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Conto de
Duílio Gomes

La Revue des Folies Bergére - reprodução

    Foto: La Revue des Folies Bergére (Paris, 1925)

 

Ele entrou na sala carregando a pasta de couro aberta. Não tinha zíper e por certo pertenceria ao seu filho pequeno. Dentro dela estavam as ferramentas. A mulher indicou a televisão.
" É aquela ali..."
Ele agachou-se e virou a televisão de costas. Desparafusou a tampa e olhou lá dentro.A mulher permanecia de pé, perto dele. Ele levantou os olhos para ela.
" Pifou hoje ?"
" Não senhor, ontem. Não pude ver a novela. E só tenho a televisão para me distrair. O meu marido fica no escritório até de madrugada."
Enquanto o marido estava no escritório, ela ficava sozinha vendo televisão. Ele escutava, mexendo dentro do aparelho. Ela veio com uma cadeira e sentou-se perto. Acendeu um cigarro.
" Não temos filhos. De modo que somente a televisão me livra do tédio. Às vezes saio com alguma amiga, vamos ao cinema. Mas na maioria das vezes fico é mesmo plantada aí na frente."
Além da novela, gostava muito dos programas de humor. Ele tam-
bém gostava de televisão ? Não gostava, quer dizer, não tinha. Ela jogou as cinzas no chão e cruzou as pernas.
" Esqueci de oferecer cigarro. Fuma ? "
Fumava. Ela então foi à cozinha, buscou cafezinho. Ele bebeu, estalando a língua. Depois pegou o cigarro que ela oferecia. Ela acendeu com um isqueiro prateado e tornou a sentar-se, cruzando as pernas.
Ele via, de soslaio, um pedaço da perna dela e fazia esforço para se
concentrar no serviço. Ela continuava falando da vida - a mãe morrera no ano passado e o marido dava pouca atenção a ela. Se enfeitava, fazia tudo para agradar. Desconfiava até que ele tinha uma amante. Ele se levantou e limpou o suor.
" Está quase pronto. Onde é o banheiro ? "
" Ali "
No banheiro, lavou as mãos e quando estava enxugando-as, ela
apareceu na porta.
" O senhor tem muitos filhos ? "
" Cinco "
Ela sorriu - "Também gostaria de ter muitos filhos..." Jogou as
cinzas no chão, passou depois a sandália sobre elas.
Continuou - "Eu, por mim, teria muitos filhos..."
Sorria. Ele respirou fundo e, também, sorrindo, pediu licença
para passar.
Ela acompanhou-o e dessa vez sentou-se no chão, junto dele.
" Que complicado isso aí dentro, hein..."
Tinha o rosto quase encostado no dele. Ele falou alguma coisa,
embaralhando. Ela perguntou o que era. Ele feriu um dedo com a
chave de fenda. Ela perguntou se tinha doído. Como estava
saindo um pouco de sangue, ela foi ao quarto buscar mercúrio-cromo. Gritou de lá : "Podia me ajudar a procurar o remédio ? Está uma bagunça. É o quarto mais bagunçado que eu conheço..."
Ele foi. Era o quarto mais lindo que já tinha visto. Anjos de barro nas paredes. Cortinas, tapetes vermelhos e macios como o sonho. A penumbra do quarto impedia-o de distinguir direito as coisas. Mas podia ver a mulher com muita nitidez - deitada sobre o cobre-leito cor de chocolate. O quarto recendia a água de colônia e as roupas dela estavam jogadas no chão. Estava muito nítida, palpitante e branca, sobre o cobre-leito cor de chocolate.

Duílio Gomes é autor de quatro livros de histórias curtas, seus contos estão traduzidos para oito línguas e integram mais de 30 antologias do gênero.Leia outros contos de Duílio em Tanto : "Os Provadores", "Amarelo é o Trator", "Feitinho pro Trevisan" e "O Massagista". Segundo os críticos literários Assis Brasil, Hélio Pólvora e Fausto Cunha, o autor é um dos mais destacados contistas brasileiros surgidos na década de 60 em Minas Gerais.

Duílio, por Petrônio Bax
Duílio Gomes por Petrônio Bax

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