mariza salles  

BOBBY CHARLESTON

Belvedere Bruno

 

De repente pareceu-me ver Bobby Charleston no meio da multidão. Há anos não o via e corri para alcançá-lo. Ao me olhar pareceu não me reconhecer, e aí perguntei se não era Bobby Charleston. Começou a rir... Disse que nunca ouvira tal nome e que certamente eu o estava confundido com outra pessoa.
Lembrei, então, que Bobby tinha uma cicatriz no pescoço, resultado de um acidente de carro. Olhei e não vi a cicatriz. Inconformada por passar tamanha vergonha, disse a ele que estava tudo bem. Frisei que se fossem gêmeos talvez não se parecessem tanto. Não sabia onde esconder a minha cara.
Bobby era uma figura excêntrica, mas adorável. Usava uma gravatinha borboleta quando ia aos bailes. Jovem ainda, aquele estilo era surpreendente. Tinha um gosto excepcional para músicas e adorava dançar. Exímio dançarino.
Nunca mais vi Bobby... ele fazia questão da grafia. Não admitia uma letra fora do lugar desse nome que passara a adotar em sua adolescência e que perdurara nos doces dias de juventude.
Como a gente pode se perder assim das pessoas?
A partir desse dia que o confundi com outra pessoa, me bateu uma saudade tão grande dele que decidi procurar por todas aquelas pessoas que conviviam conosco na época e as convidar para um jantar num restaurante, ou daqui de Niterói, ou do Rio de Janeiro. Se necessário fosse, São Paulo estava nos planos também.
Contatei algumas pessoas e demos início a essa busca frenética. Passados quatro meses, já começamos a encontrar algumas pessoas. Soubemos, por exemplo, que Paulinho II, o mais paquerador da turma, agora é um sério pastor. Casado, com cinco filhos. Marylucia Mendes, que vivia dizendo que seria missionária na Índia, vive entre a rota Brasil-Estados Unidos. É enfermeira muito bem-sucedida.
Teremos que agendar o jantar num período em que ela esteja aqui. Até o momento não encontramos Bobby, mas a busca continua. Já encontramos muitos, mas contabilizei em trinta os integrantes da turma daquela década de setenta.
Edna Maria, que é assistente social, nas horas vagas está nos ajudando muito. Conseguiu encontrar diversos integrantes através da internet. Faltam oito agora, tirando os três que já estão no andar de cima.
Voltando ao Bobby, quando ele aceitava dar uma de crooner era demais! As moças fingiam desmaiar, gritavam como na época de ouro da rádio nacional... na verdade a maioria era louca por Bobby. Ele apenas fingia não saber, e cortejava todas.
Finalmente encontramos uma pista de Bobby. Um amigo disse-nos que estaria na Austrália e nos passou o telefone de seus pais. Liguei logo para seu Ydeo, na esperança de localizar o meu querido e inesquecível Bobby. Ele atendeu, mas não se lembrou de mim, sequer quando disse que eu era aquela que gostava de colocar uma rosa no cabelo e ele dizia que eu parecia uma cigana... bem, muito tempo, ele deve mesmo ter esquecido. Insisti por saber de Bobby. Ele riu e disse que Bobby, há exatamente dezesseis anos, vivia numa fazenda com sua terceira esposa, uma moça de vinte e dois anos, e com todos os seus onze filhos, frutos de casamentos anteriores e do atual. Fora um projeto acalentado por ele durante toda sua juventude, disse-me seu Ydeo. Bobby tornara-se um ser cuja ojeriza ao caos urbano beirava o anormal. Conforme o tempo passava, ele piorava, até que conseguiu realizar seu desejo. Tornou-se um outro homem.
Na fazenda a paz era total. Viviam todos em harmonia com a natureza, e na necessidade de alguém ir até a cidade cada um era escalado de forma que ninguém fosse penalizado. Pensei o quanto seria difícil convencer Bobby a nos acompanhar, a integrar o encontro da turma. Dei meu telefone a seu Ydeo para que o passasse a Bob.
Ontem à noite, passado exatamente um mês desse telefonema, ao atender o telefone ouvi um homem falando inglês. Não era Edward, o marido de minha prima, que é americano. A voz era diferente. Tanto falou que tocou no jantar. Aí vi que era Bobby Charleston! Que alegria! Abracei-o mentalmente, sorri, sorri tão embevecida com suas palavras, relembrando nossa juventude, nossas festas, ele cantando...
Para concluir o caso, pois já está se alongando demais, digo que o jantar será na fazenda dele, localizada no interior de Minas Gerais, que tem quinze quartos e várias salas. Ainda tem seis chalés no fundo e pode hospedar todos por um final de semana.
E Bobby ainda disse:
— Terei o prazer de oferecer o jantar e muito melhor que isso: eu voltarei a cantar. Por vocês. Por essa alegria que vem se somar a tantas que a vida tem me proporcionado. Despedimo-nos, e ao fundo, do lado de lá, eu ouvia um chorinho de bebê...

Belvedere Bruno é escritora, residente em Niterói - R.J
belvederebruno@uol.com.br

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