"lama" é alma 
livro de Anelito de Oliveira,
orobó edições, 2000.

Capa de LAMA - reprodução

 

WILMAR SILVA

lama - é objeto de papel com vogal e consoante, letra de lanho? rendível a fôlego e lanterna de lince, letra "de ir ver de/ forde verde" poeta sangrando carvão, eu bebo sim, eu como sim, corpo e alma e um silvo só – lama é alma, alma de poeta que escreve "pênis arrefecido no perfume do sono", lama não é sindrome de menos através da catarse "nada contém a bomba de ódio que dispara no meio do meu coração da cara", nem fogofátuo de "caramujo a reluzir na areia como diamante", é mais aquele monstro-quimera – "algo que deve ser a morte com sua sombra de aço", lama subverte na medida em que devolve à poesia brasileira contemporânea, o poema em seu inferno/purgatório/paraíso impregnado de vida e morte, não sob/sobre o eclipse/elipse de quem habita o sol que nasce amarelo todos os dias em algum veludo azul, aqui não confundir nem de longe com araçá azul de caetano veloso, lama é síncope da agonia – onde o protagonista não é uma invenção de signo e símbolo, mas gritaria difícil e até impossível de ver/ler o poeta, anelito de oliveira -, é sincero o bastante em seu curral-cidade, lama de negrume, lama de brancura, lama de vermelho, lama de milcor, lama-lodo, lama-lhama, rediviva em negro-branco-negro, para lembrar rosário fusco, "uma bosta qualquer", ase de anelito de oliveira – "sóis rachados", "paraísos enforcados", "pássaros inutilizados", aqui em lama, "uma lança se lança" no "campo de pregos" pelas "ruas invernadas" – trevo/treva – memorial de orides fontela, apreensão de outro poema sujo, de outra luta corporal, como sub/emergir-sorver "há uma gota de sangue em cada poema" e arriscar rediviva lembrança "verde"jante, lama – também "fio terra", aqui de minas gerais, a armando freitas filho -, lama não é lenha inerme em cima do muro, é poesia de elefante em terra de olavo bilac, lama é antídoto, é - invés de poesia percalço-concreto, antipoesia de arame farpado e arestas fincadas na língua para sangrar em poema, floema de "ferida e feridas" em corrosão "palavras e espadas", ler "palavras e espadas" como quem passa pela praça sete de setembro em belo horizonte e redescobre o pirulito-voyeur de uma guerra noite/dia/noite, espécie de escrita renhida em farpas e larvas, resposta como aquela de josé paulo paes, "a poesia está morta mas juro que não fui eu" ou "para um bom entendedor meia palavra bos-", lama sim, lama é áspero que se amplia até o plural-ímpar, no ímpeto e sem embuste, no embate, e mais: poesia que abrange além do relevo do olhar – lama é lâmina, ponta e crivos a favor do poeta sempre em sentinela, lâmina-"lança" selvagem e animal, serlírico, antilírico de garra e gancho e tentáculo de "inseto azul" "no meio das coxas desta tarde partindo a luz", livre de qualquer fetiche mas, desde sempre, dedentro e nofundo, poesia-totem, totem de íris a olhar-oblongo, coração e cérebro, poesia com espinha dorsal, ascendente, lama lança fagulha, agulha muito afiadíssima na estrutura poética da suposta vanguarda cívica brasileira, é nesse sentido e nesse viés que anelito de oliveira é pujante e visceral, antropofágico antenado, como em ezra pound, "aquilo que amas muito não será tirado de ti, aquilo que amas muito é tua vera herança".

wilmar silva Poeta, autor de vários livros, entre eles: Lágrimas e Orgasmos, 1986. Ed. Arte Quintal/BH.  Cilada, 1997 - Guimarães & Tofallini.
Pardal de Rapina, 1999 - Orobó Edições.

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