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O Rato

Alan Miranda


Serguei é filho de Baala, a minha gata.
Ainda é jovem,
diferentíssimo da mãe.

Baala odeia carinho,
É introspectiva
e gosta de tocar,
mas não ser tocada.
Se você faz um carinho, ela rosna,
se olha para ela, rosna,
Se der comida, rosna,
se está feliz, rosna.
Não sei o que houve com ela,
acho que só terapia na coitada.

Já Serguei,
é só carência e travessuras.
Passou da puberdade
e adora colo e carinho.

Baala odeia isso nele
e sempre que pode, e não pode,
rosna para filho
e bate nele também.

Agora há pouco
percebi um movimento estranho  entre os dois
e fui ver o que era.
Serguei acabara de pegar um ratinho
que ainda estava vivo.
Gatos domésticos raramente comem ratos.
Brincam com eles até que a morte chegue,
e o roedor pare de pular, ou agonizar.
E isto pode durar horas.
O Ratinho, coitado, gritava e voava
com a força das patadas e mordidas de Serguei.

Refleti, então,
como era cruel isso para aquele jovem ratinho.
Mas também pensei que achar aquilo cruel
seria moralizar algo
que é próprio da natureza daqueles dois:

Serguei,
o de comer ou ao menos morder o rato.

O rato,
de simplesmente morrer e ser comido naquele momento.

Os biólogos estão acostumados com isso
e deixam a natureza seguir seu curso.

Era o que eu iria fazer.

Inclusive estava conversando sobre isso tudo
com Serguei e James, o rato,
que a essa altura já tinha até nome.
Serguei realmente não ligava para as minhas
conjecturas.
Mas James parecia discordar.
Essa coisa do mais forte vencer
era uma grande sacanagem para ele.
Ao menos parecia.

E, se eu fosse um dos dois,
provavelmente eu seria James,
que gritava, gritava, gritava...
Sempre me sinto o otário na história.

É sempre complicado
saber o que é certo ou o que é errado nestas
situações,
já que a moralidade é uma invenção nossa,
e a fome – invenção da natureza –
não participa dessas formulações.
Nem a fome, nem a morte,
os instintos de maneira geral
e nem as fermentações intestinais.
Essas coisas chegam
e agente que se arranje,
ou não.

Então entendi a minha responsabilidade.
Parei o papo, alisei Serguei, o segurei
e pendurei James pelo rabo:

- Eis que surge o elemento racional para atrapalhar o
curso da natureza,
e, por tanto, a sua morte, meu caro James. Os Biólogos
que vão à merda. Vai-te embora meu caro roedor. Esse
gato aqui come ração, e uma bola de algodão
substituirá tranquilamente a sua ânsia de brincar.

Mãe e vizinhaça ficaram indignadas
ao me ver levando James para o jardim da rua
e dando-lhe a oportunidade do esconderijo entre as
plantas.
E ainda dei tchau.

Serguei parece não ter gostado.
Mas, teve que correr da mãe
que resolveu rosnar de novo e bater nele.

A Serguei dei uma bola de algodão,
a James mais tempo de vida,
aos biólogos alguns desaforos,
e a vizinhança duas ou três bananas.

Ganhei o dia.
(Às vezes me sinto um super-herói - baiano...)


Alan, o Miranda.
alanmiranda2@yahoo.com.br
http://www.alanmiranda.blogger.com.br


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