Cunha de Leiradella

JS
Julio Saens

Ontem, eu fui ao banco. Não tenho dinheiro lá. Nunca tive dinheiro em bancos. Mas o gerente pagou o meu cheque e ainda me ofereceu um cafezinho.
   Eram dez horas da manhã e eu estava junto da banca de jornais da Praça Sete, ali na Avenida Afonso Pena, quando me vi entrar no banco. Calmo. Seguro. Tranqüilo. Como se, para mim, fosse normal entrar num banco. Sinceramente, me espantei. Nunca pensei que um sujeito como eu tivesse tanta tranqüilidade ao fazer uma coisa que nunca tinha feito. E fiquei olhando.
   Do outro lado da avenida, eu acenava para o guarda e para as recepcionistas, e andava, calmamente, até à mesa do gerente. Ele sorriu e estendeu a mão, e pediu que me sentasse. Sentei-me e ofereci o maço de cigarros. Ele recusou, mas colocou o cinzeiro na minha frente. Acendi um cigarro e puxei uma tragada, e olhei o tampo da mesa. Colados por baixo do vidro, meia dúzia de postais coloridos de praias com palmeiras. Puxei outra tragada e olhei-o. Ele olhava-me e sorria, mas o sorriso não sorria. E eu sabia por quê. Todo dia ele sentava naquela mesa e fazia a mesma coisa. Se não fizesse, não teria colocado aqueles postais, ali olhando para ele.
   Do outro lado da avenida, eu olhava o relógio. Dez e doze. Tinha saído para comprar o jornal do meu chefe e há muito devia ter voltado. Mas não me importei. Jornais para o meu chefe eu comprava todo dia. Agora, entrar num banco, era a primeira vez que eu entrava. Acendi também um cigarro e olhei à volta. Se dentro do banco todo mundo sorria e olhava para mim, ali junto da banca ninguém sorria, nem me olhava. E nem parecia conhecer-me. Até o jornaleiro parecia não me ver. Dane-se. Problema dele. Eu estava ali e se ele quisesse ver, que visse. Se não quisesse, que se fodesse. Olhei a calçada, cheia de gente, e encarei todo mundo. Mas as pessoas passavam e não me viam. Olhavam para mim, mas não me viam. Filhas da puta.
   Puxei uma tragada e soprei o fumo na cara de um sujeito, de propósito. Assim, ele tinha que me ver. Mas o filho da puta continuou andando, como se eu não tivesse feito nada. Uma mulher e um garoto pararam do meu lado. Encarei-os e fiz uma careta, e esperei a xingação. Mas a mulher não disse nada e nem o garoto me chutou. Ninguém me via. Era como se eu não estivesse, mesmo, do lado deles. Filhos da puta.
   Será que todos pensavam que eu estava naquele banco? Mas ninguém sabia que eu estava naquele banco. Eu era o único que sabia que estava naquele banco. Era eu que estava lá. E o gerente ainda sorria e olhava para mim.
   Me espantei, quando me vi, com toda calma, tirar um talão de cheques do bolso, preencher um cheque e colocá-lo na frente do gerente. Mas ele não se espantou. Até sorriu mais, como se fosse meu amigo. Visou o cheque, chamou uma recepcionista e mandou recebê-lo. E, quando um contínuo trouxe café, ainda com a maior calma, cruzei as pernas e pedi também um copo de água.
   Sinceramente, quando me vi cruzar as pernas, assustei. Eu nunca tinha cruzado as pernas na frente de nenhum chefe. Mas, quando vi que o gerente não dizia nada, só sorria, sosseguei. Afinal, mesmo sem saber, eu sabia como comportar-me. Sorrindo, a recepcionista trouxe o dinheiro. Um pacote de notas. O gerente contou-as e colocou-as num envelope. Levantei-me. Ele fechou o envelope e entregou-mo, e estendeu a mão, com um sorriso. Do outro lado da avenida, rapidamente, sorri e estendi também a mão, preocupado. Mas não precisava preocupar-me. Dentro daquele banco eu estava mais à vontade do que quando ia comprar o jornal do meu chefe, naquela banca. Guardei o envelope, cumprimentei o gerente, acenei para as recepcionistas e para o guarda, e saí do banco calmamente.
   Do outro lado da avenida, eu esperava. Nunca tinha visto tanto dinheiro e, muito menos, que fosse meu. Por isso, quando um sujeito apressado me empurrou, quase gritei. Apesar da segurança com que me via andar na calçada, tive medo. Será que alguém, além de mim, me tinha visto entrar naquele banco? Preocupado, quis atravessar a avenida. Precisava me ajudar. Mas o sinal abriu e uma enxurrada de carros não me deixou atravessar. Assustado, gritei. Mas barulho era grande e não escutei a minha voz, e não parei. Só me vi acender um cigarro e continuar andando. Calmo. Seguro. Tranqüilo. Como se nem fosse eu.
   Quando o sinal abriu, saí correndo. Se deixasse de me ver, me perderia. E, enquanto corria atrás de mim, eu gritava. Mas não consegui escutar a minha voz e não parei, e dobrei a esquina sem me ver. Quando cheguei ao cruzamento estava só.
   Dobrei a esquina e corri até à outra, mas também não me encontrei. Procurei em todas as esquinas e em nenhuma me encontrei. Centenas de pessoas cruzavam comigo e me olhavam, mas nenhuma delas me via. Nenhuma delas era eu.
   Cansado, desisti de procurar-me. No meio de tanta gente, quem poderia dizer onde eu estava, se ninguém sabia quem eu era? Duas horas atrasado, voltei ao escritório. Mas o chefe não me xingou. Me deu bom dia e o dinheiro, e pediu que lhe fosse comprar o jornal. E eu fui.



Cunha de Leiradella
 
nasceu em Portugal, nos contrafortes
da Serra do Gerês, quase fronteira com a Espanha. Reside no Brasil desde 
1958. Dentre os livros que escreveu destacam-se o romance O Longo  
tempo deEduardo da Cunha Júnior - (Prêmio Fernando Chináglia, 
1981 - Ed. Nova Fronteira), Inúteis como os mortos, contos - (Prêmio 
Cruz e Souza, 1985).Cinco dias de sagração - ( Romance, Ed. Record, 
1993), entre outros.Escreveu também o roteiro do longa-metragem O circo 
das qualidades humanas com direção dos cineastas Geraldo Veloso, Jorge Moreno, Milton Alencar e Paulo Augusto Gomes. Recentemente publicou o romance APENAS QUESTÃO DE MÉTODO, Editora Quartet, 182 páginas. Este vencedor do Prêmio Caminho de Literatura Policial de 1999, em Portugal.
Cunha de Leiradella reside em Belo Horizonte desde 1980. 

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