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O PAPEL  DO
E S C R I T O R


por  Gabriel Perissé

Há escritores para todos os papéis e papéis para todos os escritores.
Há escritores que interpretam um papel e, por outro lado, papéis em
branco, sem escritores.
Há o papel carbono, que é o papel do escritor que se repete a vida inteira.
O papel moeda, que é o papel do escritor que só escreve por dinheiro.
O papel reciclado, que é o papel do escritor politicamente correto.
O papel bíblia, que é o papel do escritor cheio de boas intenções.
O papel de embrulho, que é o papel do escritor que só serve para enrolar.
O papel jornal, que é o papel do escritor voltado para o cotidiano.
O papel manteiga, que é o papel do escritor impermeável.
O papel rascunho, que é o papel do escritor inseguro.
O papel pergaminho, que é o papel do escritor erudito.
O papel de parede, que é o papel do escritor que só serve para
decoração.
O papel higiênico, que é o papel do escritor que só escreve porcaria.
O papel vegetal, que é o papel do escritor plagiador.
O papel vergê, que é o papel do escritor que só escreve para uma elite.
O papel madeira, que é o papel do escritor que constrói o seu texto.
O papel usado, que é o papel do escritor pobre.
O papel telado, que é o papel do escritor censurado.
O papel de palhaço... que dispensa explicações.
O papel de palha, que é o papel do escritor que desiste logo.
O papel papelote, que é o papel do escritor que precisa se drogar para
produzir.
O papel almaço, que é o papel do escritor burocrático.
O papel crepom, que é o papel do escritor que vive num mar de rosas.
O papelão, que é o papel do escritor que enfia os pés pelas mãos.
Como podemos ver, nessa papelaria, cada escritor compra e vive um
papel.
O papel anda caro, e o escritor anda em busca de um novo papel.
O escritor guarda muitos dos seus papéis na gaveta, à espera de um papel
chamado contrato com o editor.
O escritor usa lenço de papel para chorar seus textos.
O escritor e seu papel (deserto, horizonte e espelho) se olham, com
carinho, ódio e esperança.
O papel da impressora acabou.
É preciso encontrar mais papel.
O escritor, catador de um papel.
O seu verdadeiro papel neste mundo

Gabriel Perissé  ( perisse@uol.com.br )
    Mestre em Literatura Brasileira (USP)
    Criador da Escola de Escritores (www.escoladeescritores.org.br)

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