês dominicais) a vitória dos mocinhos brancos e os massacres de peles-vermelhas, a delirarmos diante do massacre de índios condenados sem direito a defesa (princípio e fundamento do Estado Democrático Estadunidense).
   Uma nação que vivia intensamente o dinamismo e a movimentação babélica do cosmopolita american way life se vê em lance de cheque-mate, condenada à mais perplexa e terrível paralisia. Paralisada pela monstruosidade dos seus aliados de outrora e humilhada pelos que humilhou (em vão) em suas fronteiras. Uma potência impotente diante do terrorismo que inaugurou em Hiroshima e em Nagazaki (1945), distanciando-se , cada vez mais, do ideal romântico e capitalista de felicidade e cobrindo-se com a túnica negra do sentimento de culpa e da orfandade num mundo que lhe é crescentemente adverso e desconhecido em suas sinistras tramas e ódios. Uma megalomaníaca civilização aparentemente sem rumo e sem futuro e que a todos ameaça (como um bicho acuado) ou a todos promete vinganças. Numa cegueira trágica!... "Ou estão comigo ou estão contra mim. Eu sou o Bem e você é o Mal". Que absurdo!...
   Há vários anos eu li uma profética observação (não me lembro de qual escritor... acho até que foi do estadunidense Gore Vidal) na qual se analisava o sentimento nacional estadunidense como o de um povo que se via apartado do resto do mundo, como se constituísse sozinho aqui na Terra um outro mundo... como se fossem um feto de um novo ser, ou um tumor cancerígeno, um ovo de serpente, etc. Ou, talvez, uma esquizofrenia cultural a todos perigosa. Um falcão que descia dos céus ressuscitando o horror divino lançado no Velho Testamento sobre Sodoma e Gomorra, um dragão com a bandeira americana nas fuças abrigado em sua caverna lunar de sombras e auto-enganos suicidas!...

José Luiz Dutra de Toledo
nasceu em 22 de Dezembro  de 1951 em Tabuleiro - MG;
1976:Licenciado em História pela Univ. Federal de Juiz de Fora;
1990: Mestre em História pela UNESP- Franca/SP;
1992: Prêmio Clio da Academia Paulistana da História;
Professor e bibliotecário;
Colabora desde 1967 com jornais, suplementos culturais
e sites  literários de vários estados do Brasil; em Janeiro de
2000 proferiu palestras em Lisboa e na cidade do Porto
(para membros da ONG  Opus Gay) sobre a presença
homossexual na história e na literatura brasileiras;  Nunca
conseguiu editar nenhum de seus 35 livros inéditos e não
se dispõe a fazê-lo com seus próprios recursos.

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