por  LUIZ  EDMUNDO  ALVES     

Glauber era um sertanejo de Vitória da Conquista. De alma cosmopolita, mas ainda assim um sertanejo, que só desejou reinventar, sob sua ótica singular, esse  universo do sertão.  E o sertão sempre teve um rico imaginário,  cenário   dentro  do  qual  se torna possível   qualquer  idéia  de  criação  artística: a alma sertaneja é aqui o mote, alma simultaneamente revolucionária,  patética, eloquente, emblemática da confusão intelectual e política que sempre esteve no centro da obra  de Glauber:  "minha alma deseja  a  revolução   e  minhas  mãos  trabalham  para  a  revolução.   Porém  o  que é revolução  ?  Uma  revolução   é  a  mudança  total  das  leis  naturais  e   sociais. Uma revolução só pode se realizar quando a morte vence a vida,   porém ao mesmo tempo a morte é  o nada e o nada é contra-revolucionário".
  Vitória  da Conquista  é a  porta de entrada  desse   universo,  naquela  época ainda povoado por estórias (ou fábulas?) de jagunços,  metáforas, amores, paixão, famílias, terra e morte.  Lá Glauber   viveu sua infância,  talvez aí o  motivo pelo qual o Sertão nunca foi deserto em seus filmes, mais que  lugar  ou espaço físico o Sertão é personagem. Ele sempre encontrou uma metáfora para representar a alma sertaneja.Se dizia metafórico  e Barroco, era  cósmico,  genial.  Foi     precursor de uma nova linguagem cinematográfica, pontuada por   aspectos bastante originais, a começar  pelo lema que até hoje gera polêmica:  "uma idéia na cabeça e  uma câmera na mão" ou   "a imagem, rigorasamente, deve ser um vocábulo, e o cineasta deve escrever com imagens".
Glauber criou  uma  linguagem-limite, fruto  da independência criativa do cineasta-artista, vindo de um país de terceiro-mundo, de uma província econômicamente paupérrima porém rica em imaginação e mitologia. Recusou-se a representar simplesmente essa mitologia dita sertaneja,  quis sempre encontrar nela uma forma de expressar sua revolta e com isso contaminar a todos com ela.                Glauber não foi jamais uma personalidade simples, ao contrário, era um ser complexo, de visão multifacetada, como sua obra nunca foi simples, de fácil compreensão.
Para entender e gostar de seus filmes faz-se necessário conhecer certos aspectos e contextos da cultura brasileira. Quais forças culturais permitiram que seu trabalho fosse reconhecido, ganhando prêmios internacionais e se tornando uma das mais importantes figuras intelectuais da cultura brasileira dos anos 60 e 70 ?    Qual conjutura instrumentalizou Glauber ?
  Não tenho dúvidas de que muito da importância da obra de Glauber pode ser creditada à sua eloquência verbal e sua irrefreável vocação para discutir os temas que lhe eram caros: a cultura brasileira, o Cinema Novo, a violência, o amor, a felicidade, o povo a democracia, a Arte e ele próprio. Quem quiser conhecer melhor a vida conturbada e fascinante de Glauber deve ler GLAUBER, ESSE VULCÃO de João Carlos Teixeira Gomes, da Ed. Nova Fronteira. O livro, apesar de certos empolamentos de linguagem e excessos de descrições, é a mais completa e abrangente biografia do cineasta.
  O autor foi  grande amigo de Glauber desde a adolescência em Salvador, consagrando-se como jornalista e importante biógrafo de Gregório de Matos. Fez um impressionante rastreamento dos passos de Glauber, um viajante contumaz, por todo o mundo. Glauber viveu em Cuba, na Itália, na França, sempre envolvido em projetos cinematográficos, jornalismo e polêmicas. Tornou-se famosíssimo antes mesmo dos vinte e cinco anos, sendo "endeusado" na Europa por críticos do quilate de Alberto Morávia e Raquel Gerber.  O livro é farto em ilustrações, com belas fotos e toca em assuntos delicados  como a desestruturação psiquíca e emocional dos últimos anos, as decepções profissionais, as paixões e o problema das drogas. Glauber, Esse Vulcão merece  figurar na lista das mais importantes biografias escritas no Brasil na década de 90. A seguir algumas frases que revelam um pouco a personalidade de Glauber Rocha, um sertanejo de Vitória da Conquista: