resenha

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Fernando Py comenta
Sumidouro das Almas
Romance de Jorge Fernando dos Santos


Em 1991, ao escrever sobre o romance de estréia do mineiro Jorge Fernando dos Santos, Palmeira seca, encareci dois aspectos, entre outros: a linguagem seca e despojada da narrativa, bastante eficiente, e a cronia misturada da trama, que não se assentava numa cronologia linear. Esses dois tópicos, que o autor cultivava de modo essencialmente funcional, sustentavam o interesse da narrativa, que ganhava muito em estrutura e eficácia.

Pois bem, no seu segundo romance, Sumidouro das Almas (Rio e Janeiro: Ciência Moderna, 2003), tais aspectos acham-se presentes, devidamente dosados, e a narrativa ganha bastante não só com as idas e vindas no tempo, como a linguagem direta, enxuta e exata do texto confere altura maior ao que é contado.

Pois Jorge Fernando dos Santos vem se revelando um grande contador de histórias, na esteira dos nossos grandes narradores, como um Érico Veríssimo, um João Guimarães Rosa, um José J. Veiga, um Autran Dourado, um Graciliano Ramos. Saber contar é uma virtude fundamental para o romancista.

 Na presente narrativa, temos um jovem, Faustino, que sai pelo mundo para vingar o assassinato de seu melhor amigo, faz uma espécie de pacto com o diabo (não se chamasse Faustino, como o velho personagem de Goethe), envolve-se em casos de violência, grilagem de terras, sexo, etc., enfrenta os mais variados obstáculos até alcançar seu objetivo. A estrutura da narrativa é pontilhada por descontinuidades temporais, que respondem pela eficácia e interesse da trama, e alicerçada por capítulos intercalados com o título de "Cordéis da memória". Estes são como que explicações de certos acontecimentos do passado, ou até pequenos retratos psicológicos de personagens, no sentido de dar-lhes um relevo maior, funcionando como flash-backs da narrativa.

E aqui nota-se outra característica da ficção de Jorge Fernando dos Santos: a linguagem cinematográfica, aliada, no caso, a uma grande economia de estilo, que é direto, fluindo com a simplicidade enganadora de um Machado de Assis, p. ex. Temos, portanto, um grande romancista que ainda poderá ser um dos nossos maiores no ramo. Esperemos.

. Do mesmo autor: Todo mundo é filho da mãe (Rio e Janeiro: Ciência Moderna, 2002). São crônicas selecionadas entre as muitas publicadas no periódico Estado de Minas; distinguem-se pelo humor prazenteiro e um lirismo matizado por uma visão crítica com um tanto de sarcasmo e ironia. Vale.

 

Fernando Py, critico de literatura e poeta
fernanpy@bol.com.br

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