NO MEIO DA PALHA

Branca Maria de Paula

foto de Luiz Edmundo Alves

 

Então ele me disse muito sério eu sou o lobo, mas eu não acreditei e fui logo chegando perto, chegando perto. E ele gritou não se aproxime, é perigoso e eu disse quem sabe sou eu, tem muito lobo falso por aí, deixa ver.
Mas eu sou o lobo sim, repetiu mostrando as garras.
Que nada, existe um monte de unhas postiças e rabos e orelhas, tudo de mentira. Quero ver de perto, respondi, sempre caminhando na direção dele e insistindo por favor, deixa ver se é de verdade, eu queria tanto encontrar um lobo -sabe como?- daquele que me comesse de roupa e tudo, de repente, entende? Assim, sem eu esperar. E que tivesse uns olhos grandes pra me enxergar de verdade, umas orelhas grandes pra me escutar de verdade e uma boca que pudesse me engolir inteira e uma língua que me lambesse toda como se eu fosse assim um pirulito e me derretesse como se eu fosse um sorvete até me deixar quentinha, molinha, sem conseguir fazer nada, nem mesmo gritar pedindo socorro, só gemesse baixinho na hora do susto. Um lobo assim vale a pena conhecer.
Que me esperasse atrás da moita e de mim fizesse gato e sapato, sem apelação.
Nem reclamar eu ia. Um lobo de braços grandes, pernas fortes, enorme, e que me colocasse na palma da mão. E que me mordesse sem dó, que me comesse sem piedade. Ah, isso anda tão difícil, nem sei se ainda acontece nos dias de hoje. O mundo mudou muito mesmo. Que me comesse aos bocados, soltando grunhidos de prazer pra floresta toda escutar e estremecer de inveja.
Fui falando assim, falando e me aproximando e notei que as orelhas dele tremiam, que o rabo murchou de repente e que baixou o focinho quando parei na frente dele. E também baixou as  pálpebras, envergonhado, quando insisti em olhar ele nos olhos. Tentou ainda um gesto pra me deter. Abriu a boca, mas não conseguiu articular nenhum som.   Deu foi um discreto passo pra trás, parecendo assustado.
Então resolvi mudar de tática. Estendi a mão e num gesto rápido arranquei-lhe as patas, as orelhas e o rabo. Comi aquele cordeirinho ali mesmo, no meio da palha, a
poucos passos da casa da vovó.


branca@bhlink.com.br


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