"Coreto" - Carmo de Minas-MG
    "                                                    "Fonte" - Caxambu-MG 
 
CIPÓS DE CIMENTO 
                                Eustáquio Gorgone de Oliveira* 
     
                  Elementos por excelência da arte naturalista, a água, 
      as pedras e as árvores se conjugam no trabalho de Francisco da 
      Silva Reis. Como um indez de argamassa, sua obras nos evocam 
      antigos bosques e matas que, em outras épocas, circundavam   a 
      incipiente vegetação urbana, semeada em pequenas manchas pelas 
      montanhas. 
                  Dentre as plantas nativas que serviram de inspiração 
      a este artista português, inúmeras espécies de cipós marcam signi- 
      ficativa presença nos esteios, baldrames e ripas que compõem seus 
      quiosques e miradouros. 
                  Trepadeiras de difluida beleza, os cipós foram registrados 
      por naturalistas e viajantes (Thomas Ewbanck, Ferdinand Denis, Jean 
      B. Debret) em gravuras de sóbrio realismo. Na vida cotidiana dos 
      indígenas e mestiços, seus emaranhados liames servem na elaboração 
      de utensílios e peças de artesanato. As redes, cestas, amarras e 
      enfeites confeccionados com cipó acompanham o homem do berço 
      à mortalha. 
                  Sinuoso e resistente, este vegetal pode ser visto, na obra de 
      Chico Cascateiro, cintado aos troncos e pedras. Vem incrustado na 
      argamassa que lhe serve de suporte ou exibe seu lenho cortado na 
      extremidade (cipó-cruz). De maneira natural, sem o artifício maneiroso, 
      o cipó contorna as terças e vigas. Não revela falsos nós ou cordomes 
      impróprios. Percorre, sim, com naturalidade, os orifícios e frestras, 
      deixando que aligadura entre os bambus e esteios se faça pelo encaixe 
      ou por cravos dispostos nos gomos da madeira. Acompanhando o 
      movimento dos cipós, lagartas e centopéias procuram refúgio no topo 
      das coberturas. 
                  O cipoal sugere a lactação das pedras e troncos e não apenas 
      adorno. Grutas, escadas e pilastras são nutridas por estes veios com 
      novos arranjos, criando os limites dos parques públicos e ambientes 
      particulares. 
                 Entre as oportunidades que os homens tiveram de criar parques 
      e praças nas cidades do Sul de Minas, o conjunto arquitetônico legado 
      por Chico Cascateiro revela-se como  a expressão mais adequada de 
      entendimento com a natureza. Neste contexto, os relegados cipós ainda 
      nos abraçam com a mesma força que a sociedade moderna, através das 
      demolições, procurou arrancá-la de nós. 
       
      *Eustáquio Gorgone de Oliveira  nasceu em 1949 em Caxambu,MG, 
      é poeta, autor de  DELIRIUM-TREMENS e GIRASSOL FIXO. 
           
           
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