Hemingway nos anos 20 


           

          Hemingway, o caçador de si mesmo

          Jorge Fernando dos Santos 

         
         

        Quase 40 anos depois de sua morte, Ernest Hemingway mostra-se mais 
      presente do que nunca no mundo das letras. Os 100 anos de seu nascimento, 
      comemorados em 21 de julho, foi notícia em vários países e resultou na 
      publicação de “True at First Light”, seu último original inédito. 
      Copidescado pelo filho Patrick, o livro foi lançado nos Estado Unidos com 
      grande estardalhaço da imprensa. Na verdade, trata-se de mais uma jogada 
      editorial que ocorre à revelia do escritor, que deixou inacabado o romance 
      autobriográfico. Outro lançamento motivado pela data é “Hemingway, The Final 
      Years”, no qual Michael Rynolds faz um balanço da vida do autor de “O Velho 
      e o Mar”. 
        Isso demonstra que Hemigway tornou-se um daqueles autores cuja obra se 
      mostra cada vez mais universal, na medida em que o tempo passa. Muitos 
      pensavam que o sucesso de seus livros estivesse necessariamente atrelado ao 
      seu exbicionismo machista e à sua capacidade de auto-promoção. O escritor 
      sobrevivera a nada menos que quatro casamentos e duas guerras mundiais, 
      tendo entre elas a Guerra Civil Espanhola, na qual serviu como 
      correspondente voluntário nas trincheiras republicanas. Chegou inclusive a 
      escrever e narrar um documentário sobre a causa, visando arrecadar fundos 
      para ajudar seus combatentes. Dessa experiência, escreveu “Por quem os sinos 
      dobram”, um dos mais importantes romances do século sobre os absurdos da 
      guerra e em favor da paz. 
               Não bastasse tudo isso, Hemingway era um grande bebedor e adépto 
      dos esportes radicais de sua época, como a tourada, o boxe, a pescaria e os 
      safáris na África. Dizia que passava boa parte do tempo atirando nas feras 
      para não ter que atirar em si mesmo. Quando percebeu que estava no fim, 
      sofrendo de paranóia, mergulhado numa profunda depressão e sob a suspeita de 
      estar sofrendo de câncer gástrico, enfiou na boca uma espingarda de caça e 
      detonou os miolos, no mês em que faria 62 anos. Sua morte ruidosa ecoou nos 
      quatro cantos do mundo e até hoje intriga os admiradores e estudiosos de sua 
      obra. 
        Mesmo que alguns críticos ainda tentem até hoje denegrir a imagem do autor 
      e desvalorizar seus contos e romances, o fato é que o velho “papa” firma-se 
      cada vez mais como um dos principais autores do século. Seu estilo seco e 
      preciso e sua técnica magistral, que despreza adjetivos e advérbios 
      procurando valorizar a ação do sujeito, influenciou escritores em todo o 
      mundo, alguns internacionalmente consagrados, como Norman Mailer e Gabriel 
      García Márquez. 

         Temas do cotidiano 
                 Ler um texto de Hemigway é mergulhar fundo nos conflitos mais 
      corriqueiros do ser humano. De temas simples do cotidiano, ele criou grandes 
      histórias, quase todas esculpidas com mãos de mestre na solidez das 
      palavras. Sua arte consistia em mostrar apenas a ponta do iceberg, deixando 
      sob a superfície da narrativa três quartos da trama. Na verdade, em seus 
      contos e romances o que importa muitas vezes é o subtexto, aquilo que está 
      presente de maneira sutil e subjetiva. Assim, no conto “Colinas feito 
      elefantes brancos”, um casal sentado à mesa de um bar discute sobre o aborto 
      sem que essa palavra apareça em nenhum momento do texto. De maneira 
      parecida, enquanto a grangrena devora sua perna, o protagonista de “As Neves 
      do Kilimanjaro” mira o monte à sua frente como quem observa o vazio da 
      própria existência. 
        Já nos seus primeiros textos, Hemingway demonstrou o caminho que iria 
      trilhar ao longo da carreira. Expoente da chamada “geração perdida”, 
      destacava-se ao lado de outros escritores americanos que moravam em Paris 
      nos anos 20, como Scott Fitzgerald, John dos Passos e Ford Madox Ford, 
      dividindo-se entre os grupos de Gertrude Stein e Ezra Pound. Ao lado de 
      William Faulkner, não demoraria a se firmar como um dos grandes herdeiros da 
      tradição romanesca da América. No entanto, ao contrário deste, ambientaria 
      suas principais histórias longe do seu país. Foi o caso dos dois primeiros 
      romances, “O sol também se levanta” e “Adeus às Armas”, este inspirado numa 
      paixão frustrada que vivera enquanto se recuperava dos ferimentos de guerra. 
      Ambos não tardariam a virar best sellers, sendo logo adaptados para o 
      cinema. 
        Aliás, Hemigway foi com certeza o autor norte-americano que mais despertou 
      o interesse de Hollywood. Seus diálogos enxutos e a nitidez psicológica de 
      suas personagens encantavam os diretores e o sucesso de seus livros eram o 
      argumento necessário para sensibilizar os produtores de plantão. Assim, 
      foram várias as versões de seus livros a povoarem as telas do cinema. “Adeus 
      às Armas” foi filmado três vezes e “O Velho e o Mar” ganhou duas versões, a 
      exemplo do conto “Os Assassinos”. Os elencos eram sempre de primeira, 
      destacando-se nomes como Gary Cooper e Ingrid Bergman em “Por quem os sinos 
      dobram”; Gary Cooper e Rock Hudson, respectivamente nas duas primeiras 
      versões de “Adeus às Armas”; Spencer Trayce e Anthony Quinn como o pescador 
      Santiago de “O Velho e o Mar”, filmado duas vezes; Tyrone Power e Ava 
      Gardner em “O sol também se levanta”; Ava e Gregory Peck em “As Neves do 
      Kilimanjaro”. Consta inclusive que Humphrey Bogart e Lauren Bacall se 
      apaixonoram durante as tomadas de “Ter e não Ter”, ou “Uma Aventura na 
      Martinica”. 
         Confrontos existenciais 
        E Hemingway foi autor de grandes confrontos existenciais. Em “O sol também 
      se levanta” o par romântico não poderia ser melhor: um impotente mutilado de 
      guerra e uma ninfomaníaca vivem uma paixão impossível. Em “Adeus às Armas” 
      um desertor proclama a paz em separado e foge da guerra com sua amada. Só 
      que ela morre no parto e ele percebe que o destino é mais forte que os 
      homens. Em “O sol também se levanta” Robert Jordan apaixona-se por uma jovem 
      guerrilheira a quem dará a própria vida. Em “O Velho e o Mar”, Santiago 
      tenta provar a si mesmo e ao mundo inteiro que ainda é capaz de enfrentar o 
      mar e pescar um enorme peixe espada. Sua batalha contra os tubarões e a 
      precisão de seus monólogos deram ao autor o prêmio Pulitzer e o Nobel de 
      Literatura. 
        O escritor criava também cenas inusitadas e muitas vezes chocantes, como 
      aquela do romance “As Verdes Colinas da África”, em que o protagonista 
      descreve uma hiena ferida que devora o próprio intestino enquanto agoniza. 
      Em “Morte na Tarde”, quando ele narra uma corrida de touros, dá ao seu 
      leitor a sensação de estar vendo a arena à sua frente, com o touro e o 
      toureiro bailando a dança da morte. Assim, sua narrativa sobre a savana após 
      a passagem de um bando de babuínos enfurecidos pode trazer às nossas narinas 
      o cheiro horrível daqueles primos distantes da raça humana. O mesmo se 
      aplica à descrição de um campo de batalha dois dias depois da luta, com os 
      cadáveres inchando ao sol, com as algibeiras reviradas pelo inimigo que já 
      se foi. 
        Por essas e outras, Ernest Hemingway se fez um imortal. Um dos grandes 
      vultos do século XX, um escritor que certamente será lembrado daqui a outros 
      100 anos, ao lado, por exemplo, do irlandês James Joyce, de quem foi vizinho 
      quando morou em Paris pela primeira vez. E quando algum crítico afobado ou 
      presunçoso baixar a lenha no mestre por uma publicação póstuma certamente 
      desautorizada, é bom saber que nem mesmo o rugido dos leões será capaz de 
      silenciar os sinos que hoje dobram por ele. 

        Jorge Fernando dos Santos é jornalista, escritor e compositor.
      Trabalha no jornal Estado de Minas como editor do Núcleo de Revistas e
      Suplementos. Publicou 18 livros, entre eles "Palmeira Seca" (Prêmio Guimarães Rosa),
      adaptado para teatro e minissérie pela Rede Minas. Deste trabalho resultou uma trilha
      sonora em parceria com Chico Lobo e Valter Braga. Também porduziu o CD "Belôricéia",
      que reúne parcerias com Angelo Pinho e Clésio Vargas na voz de Helena Penna e
      convidados. Seu site na internet é www.jorgefernandosantos.hpg.com.br

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