COMPANHIA
DOS CONTOS

Joaquim
Branco

   Sem Machado de Assis a literatura brasileira não seria a mesma, ou simplesmente estaria bem empobrecida. Esta é a primeira impressão que me ficou ao avaliar a obra Contos: uma antologia, organizada pelo brasilianista John Gledson para a Companhia das Letras, dois volumes.
É a importância de um grande autor brasileiro avalizada por um especialista inglês, que aqui veio pesquisar e voltou com a bateia cheia: o resultado foi um acervo considerável composto por um estudo introdutório de peso, uma seleção de 75 contos de Machado de Assis, mais uma série de notas explicativas, nota bibliográfica sobre todos os contos e um apêndice final.
Mais do que uma antologia, a obra mostra um imenso painel de um gênero considerado até bem pouco tempo menor – o conto –, mas que na modernidade veio a se tornar grandioso nas mãos de Borges, Kafka ou Hemingway, e já o era com Machado de Assis.
Das resenhas publicadas sobre o livro na imprensa literária, a que me pareceu mais acertada foi a de Léo Schlafman, no suplemento Idéias do JB de 12.12.98. Nela, o crítico, que chama Machado de O mestre do conto, procura ângulos diferentes do pensamento machadiano por meio de exemplos tirados de cada conto ou de cada conjunto de contos que reúnem fundamentos semelhantes, tanto no plano literário como no filosófico ou social.
Aos olhos de quem se propõe a analisar os contos de M. de A., na verdade, abre-se um mundo de arte e humanidade tão rico que a lembrança de algumas críticas a sua obra vai se desfazendo como ilusões mal distinguidas na distância. E se firma e afirma sua poderosa literatura que já era moderna até na escolha do gênero, esse retalho tão bem forjado na rapidez do fragmento que é o conto.
E aí é que ele se coloca além da escola literária do final do século XIX – o Realismo –, puxando pelo psicológico (aprofundamento do personagem), procurando o leitor para conversar (metalinguagem), trazendo mais e mais o humor e a ironia para a literatura. Mais do que isso, questionando a linguagem dentro da própria linguagem para proporcionar ao texto uma liberdade de ser de que não usufruíra antes, para depois chegar até a produzir a crítica aos passadiços e contemporâneos na fala dos próprios personagens que criava.
No aspecto participante, em que recebeu as críticas mais fortes – acusado de elitista, "estrangeiro", apolítico – (e até hoje um e outro voltam à carga), não é preciso ser um observador muito arguto para entender-lhe a preocupação com o social, que mais uma vez está mais nas entrelinhas e nos recursos e situações enviezados.
Lembre-se com o professor José Carlos Azeredo o conto Pai contra mãe, de clara intenção de tocar no problema racial, ou a novela O alienista, cuja mordacidade procura atingir nossa "imaturidade política" que nos torna "candidatos à tirania", conforme acentua Léo Schlafman.
Há inúmeros outros exemplos, todos sutis ou indiretos – estilo ou jeito machadiano – que passam por temas atuais, entre eles o feminismo, em que Machado de Assis se posiciona, ainda que à sua maneira.
Nestes tempos de leituras de auto-ajuda, o leitor poderia se ajudar muito mais e se surpreender (tenho certeza) se resolver ler esta antologia de contos de Machado de Assis, e chegar junto com ele à mesma conclusão, como na estória Singular ocorrência:
"Não inventei nada, é a realidade pura".

(•) Joaquim Branco – escritor, professor de Literatura Brasileira na Faculdade de Letras de Cataguases e Mestre em Literatura pelo CES-Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora.

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