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NO ITARARÉ
Antonio Roque Gobbo

 

— Tou esperando nenê.
— Que? Cê tá brincando!
— Num tou brincando, não, Miro. Tou grávida.
— Cê tem certeza?
— Claro.
— Puta que pariu! Mas...e agora, Rê?
— Sei lá.
— Cê falou com mais alguém?
— Não. Tou falando com você. A gente é que tem de achar uma saída.
— Só casando. Cê tem de apressar o casamento.
— Agora num dá. O Lino tá desempregado, num tem condição.
— Vai ter, sim. Eu é que não posso.
— Eu sei, Miro.
— Vai ver, nem foi comigo que você arranjou esse nenê.
— Argemiro!
— É. Depois que ficou noiva, tá muito diferente.
Argemiro e Regina são primos. Têm a mesma idade e sempre tiveram uma amizade especial. Freqüentaram a mesma classe do grupo escolar, quando passavam juntos todas as tardes, fazendo os deveres de casa. Tal convivência continuou mesmo depois, quando ele foi para o ginásio e ela para o colégio das freiras. As famílias eram vizinhas, moravam no mesmo quarteirão, as casas lado a lado, o que facilitou as coisas para os dois.
Brincavam juntos enquanto estudavam, e no tempo devido, com a intensificação dos hormônios, começaram as palavras de dúbio sentido, as bolinagens e essas coisas que acontecem na vida dos adolescentes. A sexualidade desenvolveu-se nessa promiscuidade aparentemente inocente.
Passaram da puberdade à juventude e das simples brincadeiras à efetiva prática do sexo. Julgavam que se gostavam, mas era a força da natureza que os levava por esse caminho — é claro, que usufruindo o prazer que tal relação lhes proporcionava.
As famílias de nada desconfiavam, mesmo porque os dois sabiam manter o segredo. Chegaram à idade adulta usufruindo a relação. Miro não se interessara nem por meninas, mocinhas ou mulheres, já que sempre estivera satisfeito com a prima. Não sentiam vergonha nem ultraje no relacionamento. Foi algo que se inseriu na vida de ambos com tanta intensidade e naturalidade, que tinham como normal. Anormal era, no entender de Miro, o namoro de Regina com Lino. Regina teve uns namorados, coisa sem importância, pois gostava mesmo era dos encontros fortuitos com o primo. Até que encontrou Durvalino. O rapaz conquistou o coração da moça e azedou o relacionamento dela com o primo.
A tarde estava quente, mas ali, à beira do Rio Manso, onde se espraiava e formava uma pequena praia, estava fresca e tranqüila. Esconderijo perfeito para os encontros, de difícil acesso, protegido pela mata que acompanha o rio e pela má fama do pântano mais abaixo, onde o itararé já engolira diversos animais. Miro, entretanto, usa uma rude picada onde o Fusca passa raspando os galhos, levando Regina escondida na parte traseira do carro.
Os dois discutiram diversas vezes o problema da gravidez de Regina. Agora, estavam à sombra de velhas árvores, deitados na grama fresca, depois de se satisfazerem mutuamente.
— Nem sei se o filho é meu!
— Miro! Em toda a minha vida, só dei pra você.
É. Mas agora anda com esse pilantra pra baixo e pra cima. — Levantando-se, Miro mostra sua raiva, com a voz alterada, que revela, também, ciúme do rival.
— Pois é. Ando sim. É problema meu. — Magoada com as palavras dele, ela também se levanta, para lhe responder cara a cara.
— Tenho certeza de que esse nenê não é meu, não. — Miro abre a porta do carro, preparando-se para partir. — E tem mais. Não quero saber mais de nada com você.
Regina salta, tal qual uma jaguatirica, a mão avançando para o resto de Miro, as unhas transformadas em garras ameaçadoras.
Ágil, o rapaz se esquiva do ataque felino da prima, ao mesmo tempo em que lhe passa uma rasteira. A moça cai e bate com a cabeça na extremidade do pára-choque do carro.
— Ai! — Exclama numa voz débil. — Miro...você me...ai! — E desmaia.
Miro vê o sangue escorrendo pela ferida na fronte da moça.. Ajoelha-se e passa o braço direito por sob a cabeça.
— Rê! Regina! Acorda! — Passa a mão esquerda sobre o ferimento, tentando estancar o sangue, que desce pelo rosto, pelas orelhas e empasta os cabelos, manchando a manga da camisa de Miro.
O desespero toma conta do rapaz. O sangue pára de correr, igual a uma mina secando. Miro não sabe o que fazer. O corpo subitamente afrouxa em seu braço. Tenta sentir o coração, colocando o ouvido no peito da moça. Sente o sutiã fino, o corpo está quente, mas nada ouve nem sente a respiração.
O desespero transforma-se em pavor. Ela está morta! Meu Deus, que foi que eu fiz? Abraça o corpo inerte, numa tentativa de reanimá-lo. Inutilmente. Deixa o corpo sobre o capim, levanta-se e corre até à margem do rio. Sem ter idéia do que fazer, tenta lavar a manga da camisa, manchada pelo sangue. A mancha, diluída, aumenta, atingindo o peito. O frio da água parece devolver-lhe o raciocínio.
Não posso levá-la pra cidade. Vão dizer que eu matei. Vão descobrir que ela tá grávida. Tou fudido! Também não posso deixar aqui. Jogar no rio. Sim. É isso...vou jogar no rio, pensarão que se afogou.
Volta para perto do carro, toma o corpo em seus braços e dirige-se para o rio. Pára a alguns metros da margem. Não vai dar certo. A ferida na cabeça...
Coloca o corpo no chão e fica agachado. Lágrimas começam a escorrer pelo rosto. Fica algum tempo assim. Tou fudido! Tou fudido.
De repente, uma idéia lhe vem à mente. O sumidouro. Lembra-se das histórias do local terrível, ele mesmo tendo chegado até perto, para ver como as areias movediças engoliam pedras e galhos que fossem lançados à sua superfície.
É pra lá que vou levar. Vai sumir, ninguém vai descobrir.
O pavor e o desespero dão força ao rapaz. Caminhando sob as árvores, insensível aos arranhões causados pelo roçar dos galhos secos, penetra no temível local. Uma clareira se abre. As árvores cedem lugar a uma vegetação rasteira, de taboas e lírios-d´água. É um pântano, no centro da qual está o itararé, um sumidouro. Um espelho d´água sinistramente tranqüilo esconde as perigosas areias que tudo engolem. Miro sabe até onde pode caminhar com segurança, sem perigo de afundar. Pretende empurrar o corpo para o centro do sorvedouro. Caminha devagar, passo após passo. Só avança o passo quando sente o pé dianteiro firme. Chega bem próximo da borda de terreno úmido, ajoelha-se e se debruça sobre o pântano, no intento de deitar o corpo e empurrá-lo para dentro do sumidouro.
Ao se ajoelhar, toma cuidado para não escorregar ou resvalar pelo chão de barro e limo. É quase com carinho que se debruça sobre o brejo, para depositar a moça, quando sente algo nas costas.
A sensação é de um abraço. É como se a prima o estivesse enlaçando, sobre a camisa molhada de suor. num último amplexo. Mexe os ombros, na tentativa de se desvencilhar do braço que se lhe agarra às costas. Mas o braço, e agora, a mão em sua nuca, o agarram fortemente. O corpo do rapaz está perigosamente inclinado para frente. Porra! Me larga! Tá querendo me levar junto? Pensamentos estalam em seu cérebro em relâmpagos de terror.
Os movimentos frenéticos para se livrar do abraço da morta fazem-no perder o equilíbrio. Vê, aterrorizado, o próprio rosto refletido na água escura, vindo ao seu encontro. É a última visão que tem de si mesmo e do mundo dos vivos. Sem poder se livrar do braço de Regina, tomba com ela e é arrastado, inexoravelmente, para o centro do itararé.  

Antonio Gobbo – BH, 21 de março de 2005 – nasceu em 1935, em São Sebastião do Paraíso, Minas Gerais. Já publicou diversos livros, dentre eles a Babel da Torre, A loucura do Cristal . Em dezembro lançou Minha Doce Vampira, pela Anome Livros.
tonyargo@terra.com.br

Conto # 337 da série Milistórias

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