julio saens
Julio Saens

 

O Massagista

Conto de Duílio Gomes

ao amigo Roberto Drumond

Meu tio vivia contando essa história para a família e os amigos. Do tempo em que ele era centro-avante do time de futebol na cidadezinha do interior mineiro onde ele morava, Marilândia. Tio Carlinhos tinha l9 anos de idade. Era o tempo da segunda guerra mundial, l943, e a Europa estava pegando fogo com aqueles gringos malucos se matando, japoneses, alemães nazistas e italianos fascistas de um lado, americanos, russos , ingleses, franceses e até brasileiros do outro.
   Meu tio dizia que o seu sonho era estar lá para furar uns trinta nazistas safados mas nenhum homem de Marilândia havia sido recrutado. A vidinha besta continuava andando e bocejando em Marilândia e as notícias de guerra só chegavam através dos rádios e dos jornais trazidos da Capital pelo trem noturno, caminhão ou ônibus. A estrada não era asfaltada e quando chovia, tudo atolava - caminhões, jardineiras, carros Fords e Chevrolets americanos. Hoje a estrada é asfaltada, Marilândia tem Tv, internet, telefones celulares. Naquele tempo, segundo tio Carlinhos, poucas pessoas tinham telefone em casa e mesmo assim, se quisessem falar com alguém, precisavam pedir linha à telefonista. As ligações locais demoravam meia hora. Para falar com a Capital, a pessoa tinha de aguardar cinco, seis horas.
   O Guarany Football Club, onde tio Carlinho jogava de centro- avante, era o grande time de Marilândia, vencia todos os adversários e só de troféus eram mais de cem, colecionados ao longo de (gloriosos, gostava de acentuar tio Carlinhos) trinta anos de embates. No seu tempo, a escalação - decorei de tanto que o meu tio repetia - era David, Rodrigo, Alessandro, Cristiano, Leonardo, Daniel, Mateus, Marcel, Alemão, Carlinhos e Kalil.
  É aí que entra a história de Nico, o massagista. Ele estava no Guarany desde a sua fundação e tinha uns cinquenta e cinco anos de idade. Era negro, alto, magro, sempre elegante com o seu terno de linho branco e seu chapéu de feltro cinza. Todos gostavam de Nico . Ele era sério mas educado, silencioso mas solícito e competente. Sentado em seu banquinho de madeira, acompanhava o jogo com atenção. Não mordia as unhas e não praguejava, como os massagistas dos times adversários. Seu rosto permanecia neutro, sem tiques, durante todo o jogo, o Guarany vencesse ou não. Sua única reação era quando algum jogador do Guarany se contundia e o juiz apitava. Aí ele se levantava, pegava sua sacola de pano e entrava em campo. Nico ! Nico!, gritavam alguns torcedores. Ele se agachava ao lado do jogador machucado, abria a sacola, tirava de lá toalhas, óleos, cremes. Friccionava pé, coxa ou braço do avariado com os seus cremes milagrosos, guardava tudo de novo na sacola e retornava tranquilo para o seu banquinho. Dependendo do caso, carregava o jogador nas costas, dispensando a maca , e o levava para a "enfermaria", na verdade uma cadeira-espreguiçadeira no vestiário. Ali, suas mãos compridas e profissionais davam um trato caprichado em hematomas mais selvagens.
  Nico nunca recebeu dinheiro no Guarany, ao contrário do treinador e dos jogadores, que sempre embolsavam o "bicho" depois dos jogos, vencendo ou não. O presidente do Guarany, Dr. Celso, um advogado e deputado gordo e bonachão, cansou de insistir com Nico para que ele recebesse a sua parte. Nico nunca aceitou. Como era de poucas palavras, batia no peito - faço de coração... E sempre voltava a pé para casa, depois do jogo, dispensando carona no caminhão do clube ou no carro, um Ford azul, do Dr. Celso.
   O que Nico gostava mesmo era de fazer o seu ofício, ficar vermelho de emoção (e mudo) quando o Guarany vencia, e de chupar suas laranjas. Para isso sempre carregava um punhal afiadíssimo com cabo de madrepérola que guardava dentro de uma capinha de couro presa no cós da calça. Quando chegava para os jogos, já trazia com ele um saquinho cheio delas. "Minha mulher é que escolhe elas e me entrega", contava, quando alguém perguntava que laranjas eram aquelas.

Um dia começaram a surgir pichações nos muros do campo do Guarany e nas paredes externas do vestiário - várias suásticas nazistas e frases curtas do tipo Nico, negro sujo e David é porco judeu. Claro que todo mundo ficou perplexo e indignado com aquilo. Dr. Celso mandou limpar imediatamente. "Só pode ser provocação de gente da direita, esses simpatizantes nazistas que existem em Marilândia", resmungou com os amigos. Alguns dias depois que os muros e as paredes foram lavados, voltaram a aparecer suásticas, símbolos da SS - a sinistra polícia nazista - e outros insultos a Nico e David. Dr. Celso mandou que limpassem novamente aquela porcaria e pagou alguns rapazes para ficarem de tocaia. As pichações eram feitas com broxa e tinta vermelha. Um dos rapazes que ficaram de tocaia contou que viu um homem de capuz pichando o muro do clube em uma quarta-feira à noite mas quando correu em sua direção, ele desapareceu, deixando a lata de tinta e a broxa pra trás. Ele havia pichado uma suástica e a frase morte aos judeus e aos negros ! Dr. Celso chamou o delegado de polícia e pediu averiguações rigorosas.
   Nico e David não entendiam o motivo daquelas agressões espalhadas pelos muros do clube. Não tinham inimigos, pelo contrário, eram estimados por todos. Quem faria uma barbaridade daquelas? Meu tio explicou aos dois que aquilo era coisa de nazista. Essa gente perversa, resumiu para um Nico e um Davi de olhos esbugalhados, acha que somente alemão ou louro nazista é raça pura, superior, o resto é genética de segunda, misturada. David chorou e contou que parentes dele estavam sendo perseguidos e presos na Alemanha hitlerista. Nico soltou um palavrão, coisa rara nele.
   O delegado contou ao Dr. Celso que pichações daquela natureza estavam surgindo também em toda a cidade, não respeitavam nem igreja ou cemitério, e que ele tinha aberto inquérito e colocado alguns policiais em pontos estratégicos para prenderem o pichador, ou pichadores. Ao lado de suásticas, sempre apareciam frases do tipo morte à raça impura ou negro, judeu, índio, cigano e pederasta têm de ser fuzilados...
   Não se comentava outra coisa em Marilândia. É claro que os negros e alguns judeus comerciantes da cidade começaram a ficar apreensivos, assim como os ciganos que acampavam nas margens do rio Carmo e o homossexual Fifi, que andava de salto alto e de bolsa a tiracolo. Fifi não tinha nem vida sexual, era inocente como uma libélula e já estava integrado à comunidade. Era um folclore. Quem poderia fazer mal a esse tipo de gente?
   David superou o trauma das pichações e voltou a jogar o fino como lateral-esquerdo mas Nico andava melancólico, soturno. Tio Carlinhos, que era amigo dele, deu conselhos. Que ele esquecesse aquilo, devia ser coisa de rapaz sem ocupação, farra sem consequência, apesar de mau gosto. Nico ouvia tudo calado, apenas resmungava. A cada pichação nova, na cidade ou no clube, ele ficava mais arredio, assustado. Chegou a faltar a dois jogos, coisa que nunca acontecera antes. E já não chupava suas laranjas.
   No Domingo de Páscoa, o Guarany jogou com o União de Ouro Preto. Tio Carlinhos não foi escalado e estava no banco de reserva. O jogo caminhava para a metade do segundo tempo, entre os eucaliptos que circundavam o campo. As torcidas urravam , as mocinhas da torcida feminina do Guarany estavam mais bonitas do que nunca com suas bermudas de cetim, batons carmins e sapatos-plataforma, bem no estilo das atrizes do cinema americano da época. O jogo, nervoso mas equilibrado, caminhava para um empate. O juiz apitou. Um jogador do União de Ouro Preto havia marcado falta brava em um dos nossos. Tio Carlinhos levantou-se do banco de reserva pra ver o que estava acontecendo e Nico entrou em campo com sua bolsa, desaparecendo no bolo de jogadores discutindo. Saiu de lá com um jogador nas costas. Era o Alemão. O juiz apitou e o jogo continuou na tarde azul pontilhada de cigarras.
   Todos voltaram a prestar atenção ao jogo mas tio Carlinhos continuou acompanhando Nico e Alemão com os olhos e estranhando por este estar xingando Nico e puxando sua camisa. Nico parecia muito nervoso com o que ouvia, sua testa estava vincada e ele mordia os lábios. Mas caminhava com passos rápidos, como sempre fazia. Entrou no vestiário como um caçador carregando sua presa e bateu a porta. Tio Carlinhos voltou a prestar atenção ao jogo. Mas alguma coisa o inquietava. O que o Alemão estava falando com Nico para deixá-lo nervoso daquela maneira ? Bobagem, pensou, e gritou para que o nosso goleiro ficasse mais atento à bola. De repente tio Carlinhos ouviu um baque vindo do vestiário, como se alguma coisa houvesse sido projetada contra a parede. Vou lá, pensou, e levantou-se. Quando abriu a porta, ele viu a mais patética cena jamais vista em toda a sua vida. Alemão, estirado na cadeira-espreguiçadeira, com seus olhos verdes dilatados e a testa molhada de suor, chupava o pênis de Nico. Este, ajoelhado ao lado do jogador, mantinha o seu punhal sobre a coxa esquerda dele. Qualquer movimento mais brusco de Nico e a faca ia se enterrar na perna de Alemão. Nas paredes, como testemunhas, os quadros com as fotos dos jogadores do Guarany, um cartaz colorido de Carmen Miranda e um quadro a óleo de Getúlio Vargas.
   Nico!, gritou tio Carlinhos, não acreditando no que estava vendo. Os dois voltaram os rostos para ele, Alemão com o olhar vidrado e a boca cheia e Nico com a expressão dura de quem havia tomado uma decisão muito séria em sua vida. Nico... repetiu tio Carlinhos, pára com isso ! Nico respirou fundo, levantou o punhal e guardou o pinto, abotoando a braguilha sem pressa. Levantou-se. O pichador é ele, falou com desprezo. Você?, perguntou tio Carlinhos a um Alemão que parecia pronto a desmaiar. Foi você ?!, gritou tio Carlinhos, sacudindo os ombros do jogador. Alemão começou a soluçar, puxando os cabelos de espiga de milho. Confessou tudo. Como toda a sua família, ele era um simpatizante nazista e tinha ódio das minorias. Mas estava arrependido. Tio Carlinhos não quis ouvir mais nada. Empurrou-o para fora do vestiário. Foguetes pipocavam lá fora. O Guarany marcara um gol, o gol da vitória. Tio Carlinhos abraçou Nico. O nazista de cabelo dourado sentiu o gostinho salgado do negro, resmungou. Tio Carlinhos começou a rir e continua rindo até hoje.
   Claro que Marilândia inteira ficou sabendo da história - uma felação entre homens, forçada e por vingança - e a família de Alemão mudou-se para a Argentina, onde tinha parentes. A guerra acabou, os nazistas perderam e muitos anos se passaram sobre Marilândia. Guerra é igual jogo, gostava de dizer Nico, já velhinho mas ainda massagista do Guarany, uns perdem e outros ganham...

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Roberto Drumond,Dora Tavares, Duílio Gomes e José Afrânio Moreira Duarte.

Este conto, um dos raros de Duílio Gomes com o tema futebol, foi escrito a pedido de Cyro de Matos para uma antologia de histórias curtas a ser lançada pela Ediouro no ano da Copa do Mundo. "Quero dedicá-lo ao amigo Roberto Drumond neste momento recente de sua perda", revela Duílio, "pela sua inventividade e paixão pelo futebol, pela sua garra , por tudo aquilo que ele representou como escritor profissional neste país que , infelizmente, sempre relegou a cultura para o departamento dos descartáveis e não-prioritários."

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