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Chanina

 

Os
provadores

 

Conto de
Duílio Gomes

 

Da portaria do prédio onde eu trabalhava como porteiro da noite dava praver um bom pedaço da rua onde o restaurante ficava. Me impressionava o fatode ele estar sempre vazio. As mesas da varanda e as do interior sempre vazias .Às vezes um garçom chegava até a varanda, olhava a rua como à espera de fregueses, e voltava a entrar. Eu imaginava que ele acabava frustrado, impaciente ou deprimido. Um restaurante iluminado na noite e vazio. Os ônibus passavam, as pessoas passavam, os carros passavam e ninguém entrava. Como eu dormia de dia - das oito às dezessete horas - não dava pra saberse nesse horário os fregueses apareciam. Mas, a julgar pelo o que eu via de madrugada, de minha mesa de trabalho no Edifício Santa Luzia , o movi-mento também devia ser zero.Havia alguma coisa errada com aquele restaurante, o Dona Heleninha. O nome, vim a saber depois, era o da mãe do proprietário. Esse negócio de batizar restaurante com nome de mãe, namorada, mulher ou filho nunca deu certo. Nome de família é uma coisa muito pessoal. Ninguém se interessa pôr isso. Quem é dona Heleninha ? Você entraria em um restaurante chamado Dona Heleninha?
Eu entrei um dia, por curiosidade. Como eu pegava o serviço na portaria às duas horas da madrugada e não tinha mesmo o que fazer entre as cinco da tarde, quando acordava, e aquele hora, tomei coragem e entrei no Dona Heleninha. Era uma quarta-feira, havia tomado um bom banho e colocado minha melhor roupa.
Quando entrei no restaurante-eternamente-vazio,eram exatamente vinte horas. O Dona Heleninha estava iluminado e, claro, às moscas. Entrei e sentei-me na primeira mesa da varanda, à esquerda da escada. Eu havia recebido o meu ordenado no dia anterior e queria me dar aquele luxo, jantar no Dona Heleninha, inaugurar o restaurante fantasma, ser o primeiro freguês na história da casa, causar sensação. Causei, como imaginava. Houve um arrastar de cadeiras lá dentro, passos atropelados,um murmúrio crescendo e de repente o ar ardeu inteiro e eles estavam ao meu lado. Três garçons. Sorriam pra mim. Sorriam e não acreditavam. Eu saboreei lentamente o momento. Eu, o porteiro da noite, o rapaz joão-ninguém do interior, recém chegado à capital com uma carta de apresentação de um tio amigo do síndico do Edifício Santa Luzia, como segundo grau completo e sonhando com uma Faculdade qualquer, eu estava ali, sentado em um restaurante e sendo disputado por três garçons. Que me cumprimentaram, me passaram o cardápio, ajeitaram a toalha vermelha, suspiraram e aguardaram as minhas ordens. Quais eram as minhas ordens ? Eu tinha de fazer alguma coisa, quebrar o encanto, rasgar a cortina do silêncio, fazer alguma coisa.
- Uma cerveja, por favor - pedi.
Era a frase mágica. De repente eles desapareceram e alguns minutos depois um deles trouxe a garrafa de cerveja, com um copo. Serviu-me, sorrindo. Bebi o primeiro gole.
- Mais alguma coisa, senhor?
- Não, obrigado. Mais tarde eu escolho o jantar.
- Como quiser, senhor.
Sorriu e saiu.
Estava evidente que eu era o dono da noite. Porque logo depois
outro garçom chegou com uma cestinha de pães. E um outro apareceu com azeitonas pretas em um pratinho de cristal. E ainda mais um outro chegou com um potinho de queijo cortado em cubos. Eles surgiam do nada, se materializavam ao meu lado com seus ternos escuros e suas gravatinhas borboletas de seda cintilante. Eu queria que alguém do Edifício Santa Luzia me visse naquele momento, o síndico, os moradores. Eles não iriam acreditar.Mas não havia ninguém na rua. Só o pregador, pastor, padre, maluco - eu mesmo não sabia de quem se tratava, acho que ninguém sabia - pregava no deserto todas as noites. Alto, magro e barbudo, com uma Bíblia na mão, ele pregava na rua para o vento e o silêncio, para as estrelas. Ninguém prestava atenção nele. Ele ficava falando aquelas coisas da Bíblia, anjos, demônios, falava falava falava. Ninguém ouvia, ninguém parava pra ouvir, ninguém se interessava. De minha mesa, na portaria do prédio, às vezes eu ouvia. Coisas como "quem não seguir os mandamentos do Senhor sofrerá as consequências, o Senhor é justo e magnânimo mas por vezes se enfure..." Eu acabava colando o head-phone nos ouvidos e ligando o meu walkman.
Música era o meu passatempo predileto e não seria qualquer pregador de esquina que iria me matar de tédio nas madrugadas.
ali estava ele novamente, na esquina, pregando. Dessa vez eu não
tinha como colocar o head-phone e fazer sua voz se afogar no "Lago dos Cises". Eu adorava Tchaikovski. Em outras palavras, eu odiava o pregador.
Enquanto eu bebia a minha cerveja gelada fiquei sabendo que algumas pessoas haviam levado um surdo-mudo a Jesus e que Ele o curara. Entendi que aquela história tinha alguma coisa a ver comigo. Eu era o surdo que não queria ouvir suas pregações, eu enfiava o meu head-phone nos ouvidos e ugia de suas histórias bíblicas. Mas eu tinha vinte e dois anos. Quem, com vinte e dois anos quer ouvir um pastor falando de pescadores e surdos-mudos? Eu tinha feito a minha primeira comunhão, era católico como toda a minha família mas aquela coisa de homem falando na rua com uma Bíblia na mão me parecia coisa de protestante.
- Eu Vos exaltarei, Senhor, porque me atendestes e não deixastes que os meus inimigos se rissem de mim! - bradou o pregador. E mais uma vez eu entendi que ele poderia estar se referindo a mim, seu inimigo que não queria ouvi-lo. Mas eu nunca rira dele, ah isso não.
A cerveja tinha acabado e o garçom, sorridente - como eles têm facilidade pra sorrir - trouxe logo uma segunda.
Adoro cerveja, me deixa em nuvens macias, nuvens de poliéster com um arco-iris em cima. O sangue flui cheio de estalinhos e estrelinhas, a cabeça brilha como um crespúsculo, nunca como uma alvorada, e a vida ronrona. O paraíso deve ser assim.
Comecei a ficar com fome. Vasculhei o cardápio. Acabei pedindo lasanha e peixe com molho tártaro. Eu já tinha terminado a terceira cerveja quando o garçom trouxe o jantar. Estava, como eu imaginei, delicioso. Capricharam para o primeiro e único freguês do Dona Heleninha. Eu estava na metade do jantar quando vi o inimaginável. Um casal acabara de chegar e se sentara a três mesas de onde eu estava. Fiquei tão surpreso que parei o garfo no ar com a boca aberta. Os mesmos garçons da minha chegada acudiram rapidinho. Sorriam, sorriam de felicidade. Acabei engolindo, de olhos arregalados, o meu bocado. Os garçons repetiram o ritual da minha chegada - ajeitaram a toalha, sorriram perfilados. Fiquei olhando discretamente. Um deles saiu, voltou com uma garrafa de vinho e duas taças. Outro veio até a minha mesa. Eu já havia terminado de jantar.
- Sobremesa, senhor ?
- Não, obrigado. Apenas um cafezinho e a conta.
- Pois não, senhor.
Recolheu o prato e os talheres. Voltou com o café. Enquanto eu
bebia, espichava um olho para o casal. Quando paguei a conta, eles ainda não haviam feito o pedido. O garçom agradeceu a minha gorjeta e os outros dois me acompanharam até a saída, desejando boa-noite. Sim, tinha sido uma boa noite. Cumprimentei o pastor, quando passei por ele. Olhou-me espantado, sem responder. Estava empenhado em salvar almas, não em desejar boas-noites a elas. A noite estava quente,com o seu amontoado de estrelas. A rua, vazia. Fui seguindo o trilho antigo do bonde que já não existia, seu brilho azul enluarado no asfalto escuro, sua curva na esquina. De repente eu já estava em frente ao Edifício Santa Luzia. Entrei, cumprimentei o porteiro que pegava o serviço antes de mim e fui direto para o meu quarto, atrás da portaria e escondido sob a escada, com meus livros e fitas-cassete. Tirei a roupa nova, coloquei uma surrada e deitei-me na cama enquanto acendia um cigarro. Eu ainda tinha duas horas de descanso antes de pegar no batente. Fiquei rememorando a grande noite. Quando assumi o meu posto, o casal estava acabando de sair do restaurante, com os três garçons atrás. Voltem sempre, por favor, deviam estar dizendo. O carro do casal desceu a rua e desapareceu na esquina. O pregador pregava para a noite vazia. Coloquei o phone. Minha mãe um dia
falou que o homem que havia inventado o head-phone era o cidadão mais inteligente do mundo porque a engenhonca proporciona música a quem ouve e silêncio a quem está perto e aos vizinhos.O restaurante continuou iluminado ,ninguém mais entrou lá naquela noite e eu acabei dormindo no meio de " Bela Adormecida", de Tchaikovski. Porteiros da noite não devem beber em serviço.
Durante as três noites seguintes à minha ida ao Dona Heleninha,
ele permaneceu vazio. Era a sua sina. Como a do pastor era pregar para inguém. Mesmo assim o restaurante continuava iluminado. Mesmo assim o pregador pregava.
No domingo à noite resolvi dar um passeio pela redondeza.
Acabei subindo a rua do Dona Heleninha. Aquele era o bairro mais alto da cidade. O Bairro da Serra. Por isso mesmo o de melhor clima. Tudo cheirava a flor, mato, árvore. Havia dezenas delas espalhadas por ali, jabuticabeiras, mangueiras, um sem fim de bananeiras penduradas pelas encostas, nos quintais, nos terrenos baldios.
A passarinhada enchia as copas das árvores com ninhos. O pas-
saredo estava sempre se renovando. No fim da tarde ele voltava
(voltava de onde? não sei) em bando para os galhos das árvores, para os seus ninhos. E a lua voltava da China com as suas sedas, os seus brocados chineses. E ficava ali boiando no vasto céu pintado com azul de detergente.
Eu estava passando em frente ao Dona Heleninha e por acaso
olhei em sua direção. Um garçom conversava com um senhor de bigode. Algum raríssimo freguês ? O garçom falava alguma coisa com ele e apontava para mim. Achei estranho e resolvi apressar o passo. Não gosto que apontem para mim na rua. Acho que ninguém gosta. Já tinha ultrapassado o restaurante quando ouvi alguém chamando.
- Senhor, por favor, senhor...
Não havia ninguém na rua além de mim e do pregador. Olhei para trás. O garçom me acenava, da porta do restaurante.
- O proprietário quer falar com o senhor.
O proprietário ? O homem de bigode com quem o garçom estivera conversando desceu a escada do restaurante e veio em minha direção. Estendeu-me a mão:
- Boa-noite, senhor. Posso lhe falar alguns minutos?
Gaguejei qualquer coisa.
- O meu garçom reconheceu-o - continuou . Estava no Dona He-
leninha alguns dias atrás, não ?
- Sim... - respondi sem entender o que ele queria. Eu teria rou-
bado algum talher da casa?
- Não tenho tido muito freguês ultimamente - emendou o homem
de bigode - por isso fiquei feliz em saber que o senhor veio nos prestigiar.
E parece que nos deu sorte porque logo depois surgiu um casal. Para uma casa que vem permanecendo vazia há muito tempo, apesar da publicidade que pago nos jornais, me pareceu um bom sinal. O senhor é uma espécie de pé-de-coelho...
Riu.
Eu também ri sem achar muita graça. Aonde ele queria chegar?
- Tenho uma proposta a lhe fazer. Poderia me acompanhar?
Tomou-me pelo braço, conduziu-me com intimidade para o interior do
restaurante.
- Vamos conversar aqui. Sente-se. O senhor bebe
alguma coisa?
- Um refrigerante.
Eu estava aparvalhado com tudo aquilo. O pregador agitava os
braços, na rua - Senhor Deus, Rei do céu, Deus pai onipotente, Cordeiro de Deus, Filho de Deus Pai...
Aquilo é que era cartão de visita.
O garçom veio com dois refrigerantes e canudinhos.
E então eu ouvi, do proprietário do Dona Heleninha, o mais
extravagante convite que jamais recebera em minha vida. Em resumo, ele
me propunha - e pagaria por isso! - que eu almoçasse e jantasse todos os dias no Dona Heleninha, ao meio-dia e às vinte horas em ponto. Bastava que eu chegasse, me acomodasse em qualquer mesa da varanda ( teria de ser apenas na varanda) e pedisse o que quisesse. A condição é que eu comesse com apetite e demonstrasse satisfação. Eu seria uma espécie de isca de  fregueses.Roberto, o proprietário, pusera na cabeça que eu era o seu pé-de-coelho e que, como daquela primeira vez, atrairia fregueses para o seu restaurante.
Eu ia me transformar no que ele chamava de provador. Nada me parecia mais fácil e agradável, claro. Eu teria apenas de ter apetite e parecer feliz,
como se aquela fosse a mais saborosa comida do mundo e aquele restaurante o Nirvana. E mais. Poderia levar, eventualmente, alguém comigo.
A proposta era tão tentadora que me pareceu coisa de lunático.
Mas antes que ele desistisse e voltasse ao seu bom senso, concordei.
Eu estava com a boca seca. Um provador... Quando começava ?
- Amanhã, ao meio-dia - propôs Roberto, selando o convite com
um aperto de mão.
Eu ainda não estava acreditando naquilo tudo quando no dia se-
guinte ( tive de colocar o despertador para me chamar às onze horas, já que normalmente eu só acordava às dezessete) sentei-me a uma mesa na varanda do Dona Heleninha ao meio-dia em ponto. Um garçom me trouxe o cardápio e permaneceu ao meu lado. Já devia estar sabendo do contrato. Perguntei-lhe pelo dono da casa.
- O doutor Roberto não se encontra mas ordenou que lhe servíssemos o que desejasse.
Eu não estava acostumado a comer àquela hora. Pedi um suco de
abacaxi. Dizem que ele abre o apetite. Bebi-o em três goles. Olhei a rua.
Ninguém. Nem mesmo o pregador. Talvez ele só pregasse à noite.
O garçom continuava ao meu lado.
Eu estava começando a me achar ridículo fazendo aquilo. Quem me
garantia que eu iria atrair gente apenas engolindo comida como se fosse um ilusionista no palco engolindo espadas? Mas a varanda era o meu
palco e eu tinha de atuar. Que alguém me gritasse merda, a palavra de sorte dos bastidores.
Já devia ter passado uma meia-hora desde que eu chegara e ainda
não pedira o almôço. Que belo provador eu estava me saindo.
Perguntei ao garçom (ainda continuava por ali, como um cão de
guarda) o que ele me sugeria para o almôço. Ele cerrou os olhos como
se estivesse rememorando o cardápio.
- O talharim com molho de quatro queijos é uma boa opção, senhor.
- Pois então traga.
Mais vinte e cinco minutos e a comida fumegava à minha frente. O
apetite, enfim, aparecera.
Milagres acontecem. Eu estava terminando o almôço quando entrou
uma família inteira, pai, mãe, três crianças, uma babá. O garçom piscou
pra mim. O provador havia passado no teste de fogo.
No jantar, pedi strogonoff. À sobremesa - pudim de coco - apare-
ceram dois rapazes. Logo após, três moças. Pareciam estudantes.
Duas semanas depois contabilizei os resultados do meu trabalho
como provador - fregueses (poucos mas regulares) diariamente e dois quilos a mais.
Na terceira semana, Roberto apareceu. Estava satisfeito com o
meu trabalho. Deu-me um cheque. Eu os receberia todos os fins de semana. Era a primeira vez, no mundo, que o dono de um restaurante pagava o freguês comilão.
Aproveitei para dizer a ele que da próxima vez levaria uma prima. Ele concordou. Se um freguês, raciocinou, atrai outros dois ou três, um casal deve atrair o dobro. Desci a pé para a cidade. Precisava me exercitar por causa dos quilinhos a mais telefonei para Vera, minha prima, e comprei roupas. Estava começando a levar a sério a minha função de provador.
Três meses depois de iniciado o meu trabalho como isca de fre-
gueses, o restaurante era um sucesso. Eu almoçava e jantava não apenas com
Vera mas também com mais três primos, um tio e alguns amigos que mandara
vir do interior e se hospedavam na casa de outros parentes que também, às vezes, apareciam. Era a minha equipe flutuante. Um atraía o outro, que atraía o outro, que atraía o outro. No fim eu mesmo não sabia quem era parente-não-pagante e quem era freguês. Mas a caixa registradora não parava de cantar e Roberto já havia trocado de carro e reformado a cozinha. Os provadores funcionavam como atores em cena. Trabalhavam em equipe, com alegria e naturalidade, atraindo fregueses como a luz atrai insetos.
Uma amiga minha, locutora em uma rádio e que às vezes era minha convidada, espalhou a história que dona Heleninha, a mãe do dono do restaurante, era uma das maiores cozinheiras do país e morava com seis empregadas em uma fazenda perto da capital. Era de lá que vinham suas magníficas criações culinárias e seus quitutes dourados. Na verdade (Roberto me contou um dia, meio sem graça) ela não sabia fritar um ovo e morava com ele em seu apartamento. Mas lenda é lenda e quando todo mundo acredita nela, acaba virando verdade.
O pregador acabou sendo também meu convidado. Só então fiquei sabendo que ele se chamava Marcos. Como era tímido, preferia comer na cozinha. Pedi-lhe que fizesse a barba e viesse mais ajeitadinho. Pregava agora, também, durante o almôço. Vinha de terno, cabelos cortados brilhando de gel e uma Bíblia nova. As pessoas se viravam para vê-lo e ouvi-lo. Seus temas ficaram mais poéticos,
metafóricos. Como eu continuava com o meu trabalho como porteiro do Santa Luzia, uma noite - de minha mesa de trabalho - fui testemunha de nosso êxito
como provadores. Era um sábado, a rua estava coalhada de carros. No restaurante não cabia mais ninguém. Fregueses voltavam da porta, sem encontrar lugar.
Eu estava ouvindo o "Quebra-Nozes", de Tchaikovski, quando entrou a "Valsa das Flores". Senti um arrepio. A delicada majestade da música, se inflando, era a moldura perfeita para a cena. Marcos pregava gesticulando como um ator clássico em meio ao caos. Aquilo se chamava sucesso. E os meus olhos
se umedeceram.
Roberto estava ganhando tanto dinheiro que abriu um segundo
restaurante a três quarteirões dali. La France. Comida francesa, claro. No dia em que me entregou mais um cheque pelo meu trabalho, falou rapidamente, atropelando as palavras, que lá não haveria necessidade de provadores. A clientela era especial, captada por malas-diretas, Internet. Dei de ombros. Continuaria no Dona Heleninha, com a minha equipe. Eu havia sugerido ao maitre criar um self-service e mandar construir fogões a lenha com os mestres-cucas cozinhando na frente dos fregueses. Cada novidade desse tipo atraía mais gente.
Meu trabalho estava indo tão bem que eu já pensava em sair do Edifício Santa Luzia e alugar um apartamento ali perto.
Inda bem que não fiz essa besteira porque um dia, sem maiores
explicações, Roberto dispensou o meu trabalho de provador. Simplesmente entregou-me o pagamento, disse que aquele seria o último cheque e agradeceu minha cooperação. Não precisava mais de mim e de minha equipe. Claro, havia conseguido o que queria - dois restaurantes cheios, três carros novos e um apartamento bem maior. Senti o baque mas não deixei transparecer. Telefonei no mesmo dia para os meus convidados, um por um, contei o que ouvira e desliguei antes de ficar emocionado. Afinal, foram dezoito meses de festa, confraternização e comidaria de graça. Peixes, paellas, quiches, galinhadas, frutos do mar, consomês, sarapatéis, feijoadas, vacas atoladas, fettuccinis, filés, escabeches, crêpes, comidas japonesas, tailandesas, árabes, judaicas, mexicanas. Eu estava gordo como um caramujo.
Voltei para a minha marmita no Santa Luzia e o meu Tchaikovski. O que me doera mais foi dizer a Marcos, o pregador, que a partir daquele dia ele não ia mais poder almoçar e jantar no Dona Heleninha.
Percebi da portaria, nos dias que se seguiram, que ele deixara
a barba crescer novamente e que suas pregações também haviam voltado ao estilo antigo. O Éden dera lugar, de novo, às chamas infernais. Marcos, com fome, era um azougue.
Do meu canto, na portaria , eu fiscalizava o Dona Heleninha.
Sentia um certo rancor por ter sido dispensado daquela forma, secamente. Mas Tchaikovski me consolava. Eu poderia explodir os dois restaurantes com os
canhões de sua Ouverture "1812" e ver Roberto, como Napoleão, bater em retirada, eu poderia.Não sei quando exatamente aconteceu. Eu já vinha notando que o movimento do Dona Heleninha , e do La France , não era o mesmo de antes.
Os sábados e domingos também já não eram tão concorridos. E então aconteceu. Em um fim de semana o Dona Heleninha ficou a noite toda iluminado e vazio, como no início. Fui à esquina. No La France, a mesma coisa. Nenhum carro estacionado, ninguém na rua, ninguém nos restaurantes. Roberto havia matado as suas galinhas dos ovos de ouro quando dispensou os nossos serviços de provadores. A voz de Marcos vinha de algum canto da rua. Eu não o via mas podia ouvi-lo perfeitamente. Sua voz era serena, voltara a pregar para as estrelas , evangelizar os brejos além das ruas com os seus fantasmas, as aves adormecidas nas árvores, os cães e os galos insones, os pierrôs, as colombinas e os arlequins antigos, tudo o que murmurava e se movia nos quadrantes escuros da madrugada. "Nós vos suplicamos, Senhor", dizia ele como se de fato conversasse com Ele, "não abandoneis o vosso rebanho. Pelos vossos apóstolos, o guardeis sob a vossa proteção. Com os anjos e os arcanjos, com os tronos as dominações, cantamos hinos à vossa glória." Uma semana depois, no final do verão, os dois restaurantes foram fechados definitivamente. Tive a sensação de que eles haviam naufragado como dois Titanics. A rua ficou mais escura do que nunca. E então eu ouvi a voz de Marcos em algum lugar qualquer ali perto. "Réquiem aetérnam dona eis, Dómine: et lux perpétua lúceat eis." Aquilo era latim. Tentei me lembrar o que
significava. Já o ouvira várias vezes, na minha infância, nas igrejas que frequentava com a minha família . Réquiem. Réquiem aetérnam... Tinha alguma coisa a ver com panos pretos, cores da paixão. Mas, claro. Agora eu me lembrava. Eram as missas de finados. E a frase inteira brilhou na minha cabeça, descanso eterno daí-lhes, Senhor, e a luz perpétua os ilumine. Aquilo era assustador como a palavra verbotten (*) e melancólico como o tema principal de "Romeu e Julieta", de Tchaikovski. A partir daquele dia, nunca mais eu vi Marcos, o pregador. Cristo não tinha um apóstolo com aquele nome ?


(*) Proibido, em alemão.

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Duílio e Chanina

"Os Provadores" é o mais recente conto de Duílio Gomes. Inédito em livro, foi escrito a convite da escritora paulista Márcia Denser para a antologia " Os Apóstolos" (Ed. Nova Alexandria, SP), com textos de contistas brasileiros. Aqui ele vem ilustrado por Chanina, um dos maiores artistas plásticos brasileiros integrante da primeira turma
de alunos de Guignard,nos anos 50.