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Só aos sopros dos ventos sou favorável. Adoro ventanias.
Quanto mais vivo menos acredito na revolução popular ou na libertação de Sísifo. Assistindo ao desenrolar da história das procissões católicas e das passeatas das democracias ocidentais, vejo passar uma mulher descabelada e desesperada gritando, de uma das janelas de uma negra carruagem com frisos dourados , o seguinte: "Pelo amor de Deus, não me queimem viva!... Pelo amor de Deus, não me queimem viva!" . E , assim, incessantemente a gritar, ela enchia de pavor e comoção uma multidão atônita. Como diziam os velhos políticos – bacharéis da extinta União Democrática Nacional , o preço da liberdade é a eterna vigilância. Os nossos tempos não desmentem tal vaticínio. O terrorismo disseminou-se, alastrou-se entre todos os que estão a morrer neste planeta, tornando-se, a longo prazo, invencível. Nem Bush, nem Bat-Man nem Super-Man derrotariam-no. Bin Laden continua vivo e solto e Bin Laden talvez já seja milhões de incontroláveis vultos a nos causarem pressentimentos horrendos.
Saí com milhares de metros de uma mangueira a irrigar todas as árvores e arbustos das ruas e avenidas centrais de Belo Horizonte (uma vez desconectada da torneira da qual jorrava a água alguém a religava) até chegar , maravilhado, à praça de um shopping center na qual mais de uma dezena de rapazes com idades variantes entre 20 e 30 anos passeavam nus e descalços e, tão descontraidamente estavam que até mijavam nos canteiros e nos lagos com plantas ornamentais daquele paradisíaco centro comercial. Indo para lá e para cá, nos dirigiam olhares intensamente sensuais. Fiquei estonteado com tão excitante cena!
Eu preferiria que todas as vidas humanas se encerrassem ao som da música Because dos Beatles. Ainda fizemos muito pouco para codificar e mapear os discursos dos loucos. Lúúúúúciaaaaa, Fiat lux!.... Dôôôu...glass!!....
Escrever é um exercício não escolar nem dirigido aos escolares. Escrever é cantar, é gritar, é gemer, é chorar, é gozar, é vomitar, é cair, é lavar-se, é enlamear-se, é levantar-se, é passar-se a sujo, é espernear, é não tirar o cavalo da chuva, é estabelecer diálogos e rupturas ou interrupções entre o que julgamos que nos sejam interior e exterior (sem reflexos mecanicistas ou mecânicos), é descarregar o que nos sobrecarrega e, leves, e levitando, oferecer a Levi um banquete reconfortante. Homero, Virgílio, Dante Alighieri, Ovídio, Goethe, Novalis, William Blake, Nietzche, Samuel Beckett, Marcel Proust, Strindberg, Lautréamont, José Lézama Lima, Jorge Luis Borges, Y. Mishima, Ítalo Calvino, Fernando Pessoa, Miguel Torga, José Saramago, Miguel de Cervantes, Ibsen, Erasmo de Rotterdão, Rabelais, Góngora, Gilberto Freyre, São Jerônimo, Padre Antonio Vieira, João Guimarães Rosa, Mário Quintana, Voltaire, S. Freud, F. Kafka, Gustave Flaubert, W. Shakespeare, James Joyce ou Marguerite Duras, nenhum destes clássicos escreveu para escolares!... Cecília Meirelles escreveu não para escolares mas, sim, para os corações e as almas cerceadas dos estudantes. Raul Pompéia devassou a escola e não escreveu para escolares. Pensem nisto. A escola apenas tentou usurpar as obras destes clássicos. E pouco ou nada conseguindo!... Graças a Sócrates e a Sêneca!...
Protejam o meu pescoço, me dêem um seguro gorjal, please!... E para ocultar as minhas magras nádegas, forneçam-me um prateado e invejável redingote masculino. Assim, levitando novamente, chegarei aos céus e lhes verei lá do alto. Como um Dr. Fausto a voar!... Entre sucessivas e corrediças nuvens preguiçosas e efêmeras!... Ah!... Ah!.... Suspiro, expiro e chio como uma válvula de panela de pressão vaporizando a nossa casa com aquele cheiro de feijão. The End.

( Ribeirão Preto – SP - 2 de Fevereiro de 2002).

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