Senta que o
leão é manso


Jorge Fernando dos Santos*

 

   O Serviço de Proteção aos Animais vai ter que montar uma operação complicada para salvar a vida do leão do Imposto de Renda. Apesar do que as autoridades financeiras prometem, está cada vez mais difícil colocar na cadeia os grandes sonegadores da receita. Com isso, o pobre bichano está num regime de dar dó, igual àquele que o Jô Soares fez lá pelos idos dos 70, quando perdeu o peso e a graça.
    O referido leão foi mais feliz quando trabalhou para a Metro, época em que se alimentava de carne de primeira. Afinal, este era o royalty qe ele recebia para cada rugido registrado nas telas. No auge da fama, chegou a fazer ponta nos filmes de Tarzan e lutou com Victor Mature numa das melhores cenas de "Sansão e Dalila". Mas se um dia é da caça, o outro é do caçador. Lá se foram os tempos das vacas gordas e o jeito foi trabalhar como leão-de-chácara. A experiência durou pouco, pois o bom felino descobriu na prática que a função é melhor exercida pelos gorilas, que por isso mesmo detêm o monopólio no mercado de trabalho. A saída foi aceitar o emprego oferecido pela receita federal brasileira.
   No início, até que a profissão prometia muito. Tudo bem que, pela própria natureza, os felinos preferem carne vermelha. Mas,com a idade avançada, até que não seria tão mal trocar o prato predileto pela carne branca, levando-se em conta os perigos do colesterol. Com o passar dos anos, o leão foi ficando preguiçoso e subnutrido de tanto comer piabas. Afinal, o bicho descobriu o verdadeiro sentido da expressão "malha fina", rede apropriada para pegar peixes pequenos. Até porquê, tubarões e baleias geralmente são pegos no arpão. E, pelo jeito, a pontaria dos fiscais da receita não é lá essas coisas. Nem se compara à dos caçadores que durante muito tempo infernizaram os leões nos safaris da África.
   Assim, desde o dia em que trocou o glamour da Sétima Arte pela tarefa de engolir sonegadores brasileiros, o bicho vem perdendo o peso e a auto-estima. Pobre bichano, quem diria, acabou no divã do Dr. Carlos Alberto Jung, renomado psicanalista especializado em gazelas e peruas. A análise até que deu novo ânimo ao velho Leo, que chegou a solicitar transferência para o zoológico de BH. Ficou entusiasmado quando leu nos jornais que foram gastos R$ 200 mil na reforma da casa do Idi Amin. Ele também não descarta a possibilidade de pedir emprego à diretoria do Vila Nova, onde poderia servir de mascote.
   A fera com alma de bela continua enjaulada em Brasília, alimentando o desejo de devorar um sonegador bem gordo, de preferência algum banqueiro beneficiado pelo Proer, ou um desses latifundiários improdutivos, que insistem em contrariar os ensinamentos de Pero Vaz de Caminha; que já em 1500 percebeu que Brasil é uma terra em que se plantando tudo dá.
    Para alimentar a fé num futuro melhor, o bom bichano passa horas em devaneio, recordando o reinado de seus ancestrais na savana africana e o glorioso tempo em que seus semelhantes eram levados às arenas romanas para desespero dos cristãos e deleite dos imperadores. Agora, uma nova luz se acende no final do túnel. Se o Tigrão conseguiu fazer sucesso no hit parade, por que Leo não poderia mostrar suas garras de cantor? Mordido pela mosca do otimismo, passa horas ensaiando o "Leãozinho", antigo sucesso de Caetano Veloso. Com toda a sua generosidade; com a qual tem dado o maior apoio a pagodeiros, cantores de rap, duplas sertanejas e vendedores de pamonha; o bom baiano com certeza vai achar seu rugido divino e maravilhoso.


* Crônica publicada no jornal Estado de Minas, edição de 4 de fevereiro de 2001.

O autor teve crônicas adotadas nos vestibulares da UFMG e da Newton Paiva. Seu romance "Palmeira Seca", agora
adotado para uma minissérie da Rede Minas, também foi adotado em vestibulares da Uni-BH e do Supletivo do
Segundo Grau. Seu site é
www.jorgefernandosantos.hpg.com.br

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