João Evangelista
João Evangelista Rodrigues

Agora é meio duvidoso que ele me ensine a pintar uma parede. Já vai bem longe o tempo. Mas os anos, ainda que muito passados, me trazem uma recordação feliz de sua personalidade. Sinto conforto na saudade dele, pela certeza de nenhum remorso. Era seguro, firme e não temia a luta. Embora fosse forçado a curvar diante dela, não cerrava os olhos, para observar a realidade e enfrentá-la sem medo. Mesmo em sua angústia profunda, às vezes, não via impossibilidade de viver. Dos andaimes fazia sua sólida escada de salvação. Era um autoterapeuta, um filósofo peculiar, um pedreiro-arquiteto. Sem dúvida, concebia que a união da alma e do corpo é singularmente estreita. Por isso, não contestava a influência de um sobre o outro. Considerando-se templo, cuidava-se todo sábado. E neste dia, ainda que à noitinha, comia arroz, carne e azeitonas, após um trago de fernete.
É gostoso recordá-lo no sábado, principalmente. Seus olhos avermelhados de cimento e cal encontravam o melhor colírio nesse dia: o ajuntamento da família organizado à sua espera. Ele se fazia rico e nós compartilhávamos disso com alegria.Dele restou um prumo, um esquadro, uma pá e um negócio de alisar paredes, não me lembro do nome.
   Criança, muito criança ainda, meu pai me levava com ele a conhecer o local da construção onde, depois, eu iria levar-lhe o café do meio dia. E não passava de um café sem pão, sem leite, sem broa, sem nada. Apenas um café que de modo milagroso iria recobrar-lhe as energias despendidas. Só a compensação do sábado matava em mim a tristeza de vê-lo todo respingado de tintas e massas de concreto. Parecia um objeto solidificado, em forma humana. Paciente, me ensinava a segurar a brocha e a manejá-la na parede. Embora não fosse de meu agrado, achava-me na obrigação de gostar.
   Completei meus oito anos de idade e nunca mais pintei parede. Meu pai adoeceu. Pediu seu prumo, seu esquadro e sua pá. Imobilizado sobre o colchão de palha, cabeça apoiada num travesseiro de paina, sentindo de perto a própria destruição, reclinava-se para olhar seus instrumentos de construção. Pediu seu prumo, mas não pode mais sustê-lo. Depois de um mês, levaram-no para ser medicado. Não contestou, não implorou, não falou nada.Aceitou. As janelas de sua alma abriram-se para o que não é corpóreo, e parecia que, pouco a pouco, se deixava penetrar no espiritual. E assim, numa construção de silêncio passou para a outra vida.
   Enfisema pulmonar foi o que estava escrito no atestado de óbito.Houve os que choraram e os que o fizeram de fantasia. Não tenho resposta para sua presença, às vezes tão presente. Perdi-me em sua perda. Nele me procuro e insisto na busca do reencontro. A casa em que vivíamos não existe mais. Tudo está dispersado. Nem o prumo restou.
   Agora me encontro na frente de uma parede, com um rolo na mão, querendo dominá-lo, na carência e me dominar. Sinto que o rolo me obedece, deslizando-se corretamente. Minha mão parece guiada por mão experiente em manejar o rolo, em saber molhá-lo na tinta. Penso na brocha, no esquadro e no prumo. Solto o rolo. Ele traça uma figura geométrica e cai a meus pés. Não escuto nada. Não enxergo nada. E, num gesto automático, entrego tudo, rolo e tinta, para o meu irmão que está ao lado.

 

Escritora e promotora cultural, publicou Viver; Dez Contos e uns Quebrados; Tatuquinha; Seu Nome Está na Rua; COIMBRA (gente, história e lendas); Emílio Jardim (amigo de Arthur Bernardes); O Encantamento de França. Reside em Viçosa, Minas Gerais, onde anualmente organiza O Encontro de Escritores, que em setembro de 2001 realiza sua 4ª edição.

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