SÍNDROME DA DÚVIDA COMPRESSIVA

Cunha de Leiradella

 

O casal caminhava, devagar, pela calçada. A mulher, de calça jeans desbotada e blusa xadrez solta na cintura e uma bolsa de pano a tiracolo, e o homem, de paletó esporte e óculos de aros grossos e um livro debaixo do braço. Escurecia e o trânsito estava lento, e eles caminhavam em silêncio. De repente, a mulher parou e ajeitou a alça da bolsa no ombro.
- Pô. Já tava até aqui daquele táxi.
O homem não respondeu. Um carro saiu da fila e fez a volta, e subiu a outra pista na contramão. A mulher olhou os carros quase parados e cuspiu com força na calçada.
- Se tem merda que me torra é andar de carro deste jeito. Carro foi feito pra correr. Foi feito pra andar assim, não, merda.
Abanou a cabeça com força e começou andando.
- Salvador tá que tá um sufoco mesmo, puta que pariu.
O homem apontou a bolsa balançando e batendo nas pernas da
mulher.
- Quer que leve?
- Precisa, não. Tou é puta mesmo.
Continuaram andando. Na porta de um bar, rapazes e moças, os capacetes pendurados nos guidãos das motos, conversavam e riam alto. A mulher acenou para um deles e voltou-se para o homem.
- É Zeca.
O homem não respondeu e a mulher parou e olhou-o.
- Zeca, pô. Namorado de Aninha.
O homem acendeu um cigarro e continuou andando. Puxou uma tragada profunda e apontou os carros, quase parados.
- Parece até no Rio.
A mulher não respondeu. Acendeu um cigarro e começou andando.
- Vamos sábado em Maré?
O homem não respondeu e a mulher olhou-o durante algum tempo e puxou uma tragada profunda.
- Quer ir, não?
O homem continuou calado e a mulher parou e tirou a areia dos chinelos, e ajeitou a alça da bolsa no ombro. O homem ajeitou o livro debaixo do braço e a mulher passou-lhe um braço em volta da cintura.
- Você vai gostar de Maré, você vai ver.
Voltou-se e apontou o mar.
- Tá vendo lá, depois do farol? Maré é lá.
O homem não respondeu. Puxou uma tragada profunda e jogou o cigarro no chão. A mulher apertou o braço na cintura do homem e encostou o corpo no dele.
- Maré é a ilha mais porreta que tem Salvador. Você vai gostar, você vai ver.
- A gente não ia pra Arembepe?
A mulher olhou o homem e sorriu.
- Agora, sei, não.
Riu e apertou mais o braço em volta da cintura do homem.
- Olhe, nem lhe conto. Tem um amigo meu, Paulinho, Paulinho tem casa em Maré. Você conhece Paulinho, não, ele agora tá em São Paulo, mas Paulinho é porreta, amigão mesmo. De verdade. Só pra você ver, quando Aninha começou com Zeca, Zeca, aquele que tava ali no Quintela, sabe onde eles foram se entocar? Em Maré, em casa de Paulinho. Aninha falou comigo, eu falei com Paulinho, Paulinho pegou, me deu a chave, e nem perguntou. Paulinho é porreta. Cabeça feita mesmo.
Fez uma pausa e jogou o cigarro no chão.
- Vamos sábado? Hem? A chave tá comigo.
O homem encolheu os ombros e a mulher olhou-o.
- Quer ir, não?
O homem não respondeu e a mulher afastou-se e colocou-se na
frente dele.
- Fale, pô.
O homem tirou os óculos e limpou-os, e voltou a colocá-los.
- Você não tá querendo ir?
A mulher sorriu.
- Só por causa de Fiinha. Jorginho tá querendo...
Calou-se e pegou a mão do homem, e apertou-a com força.
- Vai ser legal paca, você vai ver.
O homem não respondeu e começaram andando. A mulher olhando
o mar, do outro lado da mureta, e o homem olhando os carros,
buzinando.
- Puta que pariu. Parece até no Rio.
A mulher parou e voltou-se para o homem.
- Falar no Rio, quê você que resolveu lá na agência, hem?
- Nada. Já não disse a você?
- Naquela hora eu tava era puta.
O homem não respondeu. Ajeitou o livro debaixo do braço e começou andando. A mulher puxou-o pela mão.
- Mas vai resolver. Vai, não?
- Vamos ver.
Calaram-se e começaram andando. A mulher largou a mão do homem e ajeitou a alça da bolsa no ombro.
- Tereza falou, lembra de Tereza?
O homem acenou com a cabeça e a mulher sorriu e voltou a pegar a mão dele.
- Tereza diz que apresenta você a um monte de gente, se você quiser. E Dito, lembra de Dito?
O homem voltou a acenar com a cabeça e a mulher continuou.
- Dito também falou. E olhe que Dito conhece todo mundo que trabalha em propaganda, viu?
Fez uma pausa e olhou o homem.
- Quer que eu fale com Tereza e com Dito? Hem?
O homem soltou a mão e acendeu um cigarro.
- Amanhã a gente vê.
Calaram-se. Estavam a meio do caminho, entre o Farol da Barra e o Barravento, e o homem parou e debruçou-se na mureta, olhando o mar. A mulher aproximou-se e passou um braço nas costas dele.
- Quê que tá olhando?
O homem não respondeu e a mulher debruçou-se também. Batida pela luz dos postes da calçada, a água rebrilhava. A mulher encostou-se no homem e apontou as ondas, marolando, devagar, até à praia.
- O mar também é porreta. Mas eu gosto, mesmo, é da lua.
Endireitou o corpo e apontou a lua, quase na linha do horizonte.
- Parece que tou até olhando pra mim. Quando tou na fossa,
então...
Calou-se e olhou o homem.
- Gosta de olhar a lua, não?
O homem não respondeu e começaram andando. A mulher acendeu um cigarro e ajeitou a alça da bolsa no ombro.
- Por quê que você falou aquilo, ontem, lá no Juvená, hem?
- Aquilo, o quê?
- Aquele negócio de querer ficar em Salvador.
O homem não respondeu e a mulher puxou uma tragada profunda e
soprou o fumo com força.
- Era verdade mesmo? Hem?
O homem puxou uma tragada e jogou o cigarro no chão. A mulher
ajeitou a alça da bolsa no ombro e olhou-o durante alguns instantes.
- Só que, do jeito que você falou, sei, não. Parece até que você tá
muito mais a fim de se picar do Rio, do que ficar em Salvador.
Fez uma pausa e olhou o homem.
- Era isso, não?
O homem não respondeu e a mulher pegou a mão dele e apertou-a.
- Era isso, não?
O homem continuou sem responder e a mulher parou e olhou-o.
- Se arrumar tudo lá na agência, você fica em Salvador?
O homem continuou calado, os olhos vagando no horizonte, por cima da mureta. A mulher olhou-o durante algum tempo e, de repente, puxou a mão dele com força.
- Fale, pô. Parece até que tá com medo, merda.
O homem tirou a mão e começou andando. A mulher ficou parada, olhando as costas dele, mas o homem não se voltou. A mulher xingou um palavrão e correu. Na frente deles, o letreiro do Barravento piscava, iluminando a areia da praia. De mãos dadas, um casal andava, devagar, junto da água. O homem acendeu um cigarro. A mulher puxou uma tragada profunda e jogou o cigarro por cima da mureta.
- Merda. Amanhã tou com prova.
- Vai dormir em casa?
- Precisa preocupar, não. De inglês eu entendo.
Calaram-se. Uma moto passou, a moça colada nas costas do rapaz
e os cabelos esvoaçando. O rapaz gritou e acenou para a mulher.
- Oi.
A mulher sorriu e agitou os braços.
- Oi.
O homem olhou a moto ziguezagueando por entre os carros e a
mulher riu.
- É Zeca. Namorado de Aninha. Aquele que tava no Quintela,
lembra, não?
O homem não respondeu e a mulher riu outra vez.
- Zeca é fora de série. Mal Aninha vira costas, ó. Zeca é porreta.
Cabeça feita mesmo.
O homem parou e olhou a esplanada do Barravento. A mulher continuou andando e parou junto de uma mesa vaga.
- Vai de caipirovsca, não? Tou sequinha, sequinha.
O homem não respondeu, mas aproximou-se da mesa. Sentaram. A mulher pendurou a bolsa nas costas de uma cadeira e tirou a areia dos chinelos. O homem colocou o livro em cima da mesa e puxou uma tragada. Apesar da hora, a maior parte das mesas estava lotada. A mulher passou as mãos no rosto e abanou a cabeça com força.
- Pô. Salvador tá que tá uma merda mesmo.
O homem não respondeu e chamou um garçom.
- Duas caipirovscas.
O garçom anotou o pedido e afastou-se. A mulher olhou as mesas à
volta.
- Tá uma merda mesmo.
O homem não respondeu e a mulher acendeu um cigarro e puxou algumas tragadas. O garçom trouxe as bebidas e ambos beberam, em silêncio. O ar cheirava a maresia e o vento trazia gotas de espuma até à mesa. O homem olhou a mulher. A mulher olhava o mar. O homem puxou uma tragada profunda e olhou a rua, os carros ainda andando devagar. A mulher pegou o copo e bebeu dois goles. Colocou o copo em cima da mesa e ficou olhando para o homem.
- E se você não arrumar nada lá na agência, hem?
O homem não respondeu e a mulher debruçou-se na mesa e pegou
a mão dele.
- Vai procurar outra. Vai, não?
O homem continuou sem responder e a mulher tirou a mão e puxou
uma tragada profunda, e jogou o cigarro no chão.
- Hem?
O homem continuou calado e olhou a esplanada. A mulher olhou a
rua. Ficou assim algum tempo e, de repente, cobriu o rosto com as mãos. O homem pegou o copo e bebeu um gole. A mulher tirou as mãos do rosto e espalmou-as em cima da mesa.
- Tá uma merda mesmo.
O homem bebeu outro gole e olhou a mulher. A mulher abanou a
cabeça com força.
- Tou gostando daqui, não.
Olhou o homem fixamente, durante alguns instantes, e passou as
mãos no rosto.
- Parece que a gente tá presa, merda.
Voltou a passar as mãos no rosto e abanou a cabeça com força.
- Suporto sufoco, não, pô.
O homem colocou o copo em cima da mesa e olhou a mulher.
- Quer ir?
- Ir pra onde, merda? Pro hotel?
Do livro Síndromes & Síndromes (e conclusões inevitáveis)

Cunha de Leiradella
nasceu em Portugal, nos contrafortes
da Serra do Gerês, quase fronteira com a Espanha. Reside no Brasil desde 
1958. Dentre os livros que escreveu destacam-se o romance O Longo  
tempo deEduardo da Cunha Júnior - (Prêmio Fernando Chináglia, 
1981 - Ed. Nova Fronteira), Inúteis como os mortos, contos - (Prêmio 
Cruz e Souza, 1985).Cinco dias de sagração - ( Romance, Ed. Record, 
1993), entre outros.Escreveu também o roteiro do longa-metragem O circo 
das qualidades humanas com direção dos cineastas Geraldo Veloso, Jorge Moreno, Milton Alencar e Paulo Augusto Gomes. Cunha de Leiradella reside  em Belo Horizonte desde 1980.