um capítulo do modernismo
brasileiro

Conheci o prof. Delson em 1978, ele professor já maduro, eu um garoto de 19 anos, aspirante a poeta. Com ele tomei conhecimento de muitos  escritores que seriam fundamentais na minha formação
e, também, da VERDE,  célebre revista 
editada nos anos 20 em Cataguases por Rosário  Fusco, Ascânio Lopes, Guilhermino
César e
Enrique de Resende. Já  naquela época ele me dissera ter elaborado interessante pesquisa sobre o  grupo de Cataguases.
Ao longo dos anos o fascínio pela epopéia verde só fez aumentar.
Eis que 20 anos depois  me vem 
à mente o  professor Delson,
era quem poderia me
ajudar a construir um registro amplo e bem fundamentado sobre os verdes e sua famosa  revista.Neste belo artigo ele nos  revela importantes  detalhes de  um capítulo pouco conhecido  da história do modernismo brasileiro. Na sequência
você pode ler também poemas do VERDES. Luiz Edmundo Alves


           OS  VERDES
ANOS
 por Delson Gonçalves Ferreira*  

          "Todos nós  
            somos rapazes 
            muito capazes      
            de ir ver de 
            Ford Verde 
            os ases  
            de Cataguases" 

          Marioswald-Verde  
           

    A VERDE, revista mensal de arte e cultura, 
    durou apenas seis números, de setembro de 
    1927 a maio de 1929. 

      "Somos novos. E viemos (sic) pregar as 
        as idéias novas da Nova Arte. 
        E só. 

        E está acabado. 
        E não precisa mais. 
        Abrasileirar o Brasil - é o nosso risco. 
        Pra isso é que a VERDE  nasceu. 
        Por isso é que a VERDE vai viver. 
        E por isso , ainda, é que a VERDE vai morrer." 

      (VERDE n.1, pag.1)   

       O quinto número é de janeiro de 1928 e encerra a primeira  fase  da revista:  este  número  da  Verde 
    saiu em vermelho... 
       Junto com terceiro número da revista saiu também 
    um volante verde, com o Manisfesto do Grupo Verde (novembro de 1927). O próprio Rosário Fusco me revelaria mais tarde : 
    -- "Bolado pelo Ascânio, com besteiras do  
          Enrique  e palpites meus". Mario de Andrade 
    grande amigo e incentivador, espinafrou:  
    "Quanto ao Manifesto de fato está besta a valer. 
    Só valeu aquele pedacinho apaixonado em que vocês 
    juram trabalhar pela Verde. Achei aquilo de uma  
    lindeza extraordinária. Gozei como o Diabo". 
    (carta a Rosário Fusco, 23/12/1927) 
      O último número da Verde (primeiro e único de 
    uma segunda fase) saiu em maio de 1929. Ascânio 
    morrera em janeiro, com 23 anos incompletos. 
    O  poeta Francisco Marcelo Cabral, editor da 
    revista Meia-Pataca, conterrâneo e da mesma  
    geração dos verdes, escreveu belamente: "Ascânio 
    morria de riqueza interior e física". 
       Esse número final da Verde mudou completamente  
    o seu rosto e apareceu de tarja preta  in memórian 
    do saudoso companheiro. Seria emoção? Pressa? 
    Na capa, debaixo do nome ASCÂNIO, com um  
    pequeno engano nas datas de nascimento e  
    morte do poeta de noivinha imaginária. 
       Assim nasceu e se espalhou  pelo Brasil e no estrangeiro (graças ao dinamismo de Rosário Fusco, verdadeiro relações públicas da revista)  e 
    morreu a VERDE. Porque o grupo perdeu Acânio, 
    seu  poeta-maior,  os companheiros tiveram sua 
    pequena diáspora para o Rio e Belo Horizonte. 
    Ascânio morreu e com ele morreu a Verde.  
    O número de maio é póstumo. Foi editado in memórian 
    do companheiro morto. 
       A Verde foi uma revista ágil, bem impressa, variada 
    e com numerosa colaboração nacional e estrangeira. 
    Informativa, com  curiosa propaganda do 
    comércio e indútria da cidade.  Publicava poemas, crítica literária e rescenção de livros. Apresentou-se bem mais arrumada que sua  conterrânea mais  
    velha  A REVISTA, de Carlos Drummond de  
    Andrade (em 1978, patrocinada pela METALEVE   
    ambas tiveram uma edição facsimilada).  
       A Verde teve muita repercussão, andou pelo 
    Brasil de Sul a Norte, recebeu elogios e críticas, 
    deu seu recado, cumpriu sua tarefa e projetou 
    Cataguases e seu grupo de escritores para o 
    Brasil e... para o mundo. "Verde tem suas páginas 
    abertas a todos os novos do Brasil e do mundo" 
    Verde, n. 1. 
    "Ele (Ascânio) , os outros  meninos da Verde e 
    Humberto Mauro fizeram da cidade uma pioneira 
    artística de Minas." ( Pedro Nava, in Beira-Mar). 
    Sobre a Verde , escreveu Wilson Martins: "Não 
    é preciso mais para concluir que o Grupo Verde tem sido superestimado pelo tratadista do modernismo." 
    ( História da Inteligência Brasileira, Cultrix, 1977) 
    Já Temístocles Linhares escreveu: "O único 
    grupo que se destacou sob prisma  regional, se não estou 
    enganado, foi o dos rapazes de Cataguases". 
    Já meu amigo  verde Francisco Inácio Peixoto fez 
    uma autocrítica: "A VERDE não foi, a bem dizer,  
    uma experiência: antes o resultado de  inexperiência 
    de jovens fogosos dados ao vício impune e que 
    pretendiam haver compreendido e assimilado as 
    proposições dos que fizeram a Semana de Arte  
    Moderna de 22, vindo até eles quando eram ainda, 
    quase todos, ginasianos que discursavam  
    inconsequentemente no Grêmio Literário Machado  
    de Assis",( Totem, 1975). 
       Blaise Cendras cumprimentou num poeminha 
    "aux jeunes gens de Cataguases" e que abre o seu 
    livro de poesia completa: DU MONDE ENTIER 
    AU COER DU MONDE" - 1957. 
       Dos registros históricos relacionados à revista 
    dois merecem destaque: a edição facsimilada da 
    METALEVE, e o curta-metragem Os Verdes Anos, 
    de Paulo Augusto Gomes. Ambos lançados na 
    mesmo época, 1978, em Belo Horizonte.   
        A edição facsimilada possui seis números originais 
    mais um sétimo com apresentação do patrocinador 
    e três estudos de bom conteúdo sobre a revista. 
    Guilhermino César faz uma pequena e segura 
    biografia da revista e do grupo. Seguindo-se os 
    de Cecília Lara e Augusto de Campos. 
       Já no curta OS VERDES ANOS, nota-se  que 
    Paulo Augusto Gomes soube ler com carinho 
    o movimento, visitou a cidade, sentiu os  
    acontecimentos e recordações, impregnou-se 
    da alma de Cataguases e dos Verdes. Criando 
    um filme onde se juntam interpretação correta, 
    colorido suave, texto preciso, a presença de  
    Francisco Inácio Peixoto, falando da Verde e 
    Joaquim Branco falando dos verdes de hoje. 
    A paisagem, o verde, o rio Pomba andando largo  
    e lento e sonolento, o Meia-Pataca, a ponte  
    metálica.Cataguases revisitada. Aí também o  
    desenho sugestivo e de beleza ingênua, retrato  
    da cidadezinha, seu morro, o rio , o trem de ferro, a igreja, a ponte... que Rosário Fusco fez em nanquim 
    para a capa do livro de poemas MEIA-PATACA, 
    de Guilhermino César e Francisco Inácio Peixoto. 
    "Eu fazia cinema, os verdes faziam literatura". 
    (Humberto Mauro). 
       Sete décadas depois, o verdes estão todos mortos. 
       Viraram nome de rua. O rio continua correndo, 
    vagaroso. E o tempo vai passando. Mas ficou de 
    tudo, de todos, uma marca, um poema, um verso, 
    o testemunho de uma geração.   
     

    * Delson Gonçalves Ferreira é professor de 
           literatura, autor de 

         "Ascânio Lopes - Vida e Poesia" 
         "Cartas Chilenas- Retratos de uma Época" 

    Leia um poema de ASCÂNIO LOPES 

    Leia um Poema de ROSÁRIO FUSCO  
     
    Leia um poema de GUILHERMINO CÉSAR 

    Leia um poema de
    ENRIQUE DE RESENDE
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    Capa da Verde nº 1, 1927