A sagrada família

   José Luiz Dutra de Toledo

 

Na sala da minha casa tenho uma tela com temática bem caipira: a sagrada família. Sabe o que vemos nesta tela pintada em estilo bem acadêmico? Nela você verá uma galinha preta abrigando sob as suas asas os seus cinco pintinhos e , ao lado, um robusto galo vermelho (provavelmente o pai desta sagrada família). Os que lêem os meus escritos devem pensar que eu esteja construindo mais um estilo hard- radical, mas muito se enganam com tal pressuposição. Não passo de um conservador proustiano e flaubertiano que adora o cheiro de naftalinas e de Vick Vapo Rub e, ainda, coleciono relíquias e tesouros do passado e vejo a Contemporaneidade
com assombro pré-fúnebre,vejo o presente como um vasto salão para um efêmero baile de máscaras (caleidoscópicas) para as nossas frívolas diversões de náufragos no oceano atemporal da História. Diversões que nos desviem dos nossos fantasmas e pesadelos pós-morte. Nada além!... (17 e 18 de Junho de 2002). Cada vez mais recorro ao Websters. Será uma ferramenta indispensável aos sobreviventes deste nosso mundo, creio. (...) Acho também que todos nós que usamos a rede mundial de
computadores somos agentes da globalização. (...) Não existe nem existirá um salvador da Pátria e todos os tipos de Sassá Mutemas, mais dias menos dias, serão desmascarados e desmoralizados. (...) "Cem pessoas comuns podem ser substituídas pôr uma máquina, mas nenhuma máquina pode substituir uma pessoa criativa."(frase escrita atrás de uma poltrona do ônibus Presidente Dutra – Ribeirão Preto/ SP /Brasil). (...) "A arte não reproduz o visível, mas torna visível."(Paul Klee). Todo relato é uma interpretação. A interpretação nasce com a descrição. O cinema, à meia luz, é a janela do espírito de um tempo (não-hegeliano) no qual as imagens vigoram como portadoras de sentido, me diz Paulo Menezes. Que acrescenta: "...se queremos um mundo diferente, temos que perceber até onde vai a nossa capacidade de ver diferentemente as coisas que fazemos... de sermos diferentes do que sempre fomos e de agirmos diferentemente do que sempre fizemos até hoje. Confira: MENEZES, Paulo – À meia luz – Cinema e Sexualidade nos anos 70 – São Paulo – Editora 34 – 2001 – página 11. Fotografar é descrever penetrantemente. Sexualidade:
instância extrema e ilimitante do onthos humano. (...) Eu não sou tucano não!... Pra viver tão desprezado!... (...) Eu estou saturado com tanto estresse!... Estou entusiasmado em meio a tantas antiguidades!... Pedaços desconexos do passado se presentificam descontextuados. O tatuado fugiu. Imagens incessantes ocultam-nos os seus significados. Nada como um pequeno desastre para arrumar as coisas!... Indícios de paralelismos entre distintos universos faciais. Face to face: stand by me!... Seria possível esculpir o tempo? Sou um fotógrafo. Vivemos uma história perdida. Os significados devem sempre brotar de nós mesmos. Não basta saber para onde olhar. É necessário reinterpretar o que se olha."O pensamento se apresenta quando "ele" quer, e não quando "eu quero."" _ F. Nietzche. O tempo nos corrompe... O tempo se corrompe. Alguém me disse que tu amas novamente(...). Os udenistas (como os atuais partidos oposicionistas brasileiros) eram denuncistas. O Partido dos Trabalhadores adotou em muitos períodos o denuncismo como procedimento político parlamentar típico em sua atuação nacional, estadual e local e insistiram na instalação de inúmeras Comissões Parlamentares de Inquérito. CPIs para tudo!... Mas, quando se trata de investigar o que se passou ou o que ocorre em seus governos, os petistas reagem contra o denuncismo dos situacionistas Serristas!... Dá para entender uma coisa desta? (...) A intuição parece se processar antes do olhar, do ver. A coisa pode (ou não) confirmar a imagem. Pode ou não confirmar a sua veracidade. Um encontro real pode (ou não) confirmar o digitado e virtualmente desejado. O mundo pode ser uma sucessão de eventos emaranhados e de informações desconcatenadas, desordenadas, inapreensíveis e desencadeadoras deteleológicas convicções, visões, incertezas, dúvidas e mistérios. Uma superposição contínua de camadas, de expressões, de significados, de máscaras e de névoas, nuvens e eclipses. Luzes, paisagens, sombras, áreas ocultas, noites e imaginações. Um grande todo concomitante com um grande nada. Um calvário de nadas. Os indícios incontornáveis da ausência do "real" nos induz auma fome de imagens conceituais, constatáveis ou paradigmáticas. Vivemos em meio a uma aprofundante naturalização das imagens (no filme Blow- Up de Antonioni e em nosso mundo contemporâneo). Verdades não convincentes. Insistentes derrapadas.
Caminhos interruptos. Corrupções múltiplas. Infinitas elisões e erosões.
O fim da fronteira entre o "real" e o "imaginário". Comunicação não implica sempre em compreensão. Blow – Up é ampliar com nitidez a eclosão/explosão de um evento/ fato a nós oculto ou opaco ou pouco nítido. "Todas as guerras começam no imaginário."

(Paul Viríio).

 

 

Laranja mecânica.

 

A criação do novo pode ser também uma recriação do velho e o resgate ou a retomada do velho pode nos incitar a um outro tipo de reinvenção do futuro. As duas vias aqui supostas têm sido concomitantes na pós-modernidade. O futuro nunca destrói o passado. O lixo espalhado pelas nossas ruas e praças pode ser a expressão dos nossos conflitos ao longo dos nossos insatisfatórios processos de produção e de consumo. Bem como a revelação da nossa nostálgica incapacidade de lidar com os restos dos nossos passados.
Um imenso sutiã pendurado no corrimão da escada me relembra o relógio de Salvador Dali derretendo-se num varal estendido numa paisagem desértica. O passado como um painel de múltiplos e simultâneos tempos!... E as nossas paisagens e cenários trituram e misturam desconexamente coisas e lugares, tempos, mitos e significativos fragmentos afetivos de tempos e espaços. Como no filme Retratos da vida de Claude Lelouch!... O futuro como um engenho desdobrador caleidoscópico do presente observado por métodos cada vez mais aleatórios, caóticos, irônicos e perigosamente lúdicos. Um futuro do impreciso, do impretérito. Uma voragem violenta e ancestralmente violenta sempre nos sacudiu. Um estupro ao som de Singing in the Rain. A violência em si pela violência em si consuma uma bagunça ideológica global. A nódoa azul é a área de conversão do "real" em "imaginário" ou vice-versa. Uma forma de violência é mais questionável do que outra? Cristos nus dançam em uníssono, com seus punhos direitoslevantados e fechados, numa das paredes do meu apartamento hospitalar. Trombetas ecoam num quarto vazio. A seguir, cenas de uma tourada sexual e um forte cheiro de sebo bovino. Um seio materno pendurado num varal de um inesquecível quintal da minha infância. Um seio materno fofo, esponjoso e emborrachado. Ouçamos agora a Nona Sinfonia de Ludwig van Beethoven enquantomrevemos os aparatosos desfiles de Adolf Hitler e suas tropas. (...) A máquina de escrever renasce das cinzas, qual uma Fênix!... O potencial questionador (e violador/violento) das nossas sexualidades nunca angelicais me atordoa, me faz insaciável. Um pênis/punhal pode matar.

 

Morte em Veneza.

 

Uma obra de arte nasce de uma aflição divina. O pecaminoso alimenta a geniosidade. Deus é sutil e friamente cínico. O belo é demoníaco. Os grandes artistas são doentes e corrompidos. A aflição é uma situação criadora, uma contingência pré-estética e trágica!... "Eu herdei dois dos mais perigosos inimigos da humanidade: a tísica e a insanidade. Doença loucura e morte foram os anjos negros ao lado de meu berço."(Edward Munch – Words and Images - Londres – Thames and Hudson – 1989 – página 50).
Ouvindo a Quinta Sinfonia de Mahler começo a enxergar, no horizonte que volteia a baia de San Sebastian, na província basca, umantigo navio a vapor. Uma imensidão azul vem atrás deste lento navio e, nela, saímos do "real" e buscamos imagens que nos revelem a paisagem que o tempo esculpe além do crepúsculo, da discrição e da emoção que se consuma ao longo de um crepúsculoavermelhado e sem presságios, sem perspectivas. Por detrás das nuvens do entardecer a aflição terminal que precede meia existência de trevas, a metade arenosa e estéril de uma cronométrica ampulheta. Uma aflição que nos dá a sensação de uma lentidão universal tal que pensamos que nada se passa enquanto ocorre um big-bang!... O que não é inesgotável? Nostalgia é descrença no progresso e uma tentativa de enevoar o presente desencanto. Um encobrimento da realidade por uma fictícia e
seletiva reconstituição do passado. A nostalgia é uma dor que não passa, uma devastadora incerteza motivada pelos contornos efêmeros das atualidades. O cinema (no eterno retorno dos tempos, das cenas, dos eventos e das suas imagens e sonoridades) é, em si, uma arte nostálgica. Já o disse o cineasta russo Andrei Tarkovski (falecido nos anos 80 do século XX). Nostalgia também é a
mais profunda consciência da irreversibilidade e da nossa eterna condição de exilados no tempo e no espaço. Boemia, aqui me tens de regresso! E, suplicando, eu lhe peço a tua nobre atenção!... Nossa finitude torna concreta a transitoriedade radical de nossas vidas de exilados no tempo e no espaço. Nostalgia é a consciência sobre os contrastes entre tempos (passados/ presentes e futuros) e espaços (aqui, acolá, lá, além, aquém, antes, depois, em meio, etc.). Partindo, ficando ou voltando, nunca estamos livres da nostalgia. É a simultânea ausência e presença de um ser/ star/estar deslocado/ deslocada e ou paralelo/paralela aos fluxos,congestionamentos, impasses e acelerações existenciais e ontológicas. Inexoravelmente e sempre (como ocorre com as nossasinfâncias) perdemos nossas aldeias natais e caímos na irreversível condição de exilado. A terra natal, mais dias menos dias, vira terra estrangeira.
O que passou passou e o que fizemos está feito: tudo é irreversível e irrevogável.
Se olharmos para trás viramos estátuas de sal e nos fragmentamos em trilhões de partículas salgadas. A nostalgia nos dissolve melancolicamente. O exílio dentrode si mesmo é a própria melancolia "spleen" (falta de alegria de viver). Uma desnorteada errância. A barata/personagem principal da clássica novela Metamorfose de Franz Kafka. As galinhas são animais pré-históricos (como os lagartos, os dragões, os crocodilose os seres humanos). Às vezes vivo a certeza de que as almas dos meus amigos mortos pela SIDA/AIDS socorrem-me. São almas de santos mártires do mundo contemporâneo. Um amigo (vivo), psicólogo e poeta, sugeriu-me, às vésperas da partida final da Copa do Mundo 2002, que eu pintasse ou escrevesse em meus glúteos as seguintes palavras: "Brasil Campeão!". E um intelectual desconhecido disse há poucos dias na Tv Cultura paulistana que o uivo dos leões é o hino nacional dos leoninos, que o berro bovino é o hino pátrio dos bois e das vacas, que o coaxar dos sapos é o hino nacional destes antigos moradores de terras úmidas e pântanos e assim por diante. O que você acha desta tese crítica? (27 de Junho de 2002). A dúvida sobre a possibilidade do retorno, a incerteza de se conseguir voltar de uma viagem configura o tom patético de todas as partidas, não só da partida da frota de Vasco da Gama da praia do Rastelo!.. Mar e céu são igualmente (?) azuis e o azul é a cor da transição, do transporte e da passagem do "real" ao "imaginário" e vice-versa. Azuis como o infinito misterioso. O navio no horizonte não nos assinala se está chegando ou partindo. Falta de esperança, queda na vitalidade!... Caminhando ou prostrado ou passivo em relação ao vento, inativo, indiferente ou descrente de tudo e não dando mais crédito a ninguém, exilamo-nos em nós mesmos: "spleen"!... Que tudo corra como já está correndo, consciência da mais absoluta inutilidade e esterilidade de tudo e de todos!... Chegada e partida se confundem. Chegada e morte se confundem. Parto, partida, chegada, morte, nascimento e renascimento se misturam. Máscaras e paisagens e memórias vitais e mortais, falíveis!... Os velhos envergam maquiagens e máscaras de juventude e os jovens (apolíneos ou dionisíacos), na maioria das vezes, desprezam o futuro (a velhice) e só os jovens mais sábios já se aproximam das maquiagens e das fisionomias dos anciãos que mais tarde serão(?). Símbolos dos descompassos entre passado e presente e vice-versa. O passado maquiado de presente, o presente maquiado de futuro e. ao mesmo tempo, projetando-se como tradição, travestindo-se de passado histórico marcante e respeitável! Defasagens, descompassos e descentramentos mascarados atemporais e diacrônicos. Rumos, fados e destinos indesejados, involuntários, aleatórios, imprevisíveis ou desnorteados e...,tragicamente, irrevogáveis,irreversíveis!... Tramas traiçoeiras de nossas alienantes/alienadas biografias!... (27 de Junho de 2002). A glamourização e o fascínio da antigüidade,superfícies recobertas por pátina!... Gravata borboleta de seda branca em fundo negro de smoking!... Esperanças aparentemente desesperançadas!... Para Thomas Mann os nossos amores e desejos sensuais são alimentados em refeitórios de hotéis e até nos restaurantes de clínicas alpinas para tuberculosos. Escondendo-me dos outros posso estar escondendo-me de mim mesmo. "E não há em todo o mundo impureza tão impura quanto a velhice." (Thomas Mann/ Luchino Visconti). Nossas paixões se proliferam e, aomesmo tempo, nossos mundos se desmancham, se volatizam. O tempo é ardiloso e nunca mascarável. Nosso presente pode nos trazer a consciência da impossibilidade do futuro. Amor e morte se cruzam, se fundem na surpreendente esquina do presente com o futuro. (28 de Junho de 2002).

Último tango em Paris.

 

No trajeto entre a Comuna e a Praça de San Marco di Venecia cheguei à seguinte conclusão: no fundo de todo pensamento está a mediocridade. (...) Com a agenda cultural de Lisboa / Junho de 2002, os prospectos sobre a Feira do Livro da capital portuguesa, fotos e cartões postais dos picos de Europa, de Leon, de Bilbao, de Viana do Castelo, da foz do Minho (fronteira Espanha/Portugal), de Coimbra (com os recados e mensagens manuscritas do amigo lisboeta José Augusto, autor de renovadas promessas de visitas aos seus amigos e amigas brasileiros/brasileiras: que lhe seriam muito mais que cicerones e cesarones) me sinto cada vez mais ibérico e menos brasileiro. (28 de Junho de 2002). O passado tomado como uma tentativa de matar o presente. O novo, quase sempre, irrompe na interrupção ou no desvio dos fluxos de nossas vidas individuais. Várias vidas paralelas que teimam em se cruzar. Quem vive em segurança no nosso mundo? Nem em um prédio antigo, cheio de vidas passadas, pleno de memórias, com paredes marcadas por suas histórias e pelas vozes que entre elas soaram, palavras e imagens se confundindo em emoções e em
medos, nem aí nos sentimos seguros ou invulneráveis. Ao buscarmos exorcizar os pesadelos que tentamos desviar de nossos caminhos, nos tornamos os próprios pesadelos que sonhamos afugentar de nossas vidas!... Espaços cheios de passados muitas vezes são palcos shakespeareanos nos quais lutamos pelo esquecimento. Uma profunda atração pelo desconhecido. Cenas sempalavras, histórias sem histórias. Imprevisíveis relações profundas e cortantes (para não dizer traumáticas). Relações profundamente silenciosas. O túmulo do cachorro na casa de campo do pai de Jeanne, coronel do Exército francês morto em 1958 na guerra da Argélia. A vida é um filme que até hoje não havíamos assistido. Acusamos os outros quando estamos a acusar a nós mesmos. Cenas disparatadas e sem sentido entre túmulos de um cemitério às margens da rodovia que liga Lisboa a Madrid. Nos esbofeteamos e, depois, nos abraçamos. Em plena Copa do Mundo de Futebol 2002 as duas Coréias beiram à guerra!... Quanto mais portas nos abrimos, menos caminhos nos restam. Quanto mais brincamos em nossa piscina de memórias mais presente se faz o nosso oceano universal biográfico. O pasto é o país das vacas e, por elas, é fertilizado. (...) Memórias líquidas se esvaem por um ralo. Para tentar entender a história, Paul tenta deter o seu fluxo, ordenando que se feche a torneira aberta para lavar e escoar o
sangue borrifado na banheira e na parede azulejada durante o suicídio da sua mulher, Rosa. Como numa clássica novela de Gustave Flaubert (Um coração singelo) seu quarto é (como tudo em sua vida) sombrio e entulhado, repleto de incertezas coisificadas, livros para todos os lados, recortes de jornais, fotografias, pássaros e animais embalsamados, objetos litúrgicos, roupas íntimas, urinóis e vidros com coloridas águas de cheiro sobre armários cobertos com pedras de mármore cinzentas. Teias de aranha e um fetohumano boiando num vidro com formol na cabeceira de Rimbaud!... Somos o passado que avançou até agora e morreu quando este passado foi interrompido ou recebeu um ponto final. Nunca conseguimos esquecer o que vivemos nem os nossos nomes. "Sagrada Família, igreja de bons cidadãos!... As crianças são torturadas até mentirem. A vontade é quebrada pela repressão, a liberdade é assassinada pelo egoísmo, família... você...porra de família! Oh, Jesus! Oh, my God", diz Marlon Brando para Marie Schneider no filme Último tango em Paris . Sexo anal: sexo só por prazer: dor se confundindo com prazer sem masoquismo: negação de qualquer idéia de família. A aliança de ouro substituída pelo anel de couro. Os ingredientes presentes em nossas camas e mesas são limitados
ou distinguidos apenas por delimitações ou fonteiras morais. Se buscarmos uma fortaleza num outro (parceiro sexual) para nosesconder, nós nunca a encontraremos. Jeanne, obedecendo a Paul, corta as unhas de dois dedos de sua mão esquerda (do
indicador e do médio) e os introduz no ânus do seu amante. E Paul implora-lhe que providencie um porco que lhe fôda e – ao mesmo tempo - vomite em sua cara (e ele beberá e lamberá o vômito deste suíno!). E Jeanne, em 1972, promete cumprir os
desejos de Paul!... Último tango em Paris vai lançar seus ecos no cinema norte-americano: vejam os filmes Táxi Driver e À procura de Mister Good Bye. Oh, my God!... E Paul diz ao cadáver da sua esposa Rosa, defunta vestida de branco volteada por flores roxas estendida em sua cama de casal: "Sua puta de merda, barata, maldita, desgraçada! Espero que você apodreça no inferno junto com Lautréamont!... Você é a porca de rua mais imunda que qualquer um já viu em qualquer lugar! Vamos, sorria sua puta!" Glauber Rocha, no close que deu na cara do defunto Di Cavalcante, revela a influência deste filme de Bertolucci em sua cinematografia (película tida pela Censura como pornô!). Um close que a defunta Rosa (esposa do personagem Paul de Último tango em Paris)recebeu nesta violenta cena-clímax!... Um grande vazio constituía o tempo e o espaço nos quais Paul julgava situar todo o seu conhecimento e a sua presença na vida da sua morta Rosa, símbolo explícito e nominal do amor que perfuma e espinha, fere,sangra!... O passado de Paul e Rosa tornou-se eterno no presente relacionamento casual e pretensamente a-histórico com Jeanne!... E Paulo Menezes, em À meia luz - página 171, nos indaga: "_Se nunca se sabe de nada, para que tentarmos incessantemente saber alguma coisa?" (...) Paul cavou em Jeanne o vazio final que os separaria. O sexo como "um momento fundamental através do qual tudo se passa e a história se reencontra."(Cf. em: MENEZES, Paulo – obra citada – página 176). Naboca resta um gosto amargo trazido pela "aparente impossibilidade de construir algo de novo a partir de tantos velhos". (29 deJunho de 2002).

O império dos sentidos.

Ou Santa Ceia? Todo este texto (ensaio/resenha é dedicado ao amigo e poeta português José Augusto de Jesus Antunes, morador em Damaia, na grande Lisboa!).
Sexo, mutilação e morte? Kichi & Sada. Sem barreiras, sem nojo de sangue de mulher menstruada, sem qualquer constrangimento em receber na sua boca o fruto espermático do calor prazeroso do seu homem. Um banquete erótico. "Tudo o que fazemos, mesmo o mais simples ato de comer, tem de ser um ato de amor"(diz Sada). A vagina de Sada engole o ovo nela introduzido por Kichi. A vulva de Sada devolve o ovo pondo-o na boca de Kichi. Kichi faz sexo com a gueixa idosa que lá vai cantar para eles. A velha gueixa (des)falece de prazer no ato sexual com Kichi. Os três amantes (Kichi, Sada e a gueixa idosa) vivem uma mútua e crescente
excitação. Ao trepar com a gueixa cantora idosa, Kichi (ou imagina ou deseja) se vê mantendo uma relação incestuosa com a sua mãe. Sada & Kichi : um casal de amantes visto com nojo pelas empregadas que foram proibidas de limparem a cena em que se entrelaçavam ou porque tal casal se mostra insaciável? Avança e se fecha cada vez mais o fluxo atemporal deste ininterrupto banquete sexual aparentemente falocrático, mas, na verdade, falófago! Uma sexualidade viciante e anti-social? Num distanciamento galopante entre aqueles amantes e as instituições Família e Estado (militarista). Um suicídio em marcha erótica? Sada quer que o pênis de Kichi urine dentro da sua vagina. Sada vê autonomia física e ontológica na desenvoltura fálica do pênis de Kichi. Kichi diz que só quando consegue ir ao banheiro para mijar o seu pênis tem sossego e, por tanto querer dar prazer crescente a Sada, Kichi já não sabe mais se o seu pau é seu ou da sua voraz mulher. Kichi, assim, tem consciência de que está perdendo sua identidade. Kichi implora para que Sada faça com ele o que queira. Sada estrangula-o e decepa seu pênis e testículos. Em seguida, vaga sem rumo (como uma anti-Jocasta ou como um anti-Édipo?) até ser presa e, com a notoriedade e a repercussão do caso, tornar-se uma figura que goza popularidade no Japão pré-II Guerra Mundial (1936). Cena final do filme (sobre um fato "real"): paira sobre o casal estendido em seu futon enlameado pelo sangue de Kichi as seguintes palavras escritas com o próprio sangue do macho de Sada:"Kichi e Sada para sempre!..." Desde a aparição do mendigo sujo e impotente (no início do filme) até a castração de Kichi (no final) é colocado em questão " o próprio lugar do homem nas sociedades patriarcais". Um radical e fatal exílio da sexualidade e da
falocracia!... O jogador de futebol brasileiro Ronaldo, ao comemorar o Penta- Campeonato Mundial de Futebol em 30 de Junho de 2002, nos disse que preferia o Penta- Campeonato ao prazer sexual!... Sada & Kichi: um casal que exclui o sócio-econômico, o cultural e o político, numa radical e mortal desalienação! Sada vaga por três dias carregando, triunfante, consigo o pênis de Kichi. Para Nagisa Oshima, diretor de Império dos Sentidos , "os tabus advindos da visão santificada das relações sexuais monogâmicas foram quebrados neste filme." (Écrits 1956/1978 – página 324). The end.

 

Blade Runner
O social destrói o indivíduo pela repressão à sua sexualidade. E pela sua institucionalização. Nos filmes aqui já resenhados (de L. Visconti, de Bertolucci e de Nagisa Oshima) configura-se a impossibilidade de profundas transformações humanas, políticas e sociais? "A confiança na vida não existe mais, a própria vida torna-se problema."(Friedrich Nietzche). Robôs Nexus 6: a mais avançada tecnologia da nossa galáxia!... Outdoors eletrônicos ambulantes cruzam os céus da Metrópolis Los Angeles ano 2016.Animais sintéticos são cópias fiéis e indistinguíveis dos animais "naturais"!... Animais de mentira idênticos aos de verdade!... Uma densa névoa (iluminada ou opaca) cobre a megalópole repleta de edifícios com dezenas ou centenas de andares com elevadores que obedecem e identificam comandos vocais, com ruas apinhadas de gente, congestionadas por carros que correm horizontalmente e verticalmente (pousando com precisão no topo dos edifícios-torres). Apesar dos seus lentos ventiladores girando em espaços densamente poluídos (também pela fumaça exalada das bocas dos fumantes), apesar das inúmeras inovações tecnológicas (surpreendentes?)... Mundo padronizado, homogeneizado, não transformado pela tecnologia sofisticada difundida no cotidiano de uma sociedade dividida e hierarquizada entre humanos e seres replicantes (clones ou ciborgues)!... Uma névoa mortiça e pestilenta envolve todo o planeta, conformando uma sombria atmosfera. Uma incessante fumaça de cigarros sai pelas janelas dos edifícios, dos carros e dos rostos dos policiais e transeuntes anônimos e desencontrados que correm para todos os lados ao mesmo tempo. Bilhões de fumantes compulsivos!... Ruas entupidas ainda por todos os tipos de coisas e dejetos e velhos aparelhos eletro-eletrônicos, etc. Fumaças estranhas saem de buracos em todos os lugares. Papéis esvoaçam como aquelas chuvas que caem dos escritórios no último dia útil do ano!... O mundo virou um imenso lixão a céu aberto. " Hoje é o dia mais feliz da minha morte" me diz, sem mais nem menos, um pedestre. Um sol mortiço, não brilhante, mas ainda amarelo, perdido num céu cada vez mais dominado por uma sombria escuridão, me amedronta. Fotos: tempos paralisados. Tempos petrificados. Para distinguir os humanos dos seres replicantes/replicados temos olhos. Olhos: os centros das possibilidades!... O essencial está em saber ver, saber compreender aquilo que se vê. A vida não é só isto que se vê. É muito mais!... Relações entre tempos e imagens em movimento: holografias!... Cenas em câmera lenta. Engenheiros genéticos conversam numa fábrica de olhos!... Rostos com traços orientais e ocidentais. Japonesas louras e suecas havaianas aparecem no cartão postal. O mal do século é a precoce e inevitável falta de tempo. A criatura torna-se mais inteligente e ameaçadora que o seu criador. Homens do futuro dormindo em camas amplas em estilos medievais em quartos iluminados por velas e cheios de objetos, bustos e coisas desconexas. Sinal de perfeição é também sinal de limitação. Roy abaixa a cabeça sobre a qual Tyrell passa a sua mão expressando-lhe compaixão e consolo. Num mundo no qual tudo é enevoado e obscuro, onde as criaturas mortais matam os seus criadores, no qual as imagens se refletem e se desdobram não só nos espelhos, mas até nos outdoors das paredes externas dos edifícios, parece-nos não haver mais fronteiras entre o possível e o impossível. Somos aquilo que fomos e deixaremos de ser aquilo que ainda somos. As imagens não mentem?
Fotografias revelam relações entre tempo e memória. Sem passado e sem memória nós não temos identidade e nem história; sem passado e sem identidade nós não existimos. Blow up!... Implantes de memórias nos levam a ignorar que sejamos outros tipos de seres replicantes também (atônitos com tal condição como o ficavam os filhos adotivos quando seus pais afetivos lhes contavam quando e como os tinham adotado!). Solução tecnológica para tais dramas: a invenção de passados individuais cada vez mais densos e convincentes, a invenção de culturas e a criação de pseudo-tradições!... Minha mãe foge do seu passado ao se recusar a me ver com mais de meio século de existência!... Embolou o meio de campo da nossa história social. Uma luz azul e fria toma todos os nossos cenários. Um só grande jogo globaliza nossas existências banhadas por chuvas ácidas. A grande experiência é viver com medo. Ser escravo é viver sem saber em que dia se morrerá. Anunciaram-me que "é tempo de morrer" e eu ainda vivo!
Brincadeira!... Gargalhada geral!... Pirâmides egípcias, ruínas greco-romanas e ornamentos vertiginosamente barrocos em cenários futuristas de Los Angeles, Tókio e de Sidney! Degeneração precoce, curta esperança de vida e uma coceira insuportável que não se pode coçar!... Fungos e ácaros morrinhentos superpovoam a nossa deteriorada atmosfera. Todos os seres humanos de Blade Runner são sós. Só os replicantes formam uma grande família: aqueles que só têm quatro anos para viverem lutam, unidos, para viverem mais!... Os replicantes são e não são a um só tempo, shakespeareanamente. Os replicantes são exilados dentro de seus próprios corpos e montes aleatórios de imagens neles implantados como falsas memórias. Existências totalmente problemáticas!...
Tudo escorre por entre os nossos dedos. Teremos ao menos um futuro incerto? Um anti-conto de fadas pós-moderno em Blade Runner? Tornam-se plausíveis as uniões entre um amante vivo e um amante morto e até nesta situação, antes inusitada,
perspectivas de procriação entre estes cônjuges!... Vejam os clones, as inseminações artificiais e o filme Ghost. Admirável mundo novo!... Dissipando todas as certezas, mergulhamos no novo impensado (ou até então tido como improvável) e evitamos, assim, o the end. (1 de Julho de 2002).

 

 

Imagens reticentes.......

 

A vida se manifesta dentro e fora de nós, nos dizia Max Weber. Numa infinita variedade de eventos. Numa sucessão fluente, simultânea, caótica e acumulativa de fractais e nódoas significativas. Um mundo de múltiplos e desconexos vínculos a revelarem rupturas não assimiláveis: escritas hieroglíficas de experiências opacas irresgatáveis, esquecidas e que configuram mistérios matemáticos e musicais. O futuro do infinito é uma multiplicidade de indeterminações!... Nossas memórias involuntárias (ou proustianas ou benjaminianas) afloram de um tempo e de um espaço que julgávamos inexistentes. Nossas horas mais barulhentas não nos trazem eventos em si mais reveladores: estes ocorrem em nossos momentos mais silenciosos. O cinema é mais que uma indústria: é um útero enorme no qual coletivamente e individualmente possamos (ou não) problematizar o que somos e o quem estamos vindo a ser. A intimidade no anonimato e a estranheza entre os que nos sejam familiares. O mundo sempre será múltiplo?
Se Deus quiser o será! Risos. O tempo incessante e inexorável não é mais de Deus, virou dinheiro para os homens. Time is money.
O tempo incessante é uma abstração. Um tempo linear, homogêneo, escatológico, teleológico e, a um só tempo, dominado e dominador; quadrado e circular. O tempo de Deus virou mercadoria segmentada em relógios de ponto. O tempo configurado como trabalho vendável, jornada de trabalho semanal (de 32 ou de 40 horas). Bares 24 horas, saunas 24 horas, igrejas 24 horas, piscinas 24 horas e até banhos de mar à noite e de madrugada (com ou sem banhos de lua, com ou sem banhos de luz). Tudo ficou incessante, contínuo e nossos sonhos conectam nossas realidades e nossos imaginários. Nem dormindo paramos de pensar? Na Idade Média os relógios de sol (nas praças) marcavam as durações das feiras e os horários das missas, casamentos e enterros. Hoje temos farmácias 24 horas, funerárias 24 horas e é tempo de viver e de morrer, tudo a um só tempo!... Tempo incessante é progresso? O tempo, antes e depois de Freud, é psicológico, imensurável. Malhas temporais e existenciais vão nos mumificando. O escoamento perpétuo do tempo inunda maternidades, escolas, cinemas, restaurantes, nossas camas e nossos cemitérios. Nosso passado nunca é um livro aberto e o folheamos com a displicência metafísica dos anacoretas dos nossos tempos. Também por isso viramos colecionadores de relíquias, totens, souvenirs, animais empalhados, ferros velhos e antiguidades. E vivemos ruminandom cósmicos flash-backs, entulhos reciclados, lembranças de olhares atônitos congelados de prostitutas em cassinos de Las Vegas(Koyanisqatsi) e nunca dispensamos head-phones nos nossos ouvidos (insaciáveis sorvedouros de sons e músicas do passado).
Eunucos andróginos lançam a moda "unissex" e provocam a santa ira ou a perplexidade boquiaberta do filósofo/sociólogo marxista Lucien Goldman. Nosso universo neo-barroco tenta eliminar todos os vácuos e lacunas verbais ou textuais. Fazendo-me presente, reconfiguro meu passado e caio em pé no meu futuro possível. É impossível esquecer. Não podemos confundir cegueira ou surdez com esquecimento. O futuro se desdobra em ecos do passado, no zen presente e no anti-futuro do impossível. Heidegger enchia lingüiças ou dava formas acentuadamente fálicas às salsichas alemãs? Pinturas, palavras, imagens e textos formam um só todo nas obras de Francis Bacon, Jean Genet, Michel Foucault, Ionesco, Andy Warhol, Salvador Dali, Píer Paolo Pasolini, Wim Wenders, Ítalo Calvino, Luis Buñuel, Luchino Visconti, Jorge Luis Borges e José Lézama Lima!... Todos nós somos históricos portadores de significados. Todos nós, anônimos ou consagrados!... Até que ponto seríamos seres humanos da atualidade? O presente se nos apresenta como algo acabado? Digamos "não" ao the end hollywoodiano! Esquecer pode ser perdoar ou um jeito de se protelar o nosso fim. Esquecer pode ser também a conservação de injustiças e escravidões. (...) "Muito antes das forças especiais (e não assim tão especiais) estarem fisicamente treinadas para matar, queimar e interrogar, os seus espíritos e corpos já estão treinados para ver, ouvir, cheirar no outro não um ser humano, mas um animal (caça?) – animal contudo, sujeito a castigo total." – Herbert Marcuse – Um ensaio para a libertação – Lisboa – Bertrand – 1977 – página 102. Os internautas navegam numa tela de monitor cada vez mais limitada e menor (como no isolamento avassalante de Sada e Kichi em Império dos Sentidos). Aschenbach (personagem principal de Morte em Veneza) se "rejuvenesce", se dissolve e morre na praia em frente ao hotel em que se hospedava em Veneza!... Último tango em Paris ou a impossibilidade de se construir o novo sobre os escombros do velho? Ou um filme que nos indaga sem rodeios: qual a violência mais abatedora? A violência física ou a violência contra os nossos valores? Afinal, temos mesmo "valores" norteadores ou só arremedos de "valores"? Se aqui fizemos uso ou recorremos a palavras "inapropriadas" é porque defendo o irrestrito recurso às palavras (instrumentos lingüístico – culturais socialmente forjados) e não, simplesmente,reatualizamos academicamente os discursos das moralidades burguesas, tão pestilentos e nojentos quanto a Veneza empestada pela cólera asiática (cenário do conto de Thomas Mann filmado por Luchino Visconti) ou tão incômodo como o lixo que esvoaça em nossas ruas e calçadas e que não ocultam os nossos resistentes, lúcidos e malcheirosos mendigos (como o que aparece no início de Império dos sentidos ). Todos os filmes aqui recordados / revisitados e recortados têm a ver com o mundo pós – 1968 : o mundo das múltiplas diferenças e dos estranhamentos e encantamentos a nós proporcionados . Make love, not war! Abaixo a miséria sexual, abaixo a mediocridade intelectual, dê um chute na boca do estômago que você enche diariamente com os seus preconceitos comendo o ovo que saiu da vagina de Sada!... Estou sendo punk, ou hard? Radical? Goze aquelas inesquecíveis cócegas sexuais que experimentamos durante os nossos orgasmos! Hipocrisia é pobreza, a única e verdadeira e desprezível pobreza humana e este tipo de miséria pega, hem!... Viva sem culpa. E sem sermões e sem ler panfletos vulgares!... Nenhuma distância separa o que falamos do que fazemos e, de fato, pecamos por pensamentos, palavras, idéias, atos ou obras!... Amém!... Assim é o pecado total, que tal?

(1 de Julho de 2002).

José Luiz Dutra de Toledo, 50 anos e quase 7 meses; ama paternalmente suas cachorras Lanúcia, Zaragoza e Ursa; é Mestre em História pela Universidade Estadual Paulista – campus de Franca / Estado de São Paulo; Prêmio Clio – 1992 da Academia Paulistana de História; colabora desde 1967 com jornais, suplementos culturais e (desde 1998) com sites e home-pages
literárias de vários países; é professor; bibliotecário e divulgador / disseminador de hemerotecas na rede municipal de ensino de Ribeirão Preto/SP; cronista; ensaísta; ainda membro da equipe técnica da Secretaria Municipal da Educação de Ribeirão Preto /Estado de São Paulo ; em Janeiro de 2000 proferiu palestras sobre a presença homossexual na história e na literatura brasileiras
para os membros da ONG Opus Gay de Lisboa e do Porto (Portugal); nasceu em Tabuleiro- Minas Gerais/Brasil.

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