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Cena 1

Ele insistiu, então atirei. Foi coisa de momento, quando dei por mim já tinha disparado o revólver. Foi igual no cinema. Ele se encolheu com o impacto da bala e tentou estancar o sangue que brotava do peito, manchando a camisa. Com cara de espanto e dor, os olhos turvos. Depois caiu de joelhos e desabou no chão. Um estremecimento rápido e o corpo ficou sem vida.
As pessoas riem quando conto este fato. Vejam bem, eu disse fato. E não caso, causo, historinha pra boi dormir. Foi fato verdadeiro, mas acham que estou mentindo. Aconteceu num bar de um subúrbio de Los Angeles. Perto e tão longe de Hollywood. Uma espelunca imitando um saloon de faroeste, com a indefectível porta vai e vem e o imenso balcão de madeira velha.
Eu estava hospedado num motel vagabundo ali perto e o bar era o refúgio ideal para um roteirista frustrado. Ali ficava apoiado no balcão entornando litros de Bourbon. Numa parede, um pôster com Clark Gable, Marilyn Monroe e Montgomery Clift. E um outro da Natalie Wood. Todos mortos.
Como morto eu me sentia depois de ter vários dos meus roteiros devolvidos pelos estúdios. Inclusive o último, que parecia ter encontrado o caminho certo e me enchia de esperança. Um agente o tinha encaminhado para a poderosa Miramax que depois o enviou para os escritórios da Warner. Seguiu os trâmites perfeitos, inclusive com o aval de Quentin Tarantino, John Travolta e Dustin Hoffman. Mesmo assim, foi recusado.
Mas voltemos ao fato. O cara provocou, disse que eu não tinha coragem.
O revólver era dele e o idiota gostava de fazer roleta russa. Entrava no bar como se fosse dono do pedaço. Catando marra, íntimo da choldra em volta, botava a bala e girava o tambor. Depois apontava pra cabeça e apertava o gatilho.
Eu sempre virava o rosto. Como defesa instintiva contra o barulho do tiro, não pelo receio de ver sua cabeça destroçada pela bala. Na verdade, eu queria mesmo era que o imbecil encontrasse logo o seu fim, acabando de vez com aquela exibição absurdamente suicida. Uma noite ele percebeu meu repúdio e resolveu me desafiar.
Primeiro desandou a falar que roleta russa era apenas para os que encaravam a vida com coragem e desprezo. O momento da morte já estava determinado para todos, escrito nas estrelas ou no cacete a quatro. Mas estava cansado do jogo solitário e precisava de um parceiro pra apertar o gatilho. Alguém especial que tivesse coragem de encarar aquele jogo de vida ou morte.
E foi aí que ele estendeu o revólver pra mim. Um frio na espinha, fiz que não com a cabeça. Ele riu com escárnio, ainda com o braço estendido. Um fio de baba escorria pela boca daquela fuça escarrada de besta. Continuou insistindo, agora zoando com desprezo. Peguei o revólver. Ele estufou o peito, soltou uma risada e eu atirei.
Vamos esquecer polícia, interrogatório, consulado, advogado, testemunhas. Pelos jornais, soube que o cara era um ex-presidiário vindo de Iowa, que até há pouco tempo trabalhava como dublê no cinema. Em seu último trabalho tinha substituído Clint Eastwood nas cenas perigosas de não sei qual filme. Mas antes do término fora despedido, de tanto que aprontara no set. Sujeito perigoso. E eu tinha acabado com ele.

Cena 2

Com a barra limpa, resolvi ficar lá ainda por algum tempo. Estava sozinho e o dinheiro acabando. Al Pacino tinha voltado para Nova York e com ele minha esperança de ter mais um roteiro avaliado. Era o que tinha sido combinado no Café depois do workshop de interpretação, ele entregaria meu texto para o Robert Redford, que o submeteria aos roteiristas do Sundance. Mas a filmagem acabou antes do previsto e Pacino voou de volta para casa.
Mas teria sido aceito? Um roteiro atrevido onde eu praticamente desconstruía os fundamentos da estrutura narrativa tão ao gosto dos americanos e que jogava para o espaço os preceitos de um Syd Field. Duvido. Enfim, mais uma vez na estaca zero, depois de chegar tão perto do Olimpo. Foi quando conheci a Sally e não soube o que fazer com aquele amor demais.
Sally era aspirante a atriz e trabalhava como vendedora numa loja de luxo de Hollywood, em plena Beverly Hills. Fui conhecê-la em outro bar, desses enfumaçados, onde se conversa entre acordes de jazz e blues. Uma negra já velha, com cara e jeito de Nina Simone, cantava ao piano, acompanhada de baixo e bateria.
Eu estava num banquinho do balcão e nem tinha prestado atenção na garota ao lado. De repente, o constrangimento. A cantora me reconhece e me desanca pelo microfone. Já era conhecido, afinal a televisão tinha me exibido várias vezes contando a história da roleta russa. Todos olham para mim.
A coisa engrossou quando começaram a gritar "assassino" fazendo coro com a velha. Momento terrível, pensei que seria linchado. Definitivamente minha estada nos EUA tinha virado pesadelo, parecia argumento de film noir. Só faltava o roteirista americano, porque agora eu sabia que não poderia impor meus textos ao sistema da terra do Big Boss. Globalização ali tem mão única.
A garota me puxou para a rua. Em seguida, estava dentro do carro dela, um Porsche igual àquele em que o James Dean morreu. Na mesma velocidade vertiginosa do carro, me contou sua vida. Filha de pais ricos da Costa Leste, trabalhava mais pelo orgulho de se manter sozinha. Sozinha uma ova, ela continuava recebendo uma polpuda mesada do pai.
Então conheci o paraíso. Do pesadelo ao sonho, vivi uma aventura jamais experimentada. Enquanto ela trabalhava, eu ficava na piscina derrubando taças de martini seco. Com o dinheiro que ela me dava e morando naquela mansão de cinema, esqueci meus roteiros e passei a ser um personagem de ficção, dos muitos que já havia escrito, tipo bon vivant, misto de cafetão e caçador de dote.
Poderia ter dado certo se a Sally não fosse demais. Em tudo. Feia demais, falante demais, chata demais. Apesar da grana, um dragão. O pouco que consegui economizar gastei na passagem de volta. Saí na calada da noite e embarquei num vôo da Varig.
De novo no Brasil, tive com a Globo a mesma experiência de Hollywood. Com a agravante de que a Globo não devolveu meus roteiros. Foi aí que viajei de novo, pra tentar mais uma vez. Mas isto é outra história. Corta.

 

*Contista, mora em Cataguases, Minas Gerais.
E-mail: karlos@acessa.com 
Home page: http://www.carlossergio.cjb.net/

 

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