Euclides das Cunha e Guimarães Rosa - reprodução

GUIMARÃES ROSA  E EUCLIDES DA CUNHA:
O inumerável coração das margens
Fábio Lucas

   Em ambos, Guimarães Rosa e Euclides da Cunha, o que 
 solicita  existência  e  é duradouro está à  margem. O que 
 move e flui está no rio; silencia e desaparece.

  Para Marisa Lajolo, Regina Zilberman, 
Walnice Nogueira Galvão e Ivana Versiani dos Anjos 

A ficção , como produto acabado da modernidade, epopéia da classe burguesa no dizer de Hegel , se cristalizou a poder de muitas convenções.
Uma das mais persistentes tende a glorificar as mudanças do homo viator,  pois essa noção , segundo Gabriel Marcel , visa a introduzir nos assuntos  humanos um elemento de desordem , um princípio de desmesura e desarmonia (ef. Homo viator, Prolégomenes a une Métaphisyque de I’ Espérance.Paris, Éditions Montaigne ,1944 , p. 6 ). A idéia de viagem traz em si determinações que pertencem tanto ao tempo quanto ao espaço e , sob esse aspecto, "seréser em rota " (ob. cit.p.8 ). Tal é o espírito daquela obra que é apontada como a mãe de todas as ficções modernas : Dom Quixote de la Mancha. Nas priscas eras da literatura ocidenal , quando, ainda, a prosa não havia se desgarrado da poesia, imperaram as histórias de Homero. O que inspirou ao surealista Raymond Queneau  a síntese audeciosa : Toda narrativa ou é uma Ilíada ou uma Odisséia . Ao que alguém, trocando em miúdos a culta fala , arrematou : toda narrativa é o relato  de uma saída, ou de umachegada. Guimarães Rosa, ao mesmo tempo criador e estuário de muitas culturas, deixou nas suas inumeráveis estórias, as pegadas do homem em curso , do andarilho, conforme despacho de sua personagem : "só estava entretido na idéia dos lugares dre saída e de chegada ". E, como corolário, divulga : "Assaz o senhor sabe : a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda e num ponto muito mais em baixo, bem diverso do que em primeirop se pensou ".
É o que se colhe em Grande Sertão : Veredas. Um dia, Guimarães Rosa glosou um paradoxo poético : a terceira margem do rio. Uma proposta metafísica, a Sexta entre as Primeiras Estórias, aguela
prodigiosa invenção do pai que, de caso pensado, se instala num barco, seinsula, e vagueia sobre as águas, sem tempo nem  rumo,
para cumprir uma sina , atado apenas à humana condição pela lealdade e dedicação do filho . Teria mãe ou avó, ou mesmo parente afim, aquela estória ?
Aquele estudo de rio, margem, destino e desespero ?
Diz-se , a literatura , que os textos todos, bons ou maus, são filhos de
outros textos adormecidos, a faina criadora consistindo em  dar forma
ao que jaz no inconsiente ?
De " margens " a consciência coletiva brasileira está pojada.
Basta,  por exemplo, içar o primeiro verso do hino nacional, tópico do
aprendizado nas primeiras letras: margens plácidas.
E Euclides da Cunha, sempre genial no emprego da palavra  escrita,
escolheu ema À Margem da História parcela de episódios vivenciados
no Amazonas, dando ficção à História, ou simplesmente calcando as
reminiscências de leituras no chão diegético.
À margem da História Realismo literário ou História fantasiada, como
denominar aquela literatura baseada nos fatos ?
"À margem " pressupõe um leito e um curso de rio histórico.
A  metáfora se colhe mo primeiro braço da correnteza.
O gesto metonímico conduz à margem inexistente, ideal, imaginada e
consagrada no ímpeto da metamorfose.
Um descompromisso com a História, leito principal ? Estoriação da
História ? Ou simples líbido do texto, o histórico para recanto das
estórias ?
O Amazonas é, antes de tudo, paisagem . Como tal, insuperável, ransbordante de todas as definições . Amplo espaço . E ali, no meio,
o rio, tempo travestido .Cai-se novamente no campo eletrizante das
metáforas/metonímiads: o transbordamento das definições, vício da
antropormorfização da linguagem .
Aqui vem, do leito do Amazonas, estoriado por Euclides da Cunha,
o vulto de um relato singular, avoengo de " A terceira margem do rio" :
"Judas/Asvero".
O artista sem margens, Euclides da Cunha, juntou no título duas
personagens trágicas da tradição cristã-judáica .
Símbolo da máxima individualidade e solidão do homem . Ao primeiro,
se lhe entregou o papel de trair o Deus-homem . Ao segundo, a sina de
vagar sem pátria, sem margem, andarilho de destino incerto e não
sabido. Leia-se "Judas/Avero " e se pense Guimarães Rosa. Lá, também, está o criador sem fronteira ,a expressão ímpar para a
percepção aguda da tragédia humana . A crispação do gesto crítico , incoformismo com a mesmice repetitiva .
Tem "margem" , mas a "terceira" . E tem "História",   transubstantiva em
"estória ", substantivo comum.
Escrever no estilo de Guimarães Rosa tornou-se tarefa apetecível.
Dois dos melhores escritores da comunidade dos países de língua
portuguesa , um , o poeta brasileiro Manoel de Barros, e o outro,
prosador moçambicano, Mia Couto, deixam à mostra o parentesco
verbal.
Certa vez, em 1975, na University of Winsconsi, Madison, tomamos os
dois melhores estudantes e apresentamos-lhes dois contos brasileiros,
bem típicos : "Desempenho " de Rubem Fonseca e "O famigerado" de
Guimarães Rosa (Primeiras Estórias) . E solicitamos a uma , Shelley
C. Slotin : escreva "Desempenho" no estilo de Guimarães Rosa .
E ao outro, Alexandre Caskey, demandamos redigisse "O famigerado
" no jargão de Rubem Fonseca. O desempenho de ambos foi acima do
esperado . Serviram-nos, os textos, para extrair fundamentos sobre
intertextualidade. E os divulgamos na revista belorizontina Inéditos
(nº 4 , nov/dez. 1976).
É mais fácil, vê-se, lidar com autores de timbre exclusivo.
Antigamente, preocupava-se muito com o "estilo" do escritor. Dizia-se,
por exemplo, Otávio de Faria é bom, mas não tem estilo .
E Joaquim  Nabuco se celebrou por apelidar de "cipó" o estilo de Euclides da Cunha.
Em 1922 , o ensaísta inglês J. Middleton Murry escreveu The problem
of style, tema da época . Hoje, o jornalismo procura o texto neutro, sem
estilo, massificador. O que entra em "mídia" tem que ser incolor,
impessoal e insípido. Euclides e Rosa, que marcas coruscantes de
estilo! Quem ler  "Judas/Avero", sem muito esforço poderá vislumbrar o
inconfundível vôo de Guimarães Rosa sobre a floresta amazônica.
E ao tresler, de volta,  "A terceira margem do rio ", sentirá , rente , as
imagens rústicas de vários judas descendo o rio, sob a saraivada de
tiros, pedras e implecações dos seringueiros infortunados ressentidos,
a cumprir na vingança virtual seu protesto contra a miserável condição
humana .
O Sábado em que se imola o Judas presta-se "à divinização da
vingança ", conforme preceitua Euclides da Cunha .
Do hino brasileiro colhem-se "margens plácidas " ao primeiro verso .
Das margens de "Judas/Avero" explodem gritos , farpas e maldições .
Os sertanejos , enganados pelos traficantes e pela vasqueira vida , desforram-se do Judas no protesto imemorial , alvo de todas as frustações .
Bertolt Brecht , em poema , conduziu a idéia de que falamos mal dos
rios que ultrapassam seu leito , sem nos preocupar com as margens que oprimem . Na tradução de Arnaldo Saraiva , temos "Da Violência " : "Do rio que tudo se que é violento/As margens que o comprimem ".
( Bertold Brecht , Poemas , Lisboa , Editorial Presença , 1973 , p.71).
O rio , no conto de Guimarães Rosa , tem a figuração de "Largo , de não se poder ver a forma da outra beira " . Segundo Euclides da Cunha, em "Os caucheros" , o rio se traduz por "caminho que marcha ".
Se formos buscar o símbolo do rio nos primódios da cultura  ocidental,
lá estará perene no excerto de Heráclito , para nos dizer que o rio não
pode , pelo ser humano , ser atravessado duas vezes .
Tempo inexorável . Glosou-o Jorge Luís Borges na sua "Arte Poética" :
"Mirar el río hecho de tiempo y agua/Y recordar que el tiempo es outro
río " . Além do Tempo considerado em abstrato, como, por exemplo, o
número do movimento em Aristóteles, temos : a medida do tempo,
rume finitude humana assim delineado na "Terceira margem do rio " :
"os tempos mudavam no devagar depressa dos tempos " .
Sensações, emoções misturadas à passagem do tempo .
Bergson lidou com o tempo interior , duração , transposto de modo
imortal por Marcel Proust ao À la Recherche du Temps Perdu . Novas
categorias se agregam , como "as intermitências do coração " e a
memória involuntária .
Em Euclides da Cunha , consoante vimos , o rio se lhe afigura como
"caminho que anda " . No "Judas/Asvero" , o judas produzido pelo
sertanejo é descrito com minúncia . Sua feitura tem arte de escultor e
leve traço de ironia . A ençenação efetivada pelo escritor leva-o a um
crescendo emocional , até que o acabamento da obra gera nova
representação , subjetiva e particular na sua autoreferência . O cogito
cartesiano invade cenário , e o sertanejo , mais do que virtualizar o
Judas , ou vingar-se de acumulados agravos , retrata-se :
"Repentinamente o bronco estatuário tem um gesto mais como vedor
do que o parla ! Ansiosíssimo , de Miguel Ângelo ; arranca seu próprio
sombreiro ; atira-o à cabeça de Judas ; e os filhinhos todos recuam,
num grito , vendo retratar-se na figura desengonçada e sinistra do seu
próprio pai.
" É um doloroso triunfo . O sertanejo esculpiu o maldito à sua imagem .
Vinga-se de si mesmo : pune-se , afinal , da ambição maldita
que o levou àquela terra " .
Pouco depois desse trecho , Euclides da Cunha recorre ao rio,  para descrever a viagem prevista para o Judas . Como sempre acontece ao
escritor. o discurso avaliativo vem junto da construção do episódio.
Nisto se distancia do procedimento narrativo de Guimarães Rosa , que
articula sintagmas , apotegmas , pequenos ditos ou enredos emanados da sabedoria dos povos , dos mitos seculares ou das leituras filosóficas e religiosas . Liga os dois autores o valor permanente do orfismo , a solução literária . Diz do sertanejo o autor de À Margem da História, narrando o destino da personagem aqui, sim, confluente com o " pai " de "À terceira margem do rio " .
" A imagem material de sua desdida não deve permanecer inútil num
exíguo terreno de barraca , afogada na sua espessura impenetrável que furta o quedro de suas mágoas , perpetuamente anônima ,aos próprios olhos de Deus . O rio que lhe passava à porta é uma estrada para toda terra . Que a terra toda contemple o seu infortúnio , o seu exaspero cruciante , a sua desvalida , o seu aniquilamento iníquo ,
exteriorizados golpeantemente , e propalados por um estranh
e mudo pregoeiro .
" Embaixo , adrede construída , desde a véspera , vê-se um jangada de
quatro paus boiantes , rijamente travejados . Aguarda o viajante
macabro . Condu-lo prestes , para lá , arrastando-o em descida, pelo
viés dos barrancos avergoados de enxurros (grifo acrescentado )".
Aí estão o rio , o barco e o estranho figurante . A parceria com
situação gestada por Guimarães Rosa é evidente . A continuação do
episódio matiza -se de pormenores simbólicos , ora ideológicos , ora
antológicos , ora , enfim , retóricos , de pura excitação verbal ,
produtora de articulações narrativas .
" E Judas feito Asvero vai avançando vagarosamente para o meio do
rio . Então os vizinhos mais próximos , que se adensam , curiosos no
alto das barrancas , intervêm ruidosamente , saudando com repetidas
descargas de rifles , aquele bota-fora . As balas chofrem a superfície
líquida , eriçando-a ; cravam-se na embarcação , lascando-a ; atingem
o  tripulante espantoso ; trespassam-no . Ele vacila um momento no seu
pedestal flutuante ,fustigado a tiros , indeciso , como a esmar um rumo,
durante alguns minutos , até reavivar no sentido geral da correnteza .
E a figura desgraciosa , trágica , arrepiadoramente burlesca , com os
seus gestos desmanchados, de demônio e truão , desafiando
maldições e risadas, lá se vai na lúgubre viagem sem destino e sem
fim , a descer , a descer sempre , desequilibradamente , aos rodopios ,
tonteando em todas as voltas , à merçê das correntezas , de bubuia
sobre as grandes águas ".
O final é um empolgante ajuntamento de judas inúmeros , arrebatados
num grande círculo , revoltos numa "espirral amplíssima de  um
redemoinho imperceptível e traiçoeiro " . E , após , seguindo o rumo
da correnteza , alinham-se em fila e descem indefinidamente rio
abaixo.
De volta "À terceira margem do rio " , ao narrador a estúrdia decisão
do pai , de vogar pela vida toda pelo rio, diagnostica a sua pertubação
mental, ampliando-a ao mundo inteiro : "Ninguém é doido. Ou , então
todos " . O drama é pessoal . O mesmo estigma que apanhou o pai e
o afastou da convivência dos outros, começa a atacar o filho.
O drama das heranças abissais se recompõe . Justamente aquilo que
foi ponto de honra da novela naturista , a descrever o repasse das
taras nas tramas da reprodução da espécie . A terceira margem do rio
é uma dimensão pessoal . A correnteza que arrasta o Judas , com sua
força inexorável e fatalista , é um drama de gente , tem espessura
pública , que envolve a hitória humana . O primeiro texto metafísico e
cuida do ser, perscrutantemente . O segundo envolve o povo , abrange
a existência e desenvolve fundamentos históricos . Na correnteza do
tempo , o destino de ambos os figurantes não tem fim , é puro mistério
Não cabe aqui nem a esperança cega de Prometeu , nem a esperança
em si de Gabriel Marcel, diferente da ambição.
Puro mistério . Em ambos , Guimarães Rosa e Euclides da Cunha , o
que solicita  existência e é duradouro está à margem. O que move e flui
está no rio ; silencia e desaparece.
Que Guimarães Rosa seja um dos gênios da criação literária brasileira
não há dúvida . O que cumpre iluminar é na possível coloração de seu
estilo inigualável com os entretons de outros escritos de forte
determinação estilística e de originalidade discursiva.
Tanto que , a  alguns deles, Giumarães Rosa conferiu especial atenção
Quando se publicou Corpo de Baile , tivemos oportunidade de apontar
discretos sinais de analogia entre determinados giros fraseológicos
encontrados naquela obra e outros tantos provindos de
O Malhadinhas , de Aquilino Ribeiro. Na época o assunto virou
polêmica . Agora , sem próposito de explorar improvável filiação ,
desejamos evocar vagos resíduos de leituras de Euclides da Cunha na
obra sempre admirável de Guimarães Rosa.

      Fábio Lucas é professor e ensaista.

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