IDEAL


Conto de
Branca Maria de Paula

 
Fernando Pacheco
Fernando Pacheco


(Coroa)

Peitinhos de virgem, cujo destino é ser sacrificada aos deuses. Corpo de ninfeta, rosto angelical, língua de derreter iceberg, sorriso ingênuo, encantador, inocente, irresistível, fatal. Fogo entre as pernas, colo de mãe protetora e fidelidade de cão.
Gostosíssima, voluptuosa, elegante e discreta. Voraz. Capaz de virá-lo do avesso, sem que isso implique em atrapalhar seu cabelo bem penteado.
Totalmente independente, submissa, com um emprego bastante bom, mas que não roube nenhum minuto do tempo que ele reserva para estar com ela. Sim, que seja batalhadora e divida as despesas da casa, mas que não exagere, por favor, preparando tese no final de semana! Que não descuide das obrigações, deixando que ele banque a babá e receba o chefe sozinho.
Ser simpática e afável com todos os amigos, sem exceção. Saber servir cerveja gelada, coquetéis originais, petiscos maravilhosos e, se possível, arrematar o sábado com uma rápida feijoada. Não ficar se derretendo toda, se exibindo assim pra qualquer um, rindo daquele jeito, espalhafatosa e oferecida.
Ter um porte de rainha, a submissão de uma mucama e a sabedoria de uma gueixa. Receber sogros, cunhados e sobrinhos não apenas com benevolência, mas com certo ar enlevado e uma farta provisão de afeto.
Aplaudir com entusiasmo seus mirabolantes projetos. Ser boa conselheira, excelente ouvinte, ponderada, sensata, ardorosa, desprendida. Acreditar piamente em suas histórias e ouvi-las com interesse, da primeira à última versão. Respeitar seu tempo, encorajando-o a correr riscos em favor do seu crescimento pessoal.
Companheira, voar com ele de parapente. Acompanhá-lo nas trilhas e acampamentos. Ser devota de Santa Clara e nunca perder a fé na vida. Confortá-lo em suas crises existenciais. Ah, compreender sua trajetória e amá-lo de forma incondicional.
Ser mulher, apenas uma mulher.

(Cara)

Esguio, flexível, ágil como uma pantera, sensual como um antúrio. Forte. Elegante. Barba cerrada, sedosa, pele lisa, queixo bem escanhoado, sorriso largo, confiável, seríssimo, louco o bastante para arrastá-la para os quatro cantos da terra, levá-la à Macedônia, Capadócia e até Ruanda.
Ah, ter um certo charme, um certo poder, pelo menos um carro, quem sabe um barco, talvez um pequeno jato, mas não necessariamente, saber como se portar num restaurante requintado, pedir com naturalidade os vinhos mais finos, apreciar faisão, lagosta, ser solidário com as minorias, dar gorjeta farta, sabendo exatamente o valor do dinheiro, porque se fez sozinho e nada cai do céu a não ser chuva, raio, meteorito, cometa, satélite, míssil, resto de estrela, foguete e bomba.
Apreciar a comidinha rápida que ela faz: por que não patê de atum com maionese, pomarola com massa, pomarola com peixe e carnes em geral, arroz semipronto ou batatinha frita que já vem frita?
Usar, sem preconceito, calça com elástico na cintura, bata indiana, rabo de cavalo e sandália franciscana ou alpargatas, só de vez em quando um baseado, nenhum vício da pesada, nem álcool a ponto de comprometer seu desempenho na cama, mas talvez o santo-daime ou um chazinho de cogumelo, como experiência fundamental.
Não apenas aceitar, mas curtir suas amigas, principalmente aquelas que estão sozinhas, desquitadas ou viúvas. Guardar prudente distância, o devido respeito, e estar cego para as outras de modo geral.
Ser um cordeiro, um lobo, amarrá-la ao pé da cama, mas ai dele se for machista e levantar a voz. Levantar o pau, sim, toda vez que ela quiser, mas respeitá-la em seus momentos de recolhimento interior ou franca expansão do ego. Saber ouvir, saber calar.
Não abandoná-la, não pegar no pé. Dormir bem juntinho, não sufocá-la de noite, no mínimo respeitar seu sono. Ser sensível, decidido, carinhoso, tenaz, honesto, com jogo de cintura para resolver situações delicadas e embaraçosas.
Não ter medo de se entregar, repetir juras de amor, ou brandir frases do tipo sem você eu não vivo ou sem você minha vida não tem sentido. Enfim, ser original. Beijar com paixão aquela cicatriz que ela exibe desde que extraiu a vesícula, ou apêndice, ou ovário, não vem ao caso.
Ah, acreditar cegamente na relação. Apostar no amor. Amar o amor.
Ser um homem, nada mais que um homem.

Branca Maria de Paula é escritora e fotógrafa.

branca@bhlink.com.br

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