Eleonora Goretkin

How high
the moon

 
Conto de Duílio Gomes

Ele tem os olhos redondos de um panda e todo o seu
ser refulge como o brilho intenso do meio-dia. É assim que ela o vê. Tendo sido casada com um atarracado jogador de futebol que lhe dava cascudos algumas vezes por semana sem nenhum motivo, Pepê rompeu o tédio dolorido do seu cotidiano como uma porta que se abre para um jardim transbordando de borboletas e luz aquilina.
Pepê percebeu que ele se instalara em sua vida com modéstia, mas uma modéstia parecida com êxtase. Ela agora quer se esquecer dos maus-tratos pelos quais passou nas mãos de Tonho, o Medonho, e procurar ser feliz de fato. Ela poderia dançar o resto da vida com uma dália vermelha na boca e os olhos cintilando como o céu da Jamaica. Não que ela já tenha ido lá alguma dia, mas sabe que a Jamaica (pura intuição feminina) é energia fragmentada circulando no ar e deixando as coxas das pessoas mais firmes, formosas. É assim como um sonho frio e pesado, às três horas da tarde, em uma rede pendurada entre dois pontos de luz.
Quando ela acordou, um susto : ele tinha sardas no rosto e seus cabelos eram dourados. Deu vontade de morde-lo maciamente, lambendo aquela penugem adolescente com felicidade untuosa. Ela ficou, então, como uma vespa zunindo feliz feliz à sua volta.
Ele é o sol, ela o girassol; ele é a estrela-guia, ela o seu reflexo de celulóide, o milagre adornado de tatuagens e brilhos de espelho. Ele tem gosto de damasco e pitangas verdes mas de repente pode provocar um rompimento drástico com a realidade e a vida dela voltar a ser apagada e sem cor. Vestiu, então, o seu robe de seda branca, pingou duas gotas de Chanel número 5 nos punhos e colocou um disco de Ella Fitzgerald para tocar. How high the moon invadiu o ar em ondas sofisticadas de acordes de piano acompanhado de percussão e baixo acústico. O piano é de Oscar Peterson e a voz de Ella irradia energia concentrada, como uma garrafa térmica.
How high the moon é a coisa mais linda desta vida, ela pensou. É assim como um anjo musical, um arcanjo, banhado pelo azul da lua, ruflando as asas suingadamente. Encheu, então, um copo com gelos e uísque e o mundo ficou azul como o anjo e muito mais amplo à sua volta. 


 Como nasceu How high the moon

 Duílio Gomes e César Camargo MarianoDuílio Gomes revela que, há alguns anos, foi entrevistar o pianista Cesar Camargo Mariano, no hoje extinto Cabaré Mineiro, para um jornal de Belo Horizonte. Cesar daria, naquela noite, um show-solo. Duílio entrevistou o pianista à tarde, o fotógrafo fez as fotos e retornou à redação. Cesar (que foi casado com Elis Regina e é pai dos cantores Pedro Mariano e Maria Rita e pai adotivo do produtor Marcelo Bôscoli, filho do compositor Ronaldo Bôscoli e Elis) convidou Duílio a permanecer no salão vazio enquanto ele repassava, no palco, o repertório no piano elétrico. "Fiquei ali, extasiado", conta Duílio, "ouvindo o piano sofisticado de Cesar. Um privilégio, eu sabia. Pedi um chope ao garçom solitário no amplo salão e mergulhei no universo suingado daquele que é considerado um dos maiores pianistas populares do país. Eu tinha todos os discos dele, solos ou com os seus trios, o Sambalanço e o Som 3. Mas ao vivo era outro mundo.
Jobins, Lyras, Vinicius, Badens e Mancinis desfilaram com seus brilhos particulares na tarde de verão. Então, de repente, entrou How high the moon, uma canção pela qual eu sou literalmente apaixonado, desde que a ouvi pela primeira vez na voz de Ella Fitzgerald. Automaticamente – eu já estava no segundo chope – comecei a rabiscar um texto no bloco da entrevista à minha frente. O texto nascia ao som da canção e do piano macio (soft, como se diz no Jazz) e criativo de Cesar. "How high the moon" - não poderia ser outro o título - ficou inédito durante alguns anos e somente agora vem a público, em
Tanto."

A ilustração

"Blue Angel, que ilustra o conto How high the moon, é coincidentemente, citado no final do conto. Sua autora é Eleonora Goretkin, uma talentosa artista plástica brasileira que mora na Califórnia. Eu fiquei feliz quando ela autorizou o uso do Anjo para ilustrar o conto."

 Contos de Duílio Gomes no exterior

 Em 2006, durante a Copa do Mundo, uma antologia de contos com temática de futebol, organizada por Flávio Moreira da Costa e intitulada "11 em Campo"
( Ed. Francisco Alves), foi traduzida para o alemão e o italiano. "Anpfiff aus Brasilien" e "11 in CampoRacconti di calcio brasiliano" foram lançadas respectivamente na Alemanha e Itália. Uma terceira coletânea acabou saindo, também, em Portugal. Os autores eram, incluindo Flávio Moreira da Costa, Duílio Gomes, Rubem Fonseca, João Ubaldo Ribeiro, Sérgio Sant’Anna, João Antônio, Carlos Eduardo Novaes, Edilberto Coutinho, Edla Van Steen, Antônio de Alcântara Machado e Luiz Vilela.
Contos de Duílio Gomes estão também traduzidos e divulgados no México (revista El Cuento, tradução de Bella Jozef), EUA (Revista Literária da San Diego University, tradução de Malcolm Silverman) e Checoslováquia (uma coletânea de contos brasileiros lançada naquele país com tradução de Pavla Lidmilová).

 

Conto do autor será filmado

Depois de ter contos adaptados para o rádio (MEC) e o teatro (grupos Os Diletantes e TU, Teatro Universitário), Duílio Gomes terá um conto filmado. O cineasta mineiro Breno Milagres fez o roteiro do conto "Todos os Insetos", do autor (incluído em seu livro "Verde Suicida", Ed. Ática), e brevemente começa a filmá-lo, com o título de "Nada será como antes". Os atores já estão escolhidos. O filme, com patrocínio da Lei Rouanet, será um curta, de 45’. O diretor já adaptou contos de Roberto Drumond, Carlos Herculano Lopes e Wander Piroli para o cinema.

 

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